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O antes e o depois dos brasileiros

ESTADO DE SP 27 DE JULHO DE 2008

O antes e o depois dos brasileiros

Obras de escritor e antropóloga iluminam transformação de 450 anos de repressão em 50 de liberdade

Francisco Quinteiro Pires

 

No poema Erro de Português, Oswald de Andrade escreveu:

"Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português"

A julgar pelo conteúdo de Sexo À Moda Patriarcal, livro da antropóloga Fátima Quintas, mesmo chovendo, o português não só não vestiu índio nenhum como tirou a própria roupa. E fez isso por livre e espontânea vontade. Quando o colonizador chegou aqui, criou um cenário de "intoxicação sexual", propiciado pela mansidão - e ingenuidade - das indígenas, acostumadas a servirem de "suporte econômico" em suas comunidades.

Tirando esse ambiente libertário criado nos inícios da colonização e o "toque dionisíaco" dado pelas negras escravas, a mulher no Brasil, sobretudo a branca portuguesa, era submetida a um triste regime de recato e isolamento. (As válvulas de escape sempre existiram, seja o confessionário do padre de ontem, seja o divã do psicanalista de hoje). Mas aqueles 450 anos de repressão foram sucedidos por cerca de 50 anos de vertiginosa flexibilização dos costumes, segundo Fátima Quintas.

A secular sociedade patriarcal do País deu lugar à nova sociedade do consumo, onde os papéis se estruturam mais por status, dado pela profissão, do que por gêneros e suas funções estratificadas. Os personagens de Depois do Sexo, do gaúcho Marcelo Carneiro da Cunha, têm de lidar com as angústias das mudanças provocadas nos relacionamentos desde de meados do século passado. Hoje é complicado falar do homem como chefe absoluto de uma família, além de entender o que significa a própria idéia de família. Para discutir essas transformações, o Estado propôs aos dois autores que fizessem três perguntas um para o outro (leia mais ao lado).

"A mulher brasileira tem uma história pautada pelo patriarcalismo, que conseguiu domesticá-la", diz Fátima Quintas. "Mas um processo educacional sistemático, importante na revolução cultural feminina, reverteu a atitude da mulher", completa a pesquisadora da Fundação Gilberto Freyre, no Recife. Qualificada profissionalmente, a mulher abandonou os estereótipos do passado, embora haja zonas de conflito, como a conciliação entre vida doméstica e pública. "É indubitável que está emergindo uma nova mulher, que deseja erradicar o isolamento arcaico do gineceu da casa-grande", diz.

Nessa nova situação, o processo é espinhoso tanto para as mulheres quanto para os homens. "A vida se digitalizou, mas nossas emoções continuam analógicas", diz Marcelo Carneiro da Cunha. "Meu livro fala de nossa época, em que tudo começa com sexo e depois vem o diálogo, eventualmente o amor", emenda o ficcionista. Segundo Marcelo, não há mais espaço para o automatismo do passado. O leque de escolhas aumentou, causando mais angústias. "Entre encontrarmos alguém e termos sexo com esse alguém, e chegarmos até uma relação amorosa, colocamos muitas camadas."

Mas o problema é que uma das promessas contemporâneas é a ausência de sofrimento. Para fugir dele, existem os entorpecentes, como a cocaína, ou os remédios, como o Valium (tranqüilizante), presentes em Depois do Sexo. Aqui e ali aparecem pílulas para os tormentos psíquicos e cosméticos para as insatisfações estéticas dos personagens. "No lugar das drogas do bem-estar, prefiro acreditar na boa e velha literatura, na psicanálise e na dureza inerente a qualquer processo de transformação", diz o escritor, crente no poder curativo da palavra. Depois do Sexo (Record, 320 págs., R$ 38) dá a impressão de que ninguém se interessa pelos problemas - e dores - do outro, o que não impede as tentativas de priorizar o amor no decorrer da narrativa. Entre encontros e desencontros, os personagens, exaustos, dopados de cansaço e produtos químicos, se entregam ao sexo, mas sem haver uma entrega até a exaustão. É como se eles precisassem descontar em poucas horas, no tempo que sobra no fim de semana, as aflições acumuladas entre segunda e sexta-feira.

O uso de drogas está por trás da ida do cirurgião Matias para um serviço de atendimento de emergência. Por causa dessa mudança, ele conhece Érica, uma "quase psicanalista", e Márcia, uma juíza. "Esses personagens elegem os relacionamentos como a coisa mais importante da vida, mas a toda escolha, e essa é possível, vem associado um custo", ele diz. Marcelo Carneiro da Cunha diz que as pessoas não estão preparadas para fazer concessões nem assumir sacrifícios, sobretudo as pertencentes às classes média e média alta. "Olhem ao redor e vejam quantos casais são construídos a partir de indivíduos de classes e passados muito diferentes?"

O escritor lembra que as relações, inclusive as afetivas, são construídas dentro de uma estrutura de classe, fenômeno exacerbado pela sociedade do consumo, "onde tudo tende a ser tratado como produto e não somos exceção". O negócio é, tal como fazem os personagens de Depois do Sexo, tentar agir contra essa lógica, segundo o autor.

Em Sexo à Moda Patriarcal, a antropóloga Fátima Quintas apóia sua reflexão nas obras de Gilberto Freyre, principalmente em Casa-Grande & Senzala. Freyre foi um dos primeiros pensadores a dar atenção às relações de gênero, abordando o papel das mulheres na vida cotidiana dos engenhos de cana-de-açúcar. O interesse do estudioso pernambucano pela vida doméstica e o seu estilo de escrita sensual impregnam Sexo à Moda Patriarcal (Global, 181 págs., R$ 32). "Quando Gilberto Freyre lançou Casa-Grande & Senzala em 1933, recebeu ataques de que o livro tinha um estilo romanesco", diz Fátima. Ela cita Proust, Drummond e Rilke em seu livro, pois acredita que a literatura e sua beleza estética democratizam as ciências sociais.

O ensaio de Fátima é dividido em três partes, cada qual tratando da sexualidade das índias, das mulheres portuguesas e das negras escravas. Segundo Fátima Quintas, as relações entre os gêneros tinham mais restrições até do que as raciais. Para mostrar essa realidade, a pesquisadora da Fundação Gilberto Freyre vai aos detalhes da moda, da religião e da própria casa-grande que envolvem as representantes femininas das três raças. A intimidade é alçada como elemento para análise histórica.

Embora tudo girasse em torno da figura do colonizador, as negras e as índias de alguma maneira conseguiam espaços que nem as sinhás brancas tinham direito. Dentro da casa-grande, a mãe era na prática uma negra escrava, que cuidava das crianças desde a amamentação, às vezes fazendo soar uma voz mais alta do que a da reclusa sinhá, embora sempre mais baixa que a do senhor de engenho.

Apesar da repressão social e sexual exercida pelo colonizador durante séculos, Fátima Quintas joga luzes sobre o papel feminino, às vezes de contraponto, mas digno de nota, na construção da sociedade brasileira. Os costumes mais flexíveis, possibilitados pela revolução sexual dos anos 1960, tornaram esse papel ainda mais determinante.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

''Não existe escravidão sem depravação sexual''

Fátima Quintas: Autora de Sexo À Moda Patriarcal

 

Marcelo Carneiro da Cunha: O jornalista Eduardo Bueno, quando fala do descobrimento, coloca nossa formação simbólica na fusão entre portugueses e índias. Esses portugueses fugidos não podiam voltar a Portugal. Criava-se uma nova nação. Existe essa presença da visão sexual dos indígenas na formação da nossa sociedade atual?

Fátima Quintas: Ainda que o indígena tenha sido catequizado em missões jesuíticas, seus valores se disseminaram no nosso inconsciente coletivo. O Brasil traz inscrições indeléveis do mito fundador, a evocar o pensamento de Darcy Ribeiro (1922-1997). Há uma presença simbólica do atavismo de origem, garantindo à cultura brasileira um ethos híbrido, pleno de vivências sexuais: escutamos o ranger fescenino da rede no alpendre da casa-grande, que carrega traços de erotismo e fantasmas do ócio, e vislumbramos a nudez bem-vinda ao solo tropical, a exibição de corpos menos preconceituosos, a limpeza epidérmica dos sedutores banhos de rio. As ressonâncias do mundo primitivo chegam a uma impregnante sociologia genética.

M.C.C.: No seu livro, as mulheres brancas do mundo colonial brasileiro aparecem praticamente desprovidas de protagonismo. Onde e quando esse protagonismo se produz? De onde surge a mulher contemporânea brasileira?

F.Q.: A sociedade patriarcal glorificou o falo como emblema de virilidade. Até mesmo a religião - o cristianismo lírico e sensual, como identifica Gilberto Freyre - fez vista grossa a esse desregramento sexual. E, ao embalo da autoridade da cana com sua estética igualmente fálica, a vida das nossas bisavós foi recatada, mulheres educadas para servir ao homem, como boneca de carne do marido, indo para cama todas as noites à disposição do desejo do macho. As mudanças bruscas nos destinos das brasileiras aconteceram no século 20 com o urbanismo e a industrialização, associados ao impacto indireto das Guerras Mundiais. A ideologia contestadora dos anos 1960 - descoberta da pílula anticoncepcional, luta feminista, maio de 68, movimento hippie, conquista espacial, Beatles, Flower Power, Woodstock - contribuiu para novas abordagens de gênero. A nossa mulher tem 450 anos de história de silêncios contra 50 de vertiginosa liberação.

M.C.C.: A negra surge como livre e sexualmente ativa, numa imagem presente no nosso imaginário, que é reproduzida à exaustão pelo carnaval, por exemplo. Ela é um elemento de vanguarda na construção do sexo moderno no Brasil?

