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KANTOR E MICHALSKI

Revista Camarim, número
35, da Cooperativa Paulista de Teatro
O Trabalho de Kantor

Tadeusz Kantor (1915 - 1990)
por Michal Kobialka
tradução Jorge Will

Tadeusz Kantor, artista plástico polonês, teórico e diretor teatral,
fundador (com Maria Jarema) da companhia teatral CRICOT 2 (1995),
nasceu em Wielopole, Polônia. Foi educado em Tarnóvia e Cracóvia.
Quando estudou pintura e cenografia na Academia de Belas Artes de
Cracóvia (1933 -1939), Kantor conheceu o simbolismo, o
construtivismo e Bauhaus. Em 1938, ele fundou o Teatro Ephemeric
(Mecânico), onde apresentou A Morte de Tintagiles de Maurice
Materlinck. Em 1942, com um grupo de pintores jovens, Kantor
organizou o Teatro Independente, clandestino e experimental, durante
a ocupação nazista, onde ele dirigiu Balladyna de Juliusz Slowacki
(1942) e O Retorno de Ulisses de Stanislow Wyspianski. Como citado
por Kantor em sua "Lição 1" de As Lições Milanesas, esta produção
foi fundamental para a elaboração dos seus conceitos sobre espaço
autônomo de performance, objeto pobre, ator-objeto, e "realidade da
vida" ("realidade do mais baixo escalão"):

1944. Cracóvia. Teatro Clandestino. O Retorno de Ulisses do Sítio de
Estalingrado.
O abstracionismo, que existiu na Polônia até o inicio da II Guerra
Mundial, desapareceu no período do genocídio em massa. [...]
A arte perdeu seu poder.
A re-produção estética perdeu seu poder.
O ódio de um ser humano apoiado por outras bestas humanas amaldiçoou
a a r t e. Só tínhamos força para agarrar o que estava mais
próximo,
O Objeto Real
e chamá-lo de obra de arte!
No entanto, era um objeto p o b r e, incapaz de realizar qualquer
função na vida real, um objeto a ser descartado.
Um objeto que foi desprovido de uma função vital que o salvaria.
Um objeto despojado, sem função, a r t í s t i c o! [...]
Uma cadeira de cozinha .
Um objeto, que foi esvaziado de qualquer função vital, veio à tona
pela primeira vez na história.
Este objeto era vazio.
Tinha que justificar sua existência a si mesmo e não às coisas que o
cercavam e lhe eram estranhas.
[E o fazendo, o objeto] revelava sua própria existência.
E quando sua função era imposta a ele, essa ação era vista como se
isso tivesse acontecido pela primeira vez desde o momento da criação.
Em O Retorno de Ulisses, Penélope, sentada em uma cadeira de
cozinha, representou o ato de estar "sentada" como um ato humano
acontecendo pela primeira vez. O objeto [físico] adquiriu sua função
histórica, filosófica e a r t í s t i c a ! 1

Os experimentos de 1944 e 1963 fecham o período no qual Kantor
questiona as convenções de criação ou exibição artística vigentes,
e, devido à experiência da II Guerra Mundial, modifica a função de
uma vanguarda artística numa sociedade.
Estes experimentos colocam em xeque as narrativas históricas
oficiais que encontram um modo efetivo de desprezar o questionamento
de Adorno sobre o que significa representar depois de Auschwitz.
Assim, por exemplo, em O Retorno de Ulisses, em 1944, "Ulisses se
recusa categoricamente a ser apenas uma imagem, uma representação.
[...] em tempos de loucura gerada pelos homens, em tempos de guerra,
a morte e suas trupes tenebrosas, que se recusaram a ser impedidas
pelos sentidos humanos e racionais, iniciando e confundindo-se com a
esfera da vida". 2. A emoção do drama e seu caráter mitológico foram
atirados e fundidos com a vida contemporânea. A peça foi
representada não em um teatro, mas sim em uma sala que "estava
destruída. Havia guerra e havia milhares de salas assim. Todas se
pareciam: tijolos sem reboco por trás de uma camada de tinta, gesso
caindo do teto, piso faltando tacos, pacotes abandonados cobertos de
poeira, entulho espalhado por todos os lados, pranchas remanescentes
de um convés de navio foram dispensadas ao horizonte dessa
decoração, um tambor de revólver apoiado num monte de pedaços de
ferro, um megafone militar pendurado por um cabo de aço enferrujado.
A figura inclinada de um soldado com capacete usando um sobretudo
surrado [de um soldado alemão] em pé contra a parede. Nesse dia,
seis de junho de 1944, ele se tornou parte dessa sala". 3. Em 1963,
os objetos exibidos tornaram irrelevante qualquer tentativa
classificatória de localizá-los no espaço ou seqüência temporal
sistematizando-os em uma unificadora totalidade. Ao contrário, os
objetos rearticularam suas funções nas relações, que aconteceram
acidentalmente, e que não poderiam ser previstas por nenhuma norma -
"a ditadura da utilidade" é vencida; o objeto que estava despido da
segurança da sua estrutura original a que pertence, "começa uma
discreta relação possível com seus semelhantes". 4
Para conseguir isso, Kantor explora o processo de incorporação na
atividade artística de objetos encontrados, ou seja, os objetos, os
eventos e o ambiente. Esta realidade não subjugada à modelagem
artística ou necessidades formais. Não funciona como modelo, que
existe anterior à obra de arte, e, conseqüentemente, não corresponde
a nenhuma convenção de representação. Conforme Kantor observou:

Realidade pode apenas ser
"u s a d a"
"Usada" é o único termo apropriado
fazer uso da realidade
na a r t e
significa
uma apropriação da realidade. [...}
Durante esse processo
a realidade
t r a n s g r i d e
sua própria b a r r e i r a
e caminha na direção do
"i m p o s s í v e l"
A realidade apropriada contem em si mesma
objetos reais
situações
e um ambiente descrito
pelo tempo e lugar.
Suas r e a ç õ e s entre si,
as i n t e r c o n e x õ e s entres eles
a apropriação g e s t u a l
do (como se, encantando a realidade)
r i t u a l
são substituídos
pelo processo de modelagem
que está fora de questão aqui. 5.

A estratégia da apropriação da realidade significa o processo de
arrancar os objetos da realidade para explorar sua qualidade de
objeto no meio onde eles adquiriram suas funções na relação com
outros elementos colocados nesse espaço. 6. Portanto, os objetos são
descaracterizados e não conceituais no entender de Adorno sobre os
princípios que regem as obras de arte autônomas. 7. O foco está em
suas estruturas inerentes, ao invés de na totalidade dos efeitos;
num processo manual de significação, ao invés da soberania visual do
olhar produzindo a imagem representacional num espaço clássico,
tridimensional; nos processos não-representativo, não-ilustrativo, e
não-figurativo, nos quais o olhar não desempenha uma função visual
de ordenação, mas segue as relações que organizam seus campos de
percepção; no irrepresentável na representação em sí mesma; naquilo
que "recusa o consolo das formas corretas, recusa o consenso do
gosto permitindo uma experiência comum de nostalgia pelo impossível,
e questiona novas apresentações." 8

Levando em consideração a importância e a direção das transformações
na arte em geral no século XX e no Dadaísmo, Surrealismo,
Abstracionismo, Arte Informal em particular, Kantor enfatizou sua
partida pelas formas geométricas ou abstratas, que tinham que
eliminar ou transcender os dois eventos históricos, como a I e II
Guerras Mundiais, co-modificação das artes, em direção à realidade
degradada ou à realidade do mais baixo escalão, destituída de seus
aspectos marcantes pelos eventos da guerra. A realidade degradada ou
a "realidade do mais baixo escalão" não funciona como uma estratégia
artística, mas sim como uma indução tática, que permitirá ao artista
ser "surpreendido, acidentalmente ou de forma inesperada, pela
esfera desconhecida e ignorada da realidade que intervem na arte."
9 Na produção de Kantor de O Polvo (1956) de Stanislaw Ignacy
Witkiewicz (Wtkacy´s), ambiente, objeto e atores foram engajados num
processo complexo de constituição de formações espaciais diversas
criando choques, escândalos e tensões com o objetivo de desbloquear
a imaginação e esmagar a casca empregnável do drama. Isto quer
dizer, ambientes, objetos e atores, e mais seus atributos, não
ilustravam, interpretavam ou teciam comentários sobre o drama, mais
que isso, eles criaram um sistema de relações para depreciar o valor
da realidade por explorar seu aspecto cotidiano desconhecido,
escondido. Esta exploração foi diferente em momentos distintos nos
anos 60. No "Teatro Informal"(1961), Kantor explorou a matéria

[um aspecto desconhecido da REALIDADE ou do seu estado elementar],
que não precisa obedecer as