F.Q.: A escravidão representa uma mácula traumática na história do Brasil. E não há escravidão sem depravação sexual. Faz parte da essência do regime tal distorção. A negra não foi livre. Ela agia sob o mando de um colonizador autoritário, despótico e absoluto, representativo de uma entidade econômica que não tergiversava diante do poder. Restavam-lhe, portanto, a submissão e a obediência. A casa-grande acolheu a síndrome da genitalidade, rotina pautada em delírios eróticos, uma vez que o português se envaidecia de sua dimensão libidinosa. A negra trouxe o toque dionisíaco, extrovertido, alegre, capaz de reverter um quadro de tristeza, tão bem delineado pelo escritor Paulo Prado em Retrato do Brasil e tão acentuado numa sociedade monista, a do passado, erigida em bases do monopoder, do monossexualismo e da monocultura.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

''Nunca compreendemos tanto o amor quanto atualmente''

Marcelo Carneiro da Cunha: Autor de Depois do Sexo

 

Fátima Quintas: Na dialogação ficcional do romance Depois do Sexo, existe uma recorrência freqüente ao psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), uma figura que se tornou emblemática na França por ter sido um intérprete renovador do pensamento freudiano. A composição das imagens da personagem Érica, a quase psicanalista, que abandonou os estudos sobre Lacan para atuar como DJ em festas noturnas, sofreu alguma influência da psicanálise?

Marcelo Carneiro da Cunha: Eu sou um gaúcho que passou a viver na cidade de São Paulo. Porto Alegre deve ser a cidade mais psicanalítica do Brasil, dentro da tradição platina em que vivemos. Nós tivemos a influência direta da migração dos psicanalistas argentinos, que trouxeram Jacques Lacan na bagagem, isso é um fenômeno francês e argentino. Tempos atrás eu me analisei brevemente com Contardo Calligaris, durante a fase porto-alegrense dele, e atualmente eu me analiso com um dos grandes lacanianos do Rio Grande do Sul. Isso não me impede, no entanto, de encontrar uma boa dose de besteirol no discurso francês de Lacan e dos desconstrucionistas, como Jacques Derrida e companhia. A Érica, personagem do meu livro, é uma quase psicanalista, uma representante desse sistema de pensamento, mas que se liberta dele. Acho que Lacan é um sujeito brilhante que disse algumas besteiras. Érica acha a mesma coisa, mas de uma maneira um tanto mais radical do que a minha.

F.Q.: As relações amorosas entre os personagens de Depois do Sexo revelam-se mais epidérmicas do que afetivas, parecem uma entrega ao prazer pelo prazer. Seriam elas um manifesto, uma denúncia do mundo atual ou refletem tão-somente a essência de uma natureza humana?


M.C.C.: Eu acho que as relações sexuais dos personagens de Depois do Sexo são muito mais epidérmicas do que afetivas, mas isso é o tipo de coisa que se espera das relações sexuais em nossa época, na minha opinião. As relações amorosas seguem sendo amorosas, e talvez mais amorosas do que jamais tenham sido. Talvez porque nunca compreendemos tanto o amor quanto hoje. Não temos mais medo de morrer de fome, com exceção das pessoas que vivem na Somália, ou algo assim. Atualmente sobram muito mais tempo e energia para dedicar ao amor.

F.Q.: A rotina do cirurgião Matias, que é o núcleo central do seu livro, um médico que trabalha para um serviço de emergência e que assiste diuturnamente à luta dos pacientes pela vida, tem alguma correlação com os focos temáticos da sexualidade, como se fosse um contraponto entre a mitologia de Eros e a de Tânatos?


M.C.C.: Sim. Seguramente que sim, e me alegra que tudo isso tenha sido percebido. Entrevistando muitos médicos para fazer Depois do Sexo, me veio a percepção de que os médicos estão se afastando cada vez mais da vida e de seus pacientes, nos termos definidos pelos planos de saúde. Um médico forçado a reencontrar o seu pacto com a vida, ao ir trabalhar em um serviço de ambulâncias, após ser afastado da função de cirurgião, tem a chance de refazer o contrato consigo mesmo e com os outros. Isso é o que move o personagem Matias, além da esperança que ele sente, de maneira esperável ou não, de refazer o seu contrato com o mundo. Trabalhar em um serviço de ambulâncias me parece uma forma eficaz pra caramba de ajustar contas com tudo e com todos.

SOBRE LORCA

 
FOLHA DE SP, 27 DE JULHO 2008

O Mundo Alucinante

PUBLICADO EM 2002, "GARCÍA LORCA E CUBA - TODAS AS ÁGUAS" PERMANECE VIRTUALMENTE DESCONHECIDO DOS CRÍTICOS; AUTOR EXPLICA QUE NÃO TEVE ACESSO À INTERNET E QUE FEZ SUA PESQUISA PELO CORREIO, DURANTE DOIS ANOS


Lorca se entusiasmou com o sotaque da ilha e exerceu uma liberdade sexual como jamais havia conhecido; ele foi muito livre aqui; não há registro de nenhuma reprovação a sua conduta sexual


Dusam Zidar/Shutterstock
 

Praça da Catedral, em Havana, uma das cidades visitadas pelo poeta surrealista espanhol Federico García Lorca durante os três meses que passou em Cuba, em 1930, vindo dos Estados Unidos

LAURA CAPRIGLIONE
ENVIADA ESPECIAL A MATANZAS(CUBA)

 

Não há lugar no mundo que mais cultue a lembrança de Federico García Lorca (1898-1936) do que Cuba. O prestígio do poeta e dramaturgo andaluz do "verde que te quiero verde", que foi assassinado por militantes franquistas logo depois da deflagração da Guerra Civil Espanhola, resiste na ilha dos irmãos Castro.
É o escritor estrangeiro mais lido e representado, apesar da declarada preferência dos hierarcas comunistas pelo americano Ernest Hemingway (1899-1961), que chegou a morar na ilha.
Lorca passou meros três meses na ilha, no ano de 1930. Nas palavras do pesquisador Urbano Martínez Carmenate, 54, professor de língua e literatura hispano-cubana da Universidade Camilo Cienfuegos de Matanzas, foi uma visita que "contaminou o país" -tão intensa, com o poeta vivendo em tanta liberdade e gozando de tanto sucesso, que já se disse que, em Cuba, cada um tem o seu Lorca.
"García Lorca y Cuba - Todas las Aguas" (264 págs., 16,80), de Martínez Carmenate, tenta explicar a recíproca fascinação a partir do que chama de "biografia de uma visita".
Para isso, o pesquisador vasculhou a correspondência entre Lorca e intelectuais cubanos, refez o percurso do escritor pela ilha, reconstruiu, a partir da cobertura da imprensa, o entusiasmo local com as conferências e récitas do poeta.
A Folha encontrou Martínez Carmenate em seu apartamento, um quarto e sala inundado de livros e luz, na tarde quente e úmida em Matanzas (100 km a leste de Havana), conhecida como a "Atenas cubana" por sua intensa vida cultural.
Um computador recém-retirado da caixa brilhava novinho em folha na sala (a universidade tinha acabado de entregá-lo). "Não terá acesso à internet", ele me explica, sem parecer incomodado com o fato de a ilha ainda ser um dinossauro em termos tecnológicos. "Mas conseguirei me ligar à intranet de Cuba", diz.
Martínez Carmenate explica que "Todas as Águas" só foi possível graças a amigos e ao Patronato Cultural Federico García Lorca de la Diputación de Granada, que, da Espanha, mandavam-lhe pelo correio convencional livros e cópias de documentos e jornais.
Tudo foi sendo meticulosamente anotado a lápis em fichas e, daí, sistematizado no original manuscrito. Provavelmente como o próprio Lorca e seus contemporâneos fariam.
Ao lado da poltrona do escritor, vê-se um grande cinzeiro transformado em recipiente de borrachas e lápis.
O livro foi publicado pelo Patronato, na Espanha, e pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento da Cultura Cubana Juan Marinello, em Havana. Embora seja um dos mais abrangentes estudos já feitos sobre a estada do poeta andaluz em Cuba, permanece praticamente ignorado, pelo difícil acesso à obra e ao escritor.
Martínez Carmenate trabalha no Museo Provincial Palacio de Junco, em Matanzas, e é presidente do Consejo Científico de la Dirección Provincial de Cultura.
Ele também dá aulas de cultura cubana na Escola de Arte (nível médio) de Matanzas. Só saiu de Cuba uma vez, para trabalhar em Angola, entre 1988 e 1989. Nunca foi à Andaluzia de Lorca.
Leia a seguir trechos da entrevista.

FOLHA - Como é possível hoje em dia escrever um livro de pesquisa sem a ajuda da internet?
URBANO MARTÍNEZ CARMENATE
- Meu método de trabalho foi, em primeiro lugar, buscar toda a bibliografia, tudo o que foi escrito pelos contemporâneos cubanos sobre o impacto da visita de Lorca. Escreveu-se muito sobre o que aconteceu em Santiago de Cuba, em Havana, sobre a viagem a Cienfuegos.
Sobre Matanzas quase não se disse nada.
Houve necessidade de levantar tudo o que saiu na imprensa. Surgiram novas cartas, recém-descobertas, na Espanha. E assim como era epistolar o contato entre Lorca e seus amigos, também foi epistolar o contato com meus informantes e colaboradores.
Sempre que saía algo novo sobre Lorca, eu escrevia a meus amigos na Europa e lhes pedia que me enviassem. Vinha pelo correio.
Esse trabalho foi feito de segunda a segunda; manhã, tarde e noite, durante dois anos. Sem computador, escrito a lápis. O computador só chegou aqui em casa há um mês e meio -e não tem conexão com a internet.
Só tenho o que se chama de intranet.

FOLHA - Por que García Lorca foi para Cuba?
MARTÍNEZ CARMENATE
- A atração entre o poeta e Cuba é bem anterior a sua chegada a Havana, em 7 de março de 1930. O intelectual cubano Juan Marinello (1898-1977) lembrava-se de escutar Lorca lhe contar sobre o fascínio que tinha, ainda criança, pelas tampas das caixas de charutos cubanos que chegavam a Fuentevaqueros (onde Lorca nasceu) para abastecer o negócio de seu pai, que era importador.
As litogravuras coloridíssimas carregadas de palmeiras, plantações, céus pintados de turquesa, medalhas de ouro o faziam sonhar com uma Cuba distante e onírica.
Além disso, havia as famosas "habaneras", o primeiro ritmo autenticamente cubano a ser exportado para a Europa e que o menino Lorca escutava nas vozes de uma tia e uma prima.
Cuba era a ilha do sol ardente, da sensualidade e do ritmo.
E houve o contato, já na juventude, com intelectuais cubanos, entre os quais se destava José Maria Chacón y Calvo, que se tornou um amigo querido e que o colocou em contato com poetas da ilha.

FOLHA - Como ele chegou aqui?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Ian Gibson, o mais importante biógrafo de Lorca, diz que o poeta saiu da Espanha naquele ano de 1929 muito desesperado do ponto de vista amoroso -estava apaixonado por um pintor, em um relacionamento muito tumultuado, e decidiu sair.
Depois de um período curto na Inglaterra e na França, chegou a Nova York, onde estudou na Universidade Columbia, fez conferências e andou pelos bairros miseráveis da cidade pós-tragédia social do crack na Bolsa de Nova York.
Uma experiência intensa, que serviu de base para "Poeta em Nova York", que ele provavelmente concluiu durante sua estada em Cuba.
Foi um convite da Instituição Hispanoamericana de Cultura para apresentar-se em Havana que levou Lorca à ilha. Chegou mais calmo do que estava ao sair da Espanha.

FOLHA - "Poeta em Nova York" é, entre outras coisas, uma denúncia contundente da opressão capitalista, principalmente aquela é exercida contra os negros. Em sua opinião, qual é a contribuição da estada de Lorca em Cuba para sua obra e sua visão de mundo?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Existe um mito envolvendo essa viagem: o de que Lorca teria fugido dos EUA e ido para Cuba porque se sentia oprimido naquela que ele mesmo chamou de "cidade mais atrevida e mais moderna do mundo".
Chamo de mito, mas, na verdade, é apenas uma idéia demasiadamente simplista. Lorca envolveu-se com aquela "babilônia trepidante": "Em três de seus arranha-céus, caberia Granada inteira", disse.
Ele viu a tragédia social acontecendo, em particular com os negros. Mas Lorca sabia, antes de ir para os EUA, aonde estava indo. Em carta a um amigo, disse: "Nova York me parece horrível, mas por isso mesmo vou para lá". A viagem a Cuba, assim, não foi uma fuga, mas uma escala a mais.

FOLHA - Mas em que essa estada em Cuba influiu sobre ele?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Era um sonho conhecer Cuba -o mesmo que acontecia com muitos espanhóis. Ele se entusiasmou com o sotaque da ilha e exerceu uma liberdade sexual como jamais havia conhecido. Lorca foi muito livre aqui. Não há registro de nenhuma reprovação a sua conduta sexual.
E veja, em Cuba, como na Espanha, vivia-se um período de forte anti-homossexualismo, de repressão e machismo puro.
Mas, ambígua como sempre foi a sociedade cubana, ninguém se intrometia com ele, ninguém o discriminou.

FOLHA - Desse ponto de vista, afetivo e sexual, pode-se dizer que a estada em Cuba serviu como uma liberação, já que o próprio Lorca se referiria ao período como "o mais feliz" de sua vida? Poemas como "Ode a Walt Whitman" podem ser vistos como prova de que ele passou a tratar a homossexualidade mais abertamente após a viagem a Cuba?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Sem dúvida, muito da sensação de estar em casa, que Lorca viveu em sua estada cubana, tem a ver com o contraste com o que ele viveu nos EUA. A sociedade cubana sempre foi mais aberta, e Cuba foi um dos primeiros países a aceitar o divórcio, ainda nos anos 1920. Sempre esteve um pouco adiante em termos comportamentais.
O Lorca que saiu de Cuba era outro em comparação com o que aqui chegou. Isso se deu principalmente em relação a sua homossexualidade. Ele não apenas viveu mais livremente aqui, mas, de certa maneira, se tornou também mais disposto a viver sua homossexualidade.
E concordo com você: "Ode a Walt Whitman" [leia trecho na pág. ao lado] certamente é exemplo disso.

FOLHA - Assim, pode-se ver as viagens a Nova York e a Cuba como complementares e dialéticas -muito crítico com uma, muito condescendente com a outra?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Repito: considero uma politização vulgar, chauvinista, analisar a obra do poeta como se ele fosse um repórter de seu tempo. Antes de tudo, ela deita raízes em questões existenciais.
Veja, em Nova York chegou um homem amorosamente atormentado.
Aqui, Lorca passou apenas três meses, mas foram três meses em que fez maravilhas. Foi a Santiago de Cuba. Foi ao interior, a Cienfuegos, veio até Matanzas, passou por Pinar del Río, freqüentou os salões de Havana: Lorca se moveu muito, sentiu-se à vontade.
Em uma carta endereçada aos pais, escreveu: "Si mi pierdo, que me busquen en Cuba o en Andaluzia". Foi um amor imediato, feito em grande parte de similitudes e paralelos.

FOLHA - Por exemplo...
MARTÍNEZ CARMENATE
- Lorca logo descobriu como a arquitetura de Havana se parecia com a andaluz, com seus solares voltados para pátios centrais. Isso é tipicamente andaluz.
Ele adorava entrar pelos pátios das casas e dizer: "Estou na Andaluzia; estou em Granada, em Cádiz". É uma identidade forte, com origem histórica: a colonização cubana foi grandemente influenciada pelos andaluzes, que aqui chegaram com os catalães e canários.

FOLHA - Como a Cuba de hoje trataria o homossexual García Lorca?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Hoje, existe propaganda pública pela TV, em outdoors, a favor do reconhecimento dos direitos dos homossexuais e contra a discriminação. A própria filha do presidente Raúl Castro [Mariela Castro] é a diretora do Centro Nacional de Educação Social, uma entidade financiada pelo governo, que luta pelos direitos das minorias.
Ela é a primeira defensora histórica dessa causa. Inclusive, propiciou recentemente a celebração da união civil de duas mulheres homossexuais.
Acho que estamos avançando muito rapidamente nessa área.

FOLHA - Como era a vida dele aqui?
MARTÍNEZ CARMENATE
- O que se sabe a respeito é o que ficou documentado na correspondência, nos jornais ou nas recordações de contemporâneos, em geral escritores pertencentes aos estratos da alta burguesia, como o amigo José Maria Chacón y Calvo.
Mas existem grandes lacunas nesse material, sugerindo momentos em que o poeta mergulhou na Cuba dos pobres. Aqui em Matanzas, por exemplo, sabe-se que ele ia freqüentemente a casas de negros.
Essa relação com a gente do povo o encantou. Era a época do movimento "sonero", gênero musical popular mais acelerado que a canção, e que começava a se expandir pela Europa. Fascinado pelo som, Lorca, que tinha sólida formação em música, perdia-se nos chamados "choris", que nada mais eram do que cabarés improvisados, em que se ouvia e dançava música tocada por orquestras de músicos negros. Lorca se impressionou muito e mergulhou nisso.

FOLHA - Como a descoberta da música negra se relaciona com suas experiências vanguardistas?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Cuba já conhecia Lorca. Por isso, ele recebeu o convite do presidente da Instituição Hispano-Cubana de Cultura, que pretendia estreitar os laços entre os dois países. E sua presença aqui foi um sucesso de público.
Ele tinha um encanto muito especial. Apesar de não ser um sujeito bonito fisicamente, tinha graça, era capaz de ver a poesia em qualquer parte (aliás, como era típico dos surrealistas, que conseguiam tirar poesia de qualquer fato).
Já havia nele a tendência progressista, ao chegar a Cuba.
Sempre tomou partido dos pobres -solidarizou-se inclusive com uma greve de telefonistas, que o impediu de manter contato com sua família. Nada mais natural, assim, do que buscar a fusão de sua poesia com a tradição popular.

FOLHA - Como fez isso?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Derivada do vanguardismo, a poesia de Lorca estava passando sua etapa de experimentação concreta, para desembocar no chamado neopopularismo, cuja idéia era sair em busca dos elementos populares -os "Poemas Gitanos" são exemplo disso, a partir dos elementos da cultura tradicional cigana.
Em Cuba, essa experimentação serviu de inspiração para a busca dos componentes negros da cultura cubana -ia-se em busca da extração "negrista", "afro-cubana" ou "mulata", típica da cultura cubana.

FOLHA - Como esse "negrismo" se manifestou na poesia?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Lorca ficou impressionado com a poesia de Nicolás Guillén (1902-89), que publicou "Los Motivos de Son" no mesmo ano em que ele chegou a Cuba. Nos "Motivos", os negros falavam com suas próprias vozes (e não por acaso: o próprio Guillén era mestiço e conhecia o modo de falar do negro pobre cubano).
Para Lorca, foi um deslumbramento a aventura de transformar o som em poema. No poema chamado "Negro Bembón", por exemplo, Guillén escreve:
"¨Po qué [ele fala "po qué",
em vez de "por que"] te pone
tan brabo,/
cuando te disen negro
bembón,/
si tiene la boca santa,/
negro bembón?"
Guillén penetrou no modo de expressão dos negros, expressando-se como eles, fazendo dela uma forma de poesia.

FOLHA - Quem é García Lorca para o cubano médio? Suas poesias e suas peças são ensinadas na escola?
MARTÍNEZ CARMENATE
- Sim, as escolas ensinam Lorca. Mas, mais do que isso, Cuba vive Lorca. Comprovadamente, ele tem mais edições em Cuba do que Ernest Hemingway.
Até a década de 1990, o Gran Teatro de La Habana se chamava Federico García Lorca, uma homenagem incrível. Nem a Espanha tinha um teatro chamado García Lorca. Depois de uma reforma, a principal sala de danças do Gran Teatro recebeu o nome do poeta.
E seus poemas também ficaram muito populares porque vários deles receberam melodias feitas por músicos cubanos. Lorca ainda hoje é o dramaturgo estrangeiro mais representado em Cuba.
No centenário de seu nascimento, comemorado em 1998, republicaram-se muitos livros dele. Ele é sempre alvo de um vivo interesse em Cuba.

FOLHA - O sr. descreve com estranhamento um aspecto da Cuba dos anos 30: "Os produtos mais anunciados levam nomes de fonética estrangeirizante: "Flit", contra mosquitos e baratas; navalhas "Kirby Beard"
ou "Gillette", para "o barbear perfeito'; "Colgate", creme dental; relógio "Westclox" (...)" e outros.
MARTÍNEZ CARMENATE
- (interrompendo) Já sei. Você vai me dizer que é assim em qualquer lugar do mundo ocidental, não é? OK. Mas eu sou cubano.


 
 
 
 
 
Leia trecho de
"Ode a Walt Whitman",
de Federico García Lorca
 
 

Nova York de lama,
Nova York de arame e de morte.
Que anjo levas oculto na face?
Que voz perfeita dirá as verdades do trigo?
Quem o sonho terrível de tuas anedotas manchadas?

Nem um só momento, velho formoso Walt Whitman,
deixei de ver tua barba cheia de mariposas,
nem teus ombros de veludo gastos pela lua,
nem tuas coxas de Apolo virginal,
nem tua voz como uma coluna de cinza;
ancião formoso como a névoa
que gemias como um pássaro
com o sexo atravessado por uma agulha,
inimigo do sátiro,
inimigo da vide
e amante dos corpos sob o grosseiro pano.
Nem um só momento, formosura viril
que em montes de carvão, anúncios e ferrovias,
sonhavas ser um rio e dormir como um rio
com aquele camarada que poria em teu peito
uma pequena dor de ignorante leopardo.

Nem um só momento, Adão de sangue, macho,
homem só no mar, velho formoso Walt Whitman,
porque pelas açotéias,
agrupados nos bares,
saindo em cachos dos esgotos,
tremendo entre as pernas dos chauffeurs
ou girando nas plataformas do absinto,
os maricas, Walt Whitman, te sonhavam.

Também esse! Também! E se despenham
em tua barba luminosa e casta,
louros do norte, negros da areia,
multidões de gritos e ademanes,
como gatos e como as serpentes,
os maricas, Walt Whitman, os maricas
turvos de lágrimas, carne para chicote,
bota ou mordedura dos domadores.



Poema que faz parte de "Poeta em Nova York" (em"Obra Poética Completa"). Tradução de WILLIAM AGEL DE MELLO.





Índios gays são alvo de preconceito no AM

 
Índios gays são alvo de preconceito no AM

Jovens da etnia ticuna, que vivem em aldeia em Tabatinga, são agredidos com pedras e garrafas e chamados de "meia coisa"

"Isso é novo para a gente", diz administrador da Funai; Darcy Ribeiro registrou homossexualidade entre índios desde o século 19

KÁTIA BRASIL
DA AGÊNCIA FOLHA, EM TABATINGA (AM)

FOLHA DE SP 27/07/2008


Entre os índios ticuna, a etnia mais populosa da Amazônia brasileira, um grupo de jovens não quer mais pintar o pescoço com jenipapo para ter a voz grossa, como a tradição manda fazer na adolescência, nem aceita as regras do casamento tradicional, em que os casais são definidos na infância.
Esse pequeno grupo assumiu a homossexualidade e diz sofrer preconceito dentro da aldeia, onde os gays são agredidos e chamados de nomes pejorativos como "meia coisa". Quando andam sozinhos, podem ser alvos de pedras, latas e chacotas.
Três ticunas da aldeia Umariaçu 2, na região do Alto Solimões, em Tabatinga (1.105 km de Manaus), contaram para a Folha como é a vida dos homossexuais indígenas na fronteira com a Colômbia e o Peru.
A população ticuna no Alto Solimões soma 32 mil índios. Na aldeia Umariaçu 2, que fica no perímetro urbano de Tabatinga, vivem 3.649 índios ticunas, 40% com menos de 25 anos. Entre esses jovens, pelo menos 20 são conhecidos como homossexuais assumidos.
Segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio), há registros de gays também nas aldeias de Umariaçu 1, Belém do Solimões, Feijoal e Filadélfia.
"Isso é novo para a gente. Não víamos indígenas assim, agora rapidinho cresceu em todas as comunidades. São meninos de 10, 15 anos", disse Darcy Bibiano Murati, 40, que é indígena da etnia ticuna e administrador substituto da Funai.
Marcenio Ramos Guedes, 24, e seu irmão, Natalício, 22, pintam o cabelo e as unhas e fazem as sobrancelhas. Trabalham como dançarinos em um grupo típico ticuna que se apresenta nas cidades da região.
Marcenio diz que brigava muito com o pai e que saiu de casa aos 15 anos. "Fui para Tabatinga trabalhar como "empregada doméstica". Eu fazia comida, passava roupa, lavava."
Ao voltar para casa, uma construção de madeira com dois cômodos, onde mora com quatro dos sete irmãos e os pais, Marcenio resolveu cuidar dos afazeres domésticos. O grupo de dança foi criado em 2007, com apoio da família.
"Não sofro discriminação por dançar, todo mundo respeita, assiste. Sofro preconceito [de outros jovens] na aldeia. Se falo alguma coisa, querem me bater, jogar pedra, garrafa."
Natalício diz que tem medo de andar sozinho. "Vou sempre com um colega", afirma.
O ticuna Clarício Manoel Batista, 32, é professor do ensino fundamental e estuda pedagogia na UEA (Universidade Estadual do Amazonas), em Tabatinga. Ele foi um dos primeiros a assumir a homossexualidade na aldeia Umariaçu 2. "Alguns me discriminam -indígenas daqui, não-indígenas também. Fico calado, não falo nada. Eu não ligo para eles", diz.
Clarício disse que contou aos pais que era gay aos 16 anos. "Meu pai não me maltratava porque sempre gostei de estudar, sempre fiz tudo em casa: limpeza, comida, lavar louça."
Questionado se foi pelo trabalho doméstico que ganhou respeito em casa, ele confirmou. "Na verdade, eles [os pais] não queriam que eu fosse assim [gay]. Eles não gostam. Dizem: ninguém gosta desse jeito."
O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) escreveu que há registros de homossexualidade entre índios desde ao menos o século 19. Em Mato Grosso, ele estudou os cadiuéus, que chamavam o homossexual de kudina -que decidiu ser mulher.
O cientista social e professor bilíngüe (português e ticuna) de história Raimundo Leopardo Ferreira afirma que, entre os ticunas, não havia registros anteriores da existência de homossexuais, como se vê hoje.
Ele teme que, devido ao preconceito, aumentem os problemas sociais entre os jovens, como o uso de álcool e cocaína.
"Isso [a homossexualidade] é uma coisa que meus avós falavam que não existia", afirmou.

 

 

 

Assunto não é tabu, diz antropóloga

DA AGÊNCIA FOLHA, EM TABATINGA

 

Antropólogos como Pierre Clastres (1934-1977) e Darcy Ribeiro (1922-1997) registraram em artigos a existência de casos de homossexualidade nas tribos indígenas do Brasil. Mas, sobre os índios gays contemporâneos, não há pesquisas.
A antropóloga da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) Helena Rangel diz que a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade e que, no mundo indígena, alguns mitos fazem referência a essa opção sexual. "Na sociedade indígena, há uma divisão muito clara do trabalho entre homens e mulheres, então, se um homem quer ser mulher, assume o trabalho feminino. Não é um assunto tabu nem absurdo."
Sobre a maior visibilidade dos homossexuais atualmente, Rangel diz que acredita ser um fenômeno mundial e que não pode comentar especificamente sobre os ticunas. "A homossexualidade tem se tornado um fenômeno mais explícito", disse.
Com relação ao preconceito enfrentado pelos indígenas, ela afirma que a discriminação hoje pode ser maior do que a enfrentada anteriormente, devido à maior aproximação dos índios com a moral ocidental-cristã.
(KB)

ABOUT THE FILM "ELITE SQUAD" (TROPA DE ELITE)

 

Number one with a bullet

Not since City of God has a Brazilian film excited such debate as Elite Squad, which addresses police brutality in Rio de Janeiro's drug-ravaged slums. Tom Phillips reports from Brazil and compares the reality of life in the favelas with the movie's depiction of power and poverty

 

As one of Brazil's most respected young actors, Wagner Moura is no stranger to challenging parts. He has interpreted a former Brazilian President, a crack-addled convict and is currently playing Hamlet in São Paulo. But when an early version of the script for Elite Squad dropped through his letterbox in 2005 he immediately realised it would be one of the most demanding and controversial roles of his career.

  1. Elite Squad (Tropa de Elite)
  2. Release: 2007
  3. Country: Rest of the world
  4. Cert (UK): 18
  5. Runtime: 118 mins
  6. Directors: Jose Padilha
  7. Cast: Andre Ramiro, Caio Junqueira, Maria Ribeiro, Wagner Moura  

He was asked to consider playing Captain Roberto Nascimento - a fictitious member of Rio de Janeiro's special forces police unit, Batalhão de Operações Policiais Especiais, known as the Bope, a meticulously trained and widely feared group engaged in a daily conflict with a legion of heavily armed drug traffickers. Wearing his trademark black beret, Captain Nascimento tortured his suspects, executed his enemies and involved himself in almost daily shoot-outs, rampaging through the city's sprawling favelas with his fellow 'Men in Black'.

'I thought straightaway that this was going to be an important film to watch, particularly for us Brazilians,' remembers Moura. 'It is a film that tells us a lot about ourselves.'

In fact, Elite Squad, released in the UK next month, proved to be one of the most explosive and controversial films in the history of Brazilian cinema. Even before the film was officially released, millions of people, from the southern metropolises of Rio and São Paulo to relatively isolated Amazon cities such as Manaus and Belém, scrambled for pirate copies, triggering a national debate about urban violence and drug use that dominated the front pages for months. When the film finally hit the big screen in October 2007, Rio's police force took its director, José Padilha, to court, accusing him of tarnishing the organisation's reputation, and then threatened to throw him in jail, until Rio's governor intervened in his defence.

In police stations, university lecture theatres, army barracks, drug dens and country clubs alike, Tropa de Elite became the topic of the moment. Many praised the film as a virtually unprecedented insight into Rio de Janeiro's brutal underworld. Some, like Marcelo Janot, a film critic from the Globo newspaper, accused the film of promoting 'a dangerous ideology', that Rio's notoriously violent special forces police were 'superheroes, out to combat the scum of humanity and the corrupt bourgeois'. Others described the film as 'fascist' for portraying, they claimed, a homicidal cop as a hero.

Whatever one's take on Elite Squad, one thing was clear: not since Fernando Meirelles's 2002 blockbuster City of God, whose spin-off City of Men was released in the UK earlier this month, has a Brazilian film made such a stir.

Documenting the work of a Swat team whose unofficial anthem carries the lines 'Men in Black, what is your task?/It's to go into the favelas and leave bodies on the ground' was never going to be an easy task. But then Padilha, 41, whose previous films about rainforest destruction, rural poverty and urban violence have earned him a reputation as a social crusader, is not one to take on simple issues.

'He gets interested in the tricky issues,' says Moura, who will travel to London in November to appear at the Young Vic theatre in Amazonia, a production written by fellow Brazilian Pedro Cardoso. 'Padilha doesn't just make any old film.'

Located in a leafy corner of southern Rio, the HQ of Padilha's production company, Zazen, is a world away from the violent slums depicted in his latest film.

'Very quickly, I realised that it was impossible to do a documentary,' he says, sitting in his second-floor office. 'They wouldn't let me capture the images of cops killing or torturing people in the slums. Cops wouldn't talk to me. So I decided not to do a documentary but instead to do a lot of research with several cops and police psychiatrists. I spent two years doing that and then out of this research I wrote a script for a fictional movie.'

Moura describes what followed as by far the most intense period of his acting career. Coached by former and serving members of Rio's special forces and theatre coach Fátima Toledo, who also worked on City of God, the actors embarked on a crash course in special forces tactics, Rio-style. Over a period of two months they were subjected to back-breaking physical training sessions and lessons in police slang, and were even taught how best to extract information from a suspect using nothing but a plastic bag or a broomstick.

'It was the craziest thing I had ever done in my acting life,' says Moura, a softly spoken 32-year-old from northeastern Brazil, who became so involved in his character that at one point he admits hitting a police coach in the face and breaking his nose.

'The special forces are hugely proud of belonging to their unit, so for them it didn't matter whether we were actors or not. They wanted us to portray their work well. It was heavy stuff. Lots of actors gave up [because of the training], they just left, slammed the door, told the trainers to fuck right off. It was bloody difficult.

'When we were training we would forget that we were even making a film. All we wanted was to get through it, to survive that madness.'

While his actors were toiling under the tropical sun, Padilha also set out in search of a team of favela-based fixers who could grant him access to some of the most dangerous corners of the city in order to film there. Rio is home to around 700 favelas, the majority controlled by drug traffickers or vigilante gangs.

One of those enlisted was Alexandre Rodrigues, a 34-year-old former drug trafficker-turned-social activist. Rodrigues - who is also known as Jovem Cerebral (Young Brain) - became one of the movie's consultants, arranging everything from permission to film in the city's shantytowns to teaching the actors the most realistic way to hold their guns.

Having been brought up in the notorious Morro da Mineira shantytown, not far from where much of the film was shot, and having spent five years working as a foot-soldier for the Red Command drug faction and a further two behind bars, Rodrigues knew his subject well.

'Padilha wanted someone who understood the day-to-day life of these communities,' he says.

I meet Rodrigues, who now runs a company called Favela Consultoria that offers guidance to film crews wanting to use slums as their locations, on a scorching Sunday afternoon, outside a cemetery near the entrance to the favela where he was born and raised. It doesn't take long to understand exactly why Padilha needed a guide. Making our way into the slum, we are eyed by four drug traffickers, barely out of their teens, each carrying a different model of assault rifle and with walkie-talkies strapped to their belts. As we pass them, one radios ahead to warn his colleagues further up the hill about the unknown visitor. As a result of the recent high-profile assassination of three young boys who were allegedly handed to the local traffickers by members of the Brazilian army, the shantytown is currently preparing for a real-life Bope invasion. The area's streets are all but deserted.

'The film is magnificent,' Rodrigues says, perched on the balcony of his family home, which peers over a sea of red-brick shacks and labyrinthine alleyways at the heart of the slum. 'It showed a reality that needed to be shown.'

However, if Elite Squad had been intended to denounce the tactics of a police force that last year gunned down a record 1,330 people, Rodrigues fears the effect has been counter-productive.

'I think in a certain way the Bope got more violent after the film. I have noticed this - that the actions of special operations units in the communities became even more devastating. And, in a certain way, society, because of this film, started to allow the Bope to carry out this ethnic cleansing that they are doing within communities. I think that society already had an interest in this happening... and the film just brought it out more. And those who end up paying the price, as always, are the people who live in the favelas.

'I have a critical opinion because I live this, I'm seeing the consequences,' he adds. 'The rest of the country liked the film. The people in the favela also liked it. The problem is the reaction to it that came afterwards.'

His words are echoed by Adalton Pereira, a community leader in the real-life City of God, where Fernando Meirelles's film was set, who explains that many locals found it harder to get jobs outside the slum because of the notoriety the 2002 film brought.

'Of course the film gave the community more visibility but it was not the residents that benefited from this,' he says.

Padilha firmly rejects criticism that instead of helping to reduce violence in Rio, his film has in fact fuelled it.

'Of course the movie has not created this situation. It is ridiculous to say that. When City of God was released in Brazil it caused a very similar reaction, which was that Meirelles's film was called "social Darwinism"... and he was also accused of making many kids want to be drug traffickers because Zé Pequeno [one of the gang leaders portrayed in the film] was a very charismatic character.'

He also dismisses the accusation - levelled at him by several human-rights campaigners - that by exploring the psychology of a murderous policeman he is justifying that policeman's actions.

'Of course Adolf Hitler is a bad guy, and Josef Stalin, but that doesn't mean you shouldn't look at what happened with them as kids to try to understand the psychological process that generated people like that.'

Instead, Padilha attributes much of the criticism of Elite Squad to a deep-set hypocrisy within Brazilian society. As well as portraying the fierce war between police and traffickers in Rio's slums, the film makes a clear link between the firepower of Rio's drug factions and the middle-class students who bank-roll such gangs with their marijuana and cocaine habits. In one scene Moura's character, Captain Nascimento, rubs the face of a middle-class drug user into a gaping hole that his men have just shot through a drug trafficker's chest. 'It was you who killed this guy, you scumbag,' the policeman shouts at the student. 'It's you who finances this shit, you stoner.'

'I think in Elite Squad what is bothering those people is that they do drugs themselves,' Padilha says. 'A lot of newspaper commentators - and I'm not telling you who, but if you make two or three calls you'll know - smoke a little joint before they write their articles. Now they look at the movie and the movie says, "Lo and behold, you are financing the drug dealers. You, who are very critical of the problem of violence in Rio, are right at the middle of it. Your little bourgeois pleasure is behind the money that buys the arms and the bullets that kill people in the favela."' Their response, he says, was to try to discredit his film.

Elite Squad's actual intention was, Padilha claims, to show 'the social process that makes a violent cop'. Just as his previous film, the documentary Bus 174, examined the childhood of a street-kid-turned-bus hijacker who made headlines in 2000 when he held up a bus not far from Padilha's production company, so, too, this film seeks to explore the social and cultural factors behind Rio's killer police force.

'I met several cops... and I started to realise that the same process that went on with juvenile delinquents was also going on with the cops,' he says. 'The aim of the movie is to explain where the violent cop comes from. There has never been a Brazilian movie with a protagonist that was a cop... Movies about cops are common everywhere: France, England, the US, Italy. Why is it that in Brazil movies about cops [are not allowed to be made]?'

The idea was also to do away with the myth that Rio's cops were simply cold-blooded killers, while the city's drug traffickers were Robin Hood-style heroes, he says.

'I don't buy the bullshit that drug traffickers are kind of nice warriors who are trying to escape poverty.'

In exposing the gritty reality of Rio's favelas, Elite Squad and City of God may not have done much for Rio de Janeiro's image as a tourist paradise. But the films have highlighted a more positive phenomenon - a new generation of young, mostly black actors born and bred in the city's impoverished outskirts who little by little are starting to break into Brazilian TV and cinema, a world previously reserved for either the wealthy or the white.

André Ramiro, who plays police rookie André Matias in Elite Squad, is a case in point. Raised in Vila Kennedy, a housing estate-cum-shantytown on the west side of Rio, Ramiro worked in a cinema box office until a friend convinced him to try out for Padilha's film. He had never acted before but walked straight into the part.

Less than two years later, his performance has propelled him into the world of cinema and television alongside dozens of other favela-born actors and actresses. Many others from this new generation, such as Roberta Rodrigues and Jonathan Haagensen, hail from Nós do Morro (We from the Favela), a theatre group based in the Vidigal shantytown in southern Rio that provided many of the cast members for City of God. Six years on, several are now household names in Brazil.

'Every shantytown is filled with these diamonds ready to be discovered,' says Ramiro, 27. 'Go in to any favela and you will see this. It is just a matter of giving us a chance, of investing. We have to show that we are just as good as the people from the South Zone of Rio,' he concludes.

Films that shook Brazilian society to the core, City of God and Elite Squad have left a multitude of legacies. None, however, is arguably as important as the fact that they have finally put Brazil's impoverished masses on the map.

'Elite Squad is like a cry from the Brazilian people,' says Ramiro.

'People,' adds Padilha, 'like the fact that their reality is being shown - just as it is.'

· Elite Squad is released on 8 August

Latin America's new wave
A distinctive storytelling voice is scoring hits worldwide

When Walter Salles's Central Station won the Golden Bear at the Berlin Film Festival in 1998, it heralded much more than the return of Brazilian cinema to the world stage. A year later Crane World, by Argentine boy wonder Pablo Trapero, was scooping up awards all over the world. Then, in 2001 and 2002, the glorious Mexican wave of Amores Perros and Y Tu Mamá También sealed the deal: this was a Latin American film renaissance.

Mexico's buena onda has had the biggest impact overseas. Alejandro González Iñárritu's Amores Perros was an electric shock of a film: visceral, exciting, structurally ambitious, it launched the international careers of Iñárritu, Gael García Bernal and writer Guillermo Arriaga. Bernal quickly followed with Y Tu Mamá También, co-starring with fellow Mexican heart-throb Diego Luna. Alfonso Cuarón's hit was rollicking road movie, coming-of-age comedy and state-of-the-nation address, all rolled into one seriously sexy package.

Two other fine Mexican directors are Guillermo del Toro, whose command of fantasy allows for the jolly escapism of Hellboy, as well as the frightening, yet moving Pan's Labyrinth (see feature); and Carlos Reygadas, whose rigorously arthouse blend of sex, religion and gorgeous aesthetics, in Japón, Battle in Heaven and Silent Light, have elicited controversy and praise in equal measure.

In contrast, young Fernando Eimbcke's Duck Season was a wonderful and wise study of adolescence, with a very light touch. We can look forward to more youthful fare from Mexico, courtesy of Bernal and Luna, who have set up a production company together and are now directing their own movies.

In South America, the re-emergence of cinema has coincided with the tide of genuine political democracy, and improving economies, across the continent. After years of dictatorship, film-makers are rediscovering their voice.

In Argentina the prolific Trapero epitomises the resourceful new generation emerging from film schools. His vérité approach uses non-actors and draws its subjects from everyday life: from Crane World's study of a man trying to rebuild his life in middle-age, to family comedy Rolling Family and this year's Cannes favourite, women's prison drama Leonera.

Older hand Carlos Sorin also casts non-actors, in warm-hearted comedies about poor, provincial Argentines propped up by dreams. His best-known film, Bombón, El Perro, about an out-of-work mechanic entering the world of dog shows, starred a man who for years had parked Sorin's car. And he's brilliant.

A more polished style is offered by Daniel Burman, dubbed the Woody Allen of Buenos Aires. Burman has a screen alter ego: Uruguayan Daniel Hendler, one of the signature actors of the new Latin American cinema. His wry investigations of Jewish identity and father-son relationships - Waiting for the Messiah, Lost Embrace and Family Law - have been both local hits and prize-winners on the festival circuit.

But the director's director of Latin America could well be Argentina's Lucrecia Martel. An iconoclast, Martel's films The Swamp and The Holy Girl are atmospheric and mysterious, offering delicious observations on family, sexuality, religion and, particularly, the country's stagnating bourgeoisie.

Chile has an even younger generation of directors, excelling with low-budget digital films, notably Alicia Scherson, whose Play, a film at once about Santiago, indigenous culture and the iPod age, signals a bright new talent. Andrés Wood's more traditional Machuca, about events leading to the Pinochet coup in Chile, also screened successfully in the UK, as did delightful Uruguayan misfit comedy Whiskey.

And all the while, President Chávez is ploughing money into the Venezuelan film industry, even building a state-owned film studio. It can't be long before Venezuelan movies follow the Latin trail to an international audience.

· Demetrios Matheou is writing a book on South American cinema for Faber and Faber, to be published in 2009

THE NEW READERS



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The New York Times
















July 27, 2008


Literacy Debate: Online, R U Really Reading?





BEREA, Ohio — Books are not Nadia Konyk's thing. Her mother, hoping to entice her, brings them home from the library, but Nadia rarely shows an interest.


Instead, like so many other teenagers, Nadia, 15, is addicted to the Internet. She regularly spends at least six hours a day in front of the computer here in this suburb southwest of Cleveland.


A slender, chatty blonde who wears black-framed plastic glasses, Nadia checks her e-mail and peruses myyearbook.com, a social networking site, reading messages or posting updates on her mood. She searches for music videos on YouTube and logs onto Gaia Online, a role-playing site where members fashion alternate identities as cutesy cartoon characters. But she spends most of her time on quizilla.com or fanfiction.net, reading and commenting on stories written by other users and based on books, television shows or movies.


Her mother, Deborah Konyk, would prefer that Nadia, who gets A's and B's at school, read books for a change. But at this point, Ms. Konyk said, "I'm just pleased that she reads something anymore."


Children like Nadia lie at the heart of a passionate debate about just what it means to read in the digital age. The discussion is playing out among educational policy makers and reading experts around the world, and within groups like the National Council of Teachers of English and the International Reading Association.


As teenagers' scores on standardized reading tests have declined or stagnated, some argue that the hours spent prowling the Internet are the enemy of reading — diminishing literacy, wrecking attention spans and destroying a precious common culture that exists only through the reading of books.


But others say the Internet has created a new kind of reading, one that schools and society should not discount. The Web inspires a teenager like Nadia, who might otherwise spend most of her leisure time watching television, to read and write.


Even accomplished book readers like Zachary Sims, 18, of Old Greenwich, Conn., crave the ability to quickly find different points of view on a subject and converse with others online. Some children with dyslexia or other learning difficulties, like Hunter Gaudet, 16, of Somers, Conn., have found it far more comfortable to search and read online.


At least since the invention of television, critics have warned that electronic media would destroy reading. What is different now, some literacy experts say, is that spending time on the Web, whether it is looking up something on Google or even britneyspears.org, entails some engagement with text.


Setting Expectations


Few who believe in the potential of the Web deny the value of books. But they argue that it is unrealistic to expect all children to read "To Kill a Mockingbird" or "Pride and Prejudice" for fun. And those who prefer staring at a television or mashing buttons on a game console, they say, can still benefit from reading on the Internet. In fact, some literacy experts say that online reading skills will help children fare better when they begin looking for digital-age jobs.


Some Web evangelists say children should be evaluated for their proficiency on the Internet just as they are tested on their print reading comprehension. Starting next year, some countries will participate in new international assessments of digital literacy, but the United States, for now, will not.


Clearly, reading in print and on the Internet are different. On paper, text has a predetermined beginning, middle and end, where readers focus for a sustained period on one author's vision. On the Internet, readers skate through cyberspace at will and, in effect, compose their own beginnings, middles and ends.


Young people "aren't as troubled as some of us older folks are by reading that doesn't go in a line," said Rand J. Spiro, a professor of educational psychology at Michigan State University who is studying reading practices on the Internet. "That's a good thing because the world doesn't go in a line, and the world isn't organized into separate compartments or chapters."


Some traditionalists warn that digital reading is the intellectual equivalent of empty calories. Often, they argue, writers on the Internet employ a cryptic argot that vexes teachers and parents. Zigzagging through a cornucopia of words, pictures, video and sounds, they say, distracts more than strengthens readers. And many youths spend most of their time on the Internet playing games or sending instant messages, activities that involve minimal reading at best.


Last fall the National Endowment for the Arts issued a sobering report linking flat or declining national reading test scores among teenagers with the slump in the proportion of adolescents who said they read for fun.


According to Department of Education data cited in the report, just over a fifth of 17-year-olds said they read almost every day for fun in 2004, down from nearly a third in 1984. Nineteen percent of 17-year-olds said they never or hardly ever read for fun in 2004, up from 9 percent in 1984. (It was unclear whether they thought of what they did on the Internet as "reading.")


"Whatever the benefits of newer electronic media," Dana Gioia, the chairman of the N.E.A., wrote in the report's introduction, "they provide no measurable substitute for the intellectual and personal development initiated and sustained by frequent reading."


Children are clearly spending more time on the Internet. In a study of 2,032 representative 8- to 18-year-olds, the Kaiser Family Foundation found that nearly half used the Internet on a typical day in 2004, up from just under a quarter in 1999. The average time these children spent online on a typical day rose to one hour and 41 minutes in 2004, from 46 minutes in 1999.


The question of how to value different kinds of reading is complicated because people read for many reasons. There is the level required of daily life — to follow the instructions in a manual or to analyze a mortgage contract. Then there is a more sophisticated level that opens the doors to elite education and professions. And, of course, people read for entertainment, as well as for intellectual or emotional rewards.


It is perhaps that final purpose that book champions emphasize the most.


"Learning is not to be found on a printout," David McCullough, the Pulitzer Prize-winning biographer, said in a commencement address at Boston College in May. "It's not on call at the touch of the finger. Learning is acquired mainly from books, and most readily from great books."


What's Best for Nadia?


Deborah Konyk always believed it was essential for Nadia and her 8-year-old sister, Yashca, to read books. She regularly read aloud to the girls and took them to library story hours.


"Reading opens up doors to places that you probably will never get to visit in your lifetime, to cultures, to worlds, to people," Ms. Konyk said.


Ms. Konyk, who took a part-time job at a dollar store chain a year and a half ago, said she did not have much time to read books herself. There are few books in the house. But after Yashca was born, Ms. Konyk spent the baby's nap time reading the Harry Potter novels to Nadia, and she regularly brought home new titles from the library.


Despite these efforts, Nadia never became a big reader. Instead, she became obsessed with Japanese anime cartoons on television and comics like "Sailor Moon." Then, when she was in the sixth grade, the family bought its first computer. When a friend introduced Nadia to fanfiction.net, she turned off the television and started reading online.


Now she regularly reads stories that run as long as 45 Web pages. Many of them have elliptical plots and are sprinkled with spelling and grammatical errors. One of her recent favorites was "My absolutely, perfect normal life ... ARE YOU CRAZY? NOT!," a story based on the anime series "Beyblade."


In one scene the narrator, Aries, hitches a ride with some masked men and one of them pulls a knife on her. "Just then I notice (Like finally) something sharp right in front of me," Aries writes. "I gladly took it just like that until something terrible happen ...."


Nadia said she preferred reading stories online because "you could add your own character and twist it the way you want it to be."


"So like in the book somebody could die," she continued, "but you could make it so that person doesn't die or make it so like somebody else dies who you don't like."


Nadia also writes her own stories. She posted "Dieing Isn't Always Bad," about a girl who comes back to life as half cat, half human, on both fanfiction.net and quizilla.com.


Nadia said she wanted to major in English at college and someday hopes to be published. She does not see a problem with reading few books. "No one's ever said you should read more books to get into college," she said.


The simplest argument for why children should read in their leisure time is that it makes them better readers. According to federal statistics, students who say they read for fun once a day score significantly higher on reading tests than those who say they never do.


Reading skills are also valued by employers. A 2006 survey by the Conference Board, which conducts research for business leaders, found that nearly 90 percent of employers rated "reading comprehension" as "very important" for workers with bachelor's degrees. Department of Education statistics also show that those who score higher on reading tests tend to earn higher incomes.


Critics of reading on the Internet say they see no evidence that increased Web activity improves reading achievement. "What we are losing in this country and presumably around the world is the sustained, focused, linear attention developed by reading," said Mr. Gioia of the N.E.A. "I would believe people who tell me that the Internet develops reading if I did not see such a universal decline in reading ability and reading comprehension on virtually all tests."


Nicholas Carr sounded a similar note in "Is Google Making Us Stupid?" in the current issue of the Atlantic magazine. Warning that the Web was changing the way he — and others — think, he suggested that the effects of Internet reading extended beyond the falling test scores of adolescence. "What the Net seems to be doing is chipping away my capacity for concentration and contemplation," he wrote, confessing that he now found it difficult to read long books.


Literacy specialists are just beginning to investigate how reading on the Internet affects reading skills. A recent study of more than 700 low-income, mostly Hispanic and black sixth through 10th graders in Detroit found that those students read more on the Web than in any other medium, though they also read books. The only kind of reading that related to higher academic performance was frequent novel reading, which predicted better grades in English class and higher overall grade point averages.


Elizabeth Birr Moje, a professor at the University of Michigan who led the study, said novel reading was similar to what schools demand already. But on the Internet, she said, students are developing new reading skills that are neither taught nor evaluated in school.


One early study showed that giving home Internet access to low-income students appeared to improve standardized reading test scores and school grades. "These were kids who would typically not be reading in their free time," said Linda A. Jackson, a psychology professor at Michigan State who led the research. "Once they're on the Internet, they're reading."


Neurological studies show that learning to read changes the brain's circuitry. Scientists speculate that reading on the Internet may also affect the brain's hard wiring in a way that is different from book reading.


"The question is, does it change your brain in some beneficial way?" said Guinevere F. Eden, director of the Center for the Study of Learning at Georgetown University. "The brain is malleable and adapts to its environment. Whatever the pressures are on us to succeed, our brain will try and deal with it."


Some scientists worry that the fractured experience typical of the Internet could rob developing readers of crucial skills. "Reading a book, and taking the time to ruminate and make inferences and engage the imaginational processing, is more cognitively enriching, without doubt, than the short little bits that you might get if you're into the 30-second digital mode," said Ken Pugh, a cognitive neuroscientist at Yale who has studied brain scans of children reading.


But This Is Reading Too


Web proponents believe that strong readers on the Web may eventually surpass those who rely on books. Reading five Web sites, an op-ed article and a blog post or two, experts say, can be more enriching than reading one book.


"It takes a long time to read a 400-page book," said Mr. Spiro of Michigan State. "In a tenth of the time," he said, the Internet allows a reader to "cover a lot more of the topic from different points of view."


Zachary Sims, the Old Greenwich, Conn., teenager, often stays awake until 2 or 3 in the morning reading articles about technology or politics — his current passions — on up to 100 Web sites.


"On the Internet, you can hear from a bunch of people," said Zachary, who will attend Columbia University this fall. "They may not be pedigreed academics. They may be someone in their shed with a conspiracy theory. But you would weigh that."


Though he also likes to read books (earlier this year he finished, and loved, "The Fountainhead" by Ayn Rand), Zachary craves interaction with fellow readers on the Internet. "The Web is more about a conversation," he said. "Books are more one-way."


The kinds of skills Zachary has developed — locating information quickly and accurately, corroborating findings on multiple sites — may seem obvious to heavy Web users. But the skills can be cognitively demanding.


Web readers are persistently weak at judging whether information is trustworthy. In one study, Donald J. Leu, who researches literacy and technology at the University of Connecticut, asked 48 students to look at a spoof Web site (http://zapatopi.net/treeoctopus/) about a mythical species known as the "Pacific Northwest tree octopus." Nearly 90 percent of them missed the joke and deemed the site a reliable source.


Some literacy experts say that reading itself should be redefined. Interpreting videos or pictures, they say, may be as important a skill as analyzing a novel or a poem.


"Kids are using sound and images so they have a world of ideas to put together that aren't necessarily language oriented," said Donna E. Alvermann, a professor of language and literacy education at the University of Georgia. "Books aren't out of the picture, but they're only one way of experiencing information in the world today."


A Lifelong Struggle


In the case of Hunter Gaudet, the Internet has helped him feel more comfortable with a new kind of reading. A varsity lacrosse player in Somers, Conn., Hunter has struggled most of his life to read. After learning he was dyslexic in the second grade, he was placed in special education classes and a tutor came to his home three hours a week. When he entered high school, he dropped the special education classes, but he still reads books only when forced, he said.


In a book, "they go through a lot of details that aren't really needed," Hunter said. "Online just gives you what you need, nothing more or less."


When researching the 19th-century Chief Justice Roger B. Taney for one class, he typed Taney's name into Google and scanned the Wikipedia entry and other biographical sites. Instead of reading an entire page, he would type in a search word like "college" to find Taney's alma mater, assembling his information nugget by nugget.


Experts on reading difficulties suggest that for struggling readers, the Web may be a better way to glean information. "When you read online there are always graphics," said Sally Shaywitz, the author of "Overcoming Dyslexia" and a Yale professor. "I think it's just more comfortable and — I hate to say easier — but it more meets the needs of somebody who might not be a fluent reader."


Karen Gaudet, Hunter's mother, a regional manager for a retail chain who said she read two or three business books a week, hopes Hunter will eventually discover a love for books. But she is confident that he has the reading skills he needs to succeed.


"Based on where technology is going and the world is going," she said, "he's going to be able to leverage it."


When he was in seventh grade, Hunter was one of 89 students who participated in a study comparing performance on traditional state reading tests with a specially designed Internet reading test. Hunter, who scored in the lowest 10 percent on the traditional test, spent 12 weeks learning how to use the Web for a science class before taking the Internet test. It was composed of three sets of directions asking the students to search for information online, determine which sites were reliable and explain their reasoning.


Hunter scored in the top quartile. In fact, about a third of the students in the study, led by Professor Leu, scored below average on traditional reading tests but did well on the Internet assessment.


The Testing Debate


To date, there have been few large-scale appraisals of Web skills. The Educational Testing Service, which administers the SAT, has developed a digital literacy test known as iSkills that requires students to solve informational problems by searching for answers on the Web. About 80 colleges and a handful of high schools have administered the test so far.


But according to Stephen Denis, product manager at ETS, of the more than 20,000 students who have taken the iSkills test since 2006, only 39 percent of four-year college freshmen achieved a score that represented "core functional levels" in Internet literacy.


Now some literacy experts want the federal tests known as the nation's report card to include a digital reading component. So far, the traditionalists have held sway: The next round, to be administered to fourth and eighth graders in 2009, will test only print reading comprehension.


Mary Crovo of the National Assessment Governing Board, which creates policies for the national tests, said several members of a committee that sets guidelines for the reading tests believed large numbers of low-income and rural students might not have regular Internet access, rendering measurements of their online skills unfair.


Some simply argue that reading on the Internet is not something that needs to be tested — or taught.


"Nobody has taught a single kid to text message," said Carol Jago of the National Council of Teachers of English and a member of the testing guidelines committee. "Kids are smart. When they want to do something, schools don't have to get involved."


Michael L. Kamil, a professor of education at Stanford who lobbied for an Internet component as chairman of the reading test guidelines committee, disagreed. Students "are going to grow up having to be highly competent on the Internet," he said. "There's no reason to make them discover how to be highly competent if we can teach them."


The United States is diverging from the policies of some other countries. Next year, for the first time, the Organization for Economic Cooperation and Development, which administers reading, math and science tests to a sample of 15-year-old students in more than 50 countries, will add an electronic reading component. The United States, among other countries, will not participate. A spokeswoman for the Institute of Education Sciences, the research arm of the Department of Education, said an additional test would overburden schools.


Even those who are most concerned about the preservation of books acknowledge that children need a range of reading experiences. "Some of it is the informal reading they get in e-mails or on Web sites," said Gay Ivey, a professor at James Madison University who focuses on adolescent literacy. "I think they need it all."


Web junkies can occasionally be swept up in a book. After Nadia read Elie Wiesel's Holocaust memoir "Night" in her freshman English class, Ms. Konyk brought home another Holocaust memoir, "I Have Lived a Thousand Years," by Livia Bitton-Jackson.


Nadia was riveted by heartbreaking details of life in the concentration camps. "I was trying to imagine this and I was like, I can't do this," she said. "It was just so — wow."


Hoping to keep up the momentum, Ms. Konyk brought home another book, "Silverboy," a fantasy novel. Nadia made it through one chapter before she got engrossed in the Internet fan fiction again.




A NEW GENERATION Nadia Konyk, 15, has a small book collection but prefers reading online.

Moradores, comércio e até gays rejeitam criação da ''Rua Gay''

 

Moradores, comércio e até gays rejeitam criação da ''Rua Gay''

Idealizador da proposta de oficializar Frei Caneca diz que preconceito gera má repercussão

Rodrigo Pereira

A proposta de oficializar a Frei Caneca como a primeira "rua gay" do País provocou reação contrária de moradores, comerciantes e até mesmo de ativistas do movimento gay de São Paulo. A Associação Casarão Brasil, idealizadora do projeto, atribui a má repercussão ao preconceito e ao desconhecimento das melhorias que a tematização da rua traria.

O presidente da associação, Douglas Drummond, explicou que a oficialização prevê a abertura de um concurso de projetos arquitetônicos para revitalizar a rua. Além disso, ele já está reformando o imóvel onde ficará a sede do Casarão - um centro para receber gays de todo o Brasil que oferecerá serviços gratuitos de agenciamento de emprego, internet, fax, atendimento médico, cursos, centro cultural e outros.

A associação, segundo Drummond, já preparou material para detalhar as propostas e vai iniciar na segunda-feira um levantamento em toda a rua para apontar quem é favorável ou contrário à medida - uma exigência da Câmara e da Prefeitura de São Paulo para discutir a viabilidade da implementação da rua gay na Frei Caneca.

Surpreendida, a Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César (Samorcc) convocou reunião na terça-feira na Paróquia Divino Espírito Santo - vizinha de parede do Casarão - para discutir o assunto com síndicos. O padre Lucas, que empresta sala para as reuniões da Samorcc, não quis falar da disputa. "Me recuso a dar entrevista ou a fazer qualquer comentário sobre isso."

"Ninguém está gostando dessa história", lançou a diretora da subárea da Consolação da Samorcc, Mara Palla. "Vai criar uma estigmatização, é querer criar artificialmente uma coisa que não existe. É querer impingir a uma área algo que só vai criar uma situação de comentários", disse Mara.

Ela fez questão de ressaltar que sua posição e a de moradores que reclamam do projeto "não é de preconceito". "Temos gays no bairro e não é de hoje. Convivemos e respeitamos, tem muito morador gay. Mas como estão fazendo é até uma forma de estimular a segregação", avaliou, temendo que a história da rua "seja jogada no lixo" ao ser oficializada gay.

Mesmo a Associação da Parada do Orgulho Gay mostrou-se desfavorável à idéia, por entender que criaria ali um gueto. "Nossa posição não é contrária, mas a de que não podemos aceitar mais guetos. Queremos ter o direito de ir e vir em qualquer lugar, como qualquer outro indivíduo. Não queremos uma zona de exclusão", disse Alexandre Santos, presidente da Parada, maior evento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), que neste ano reuniu 3,4 milhões de pessoas em São Paulo. "Mas foi bom por levantar a discussão."

Comerciantes e síndicos próximos ao imóvel do Casarão criticaram duramente a idéia de oficializar a rua gay. "Já chamam de Frei Boneca ou Gay Caneca, mas virar um ícone oficial, aprovado pela Câmara, aí, não dá", protestou Ronaldo Cainelli, de 46 anos, proprietário de um bar na esquina com a Rua Mathias Aires. "O Raul Seixas bebia aqui, tem de pensar na história do próprio Frei Caneca, não pode", opinou Cainelli.

"Vai perder muito aquele negócio de família aqui", disse Mara Lima, supervisora do Hotel San Gabriel. "A gente convive bem com todo mundo, mas não dá para selar todo mundo na rua como gay", criticou o síndico Alfredo Garcia, de 55 anos.

Proprietário de um mercado na Frei Caneca desde 1974, o português José Antonio disse ser contrário e acreditar que esse é mais um modismo. "Já teve mulheres - prostituta, sabe? -, depois vieram os nordestinos morar aqui, temos essas mudanças. E essa é a mais recente."

Drummond rebateu as manifestações contrárias, classificando-as como "preconceituosas". "A idéia é segregar mesmo. Hoje eu não consigo andar de mão dada com meu companheiro onde quer que seja; é preciso um espaço onde nos respeitem e nos sintamos seguros pra ser o que somos."

Entre os favoráveis à medida estão Sílvia Aparecida da Silva, funcionária de um hotel, e a dona de um chaveiro, Ilza Araújo. "Sou favorável, até porque nosso público é 100% gay", disse Sílvia. "A turma é alegre, não tem problema nenhum", disse Ilza.

"Seria ótimo mudar, trazer melhorias aqui. Mas todo mundo acha essa coisa de ser gay bonito, quando não é com sua família. Por isso acho que vai ter muita resistência. Tem muito morador tradicional, vai ser difícil passar", disse um professor universitário, que pediu anonimato.

Enquete feita pelo portal Estadão.com.br recebeu, até as 23 horas, 1.292 votos. A maioria, 55% dos internautas, se disse contra a nomeação da rua como "gay", ante 45% dos que são a favor.

 

ESTADO DE SP 26 DE JULHO DE 2008

Esse Eça!

 
 

  

 

Eça de Queiroz

 «Os políticos e as fraldas devem ser mudados freqüentemente e pela mesma razão.»

 

 

 

 

 

Portugal investirá para expandir idioma

 

Portugal investirá para expandir idioma

Medida será anunciada hoje na reunião da Comunidade de Países de Língua Portuguesa

Leonencio Nossa, LISBOA

 

O governo de Portugal anuncia hoje um plano de expansão do ensino da língua portuguesa no mundo com investimentos de ? 30 milhões. A proposta será apresentada no sétimo encontro de chefes de Estado dos oito países que falam português, que contará com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de líderes de Angola, Timor Leste, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde.

Depois de 12 anos sem mostrar resultados práticos, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) anunciará ainda, durante a reunião que começa por volta de 9 horas, 5 horas em Brasília, um acordo que permitirá aos seus cidadãos recorrer a consulados e embaixadas de qualquer país do bloco. Um cidadão angolano poderá usar os serviços do consulado de Portugal em Paris, por exemplo. Lula e os demais chefes de Estado também discutem o combate à Aids, a falta de alimentos e a criação na cidade de Redenção, no Ceará, de uma universidade voltada especialmente para jovens africanos.

O encontro da CPLP ocorrerá no Centro Cultural de Belém, a poucos metros do Mosteiro dos Jerônimos. O mosteiro será palco da festa de entrega do Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa que, nesta edição, coube ao romancista português António Lobo Antunes.

O argumento do governo de Portugal de levar à frente um plano de remodelação do Instituto Camões, orçado em ? 30 milhões, é a maior presença no mercado do Brasil. Diplomatas brasileiros observam que o idioma é a única coisa que aproxima nações que seguiram caminhos tão diversos nos últimos séculos. Cada uma delas tenta tirar vantagens por usar uma língua que não é falada em nenhum país do G-8, grupo das nações mais ricas. Portugal vem ampliando o intercâmbio comercial com o Brasil. Já o governo brasileiro trabalha na melhoria das relações diplomáticas em países africanos que falam o idioma, atendendo a interesses da Petrobrás e da Vale, que têm investimentos na região.
FONTE ESTADO DE SP, 25 DE JULHO DE 2008 

Educação de qualidade e superação da pobreza

ESTADO DE SP, 24 DE JULHO DE 2008

Educação de qualidade e superação da pobreza

Thais Garrafa e Maria Alice Setubal

A discussão a respeito da enorme desigualdade social persistente no nosso país tem sido objeto de inúmeros estudos, especialmente nas áreas da educação, economia e assistência social. Nos diversos fóruns desse debate, marcam presença os dados do Programa Bolsa-Família, tema de recente pesquisa coordenada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que destacou o aumento no consumo de alimentos e de bens - como eletrodomésticos e móveis - como o maior ganho para as famílias beneficiárias. Uma política de tal envergadura e importância convoca ao diálogo com os diferentes setores da sociedade implicados na busca de alternativas viáveis para que o País alcance melhores patamares de eqüidade social.

Nesse sentido, é preciso reconhecer que, embora o trabalho seja a condição fundamental para a superação da pobreza e a autonomia em relação à bolsa, essa dimensão não encerra a problemática das famílias integrantes do programa. A diversidade de circunstâncias complexas e opressivas experimentadas no dia-a-dia configura situações de extrema vulnerabilidade psíquica e social para a grande maioria dos moradores dos territórios mais pobres, sobretudo nas grandes cidades. Sob os efeitos da violência e da precária infra-estrutura urbana, crianças, jovens e adultos desenham o cotidiano familiar com as tintas do isolamento, da dependência de álcool e outras drogas, da fragilidade dos laços e das situações de conflito com a lei. Um cenário de riscos significativos para diversas esferas da vida.

Ao lado do trabalho, a educação é, sem dúvida, uma das portas de saída da pobreza. A extensão da bolsa a famílias com jovens traz nova responsabilidade para as políticas públicas que visam à permanência desses alunos na escola. Infelizmente, ainda estamos muito distantes de alcançar um mínimo de eqüidade: apenas 56,2% dos jovens até 16 anos conclui o ensino fundamental e somente 37,9% dos jovens até 19 anos conclui o ensino médio.

O alto número de jovens que abandonam a vida escolar denuncia o verdadeiro abismo que separa a escola e as camadas mais vulneráveis da sociedade. Para intervir nesse quadro, no entanto, é necessário reconhecer o desamparo da escola diante de um contexto altamente complexo, como já esboçamos.

Uma educação de qualidade para todos só poderá ser construída a partir do investimento público na capacitação dos educadores em relação a essa problemática social, ao lado de iniciativas que promovam a abertura da escola à comunidade. É fundamental que a escola conheça melhor as necessidades, os problemas e as potências do universo com que trabalha. Dessa forma será possível adequar o ensino aos valores, tradições e cultura dessa população e, ao mesmo tempo, construir diálogos com instituições locais que atuem como parceiras no desafio de manter crianças e jovens na escola, aprendendo o que devem aprender na série adequada.

Atualmente, experiências e estudos mostram uma escola que aponta para fora de seus muros toda a responsabilidade pelo fracasso escolar - situações de alcoolismo e violência doméstica; pais que não dão a devida atenção a seus filhos, passam o dia fora de casa e desvalorizam a criança e a si próprios quando o filho enfrenta uma dificuldade. Se tal situação alarmante é muitas vezes verdadeira, na falta de instrumentos e assistência profissional adequada a escola fica paralisada e se fecha sobre si mesma. Em vez de se aproximar da família e conhecer melhor esse cotidiano, culpabiliza os pais e reconhece a evasão como uma saída legítima para o aluno - "esse não tem mesmo mais jeito..."

A paralisia e a falta de perspectivas encontram correspondência no discurso das famílias, que acabam compartilhando o preconceito e a "naturalização" da falta de lugar do jovem considerado pela escola um aluno-problema. Mães apontam como natural o fato de as crianças não aprenderem a ler e não demonstram qualquer surpresa diante das atitudes rudes com que são tratados os jovens que tentam retornar à escola - "você não vai entrar aqui para dar porrada nos menores, vai?"; "aqui não tem mais vaga, você nunca devia ter parado de estudar!"

Nada se reivindica. Nada se constrói ou se transforma. A distância entre escola e família se coloca, portanto, como condição da imobilidade e da desobrigação da escola com relação aos problemas da comunidade. Tudo se passa como se a solução estivesse inteiramente localizada fora do âmbito da vida escolar. Daí a existência de uma certa "permissão para sair", como se abandonar a escola fosse "um bom negócio", uma vez que a evasão permitiria que o jovem trabalhasse e melhorasse a condição social da sua família - apontada pela escola como o principal fator para que os alunos não aprendam.

O desenvolvimento de uma política educacional mais próxima desse universo ocupa lugar central na construção de uma educação de qualidade para todos. Assumir os desafios do diálogo entre a escola e a família é tarefa necessária para que todas as crianças e todos os jovens encontrem oportunidades efetivas para a conclusão do ensino fundamental e do ensino médio.

Maria Alice Setubal, socióloga, mestre em Ciências Políticas pela USP e doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP, diretora-presidente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e fundadora e presidente da Fundação Tide Setubal, foi consultora do Unicef na área educacional para a América Latina e o Caribe

Thais Garrafa, psicóloga, psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae, é integrante da equipe técnica do projeto Ação Família São Miguel Paulista, da Fundação Tide Setubal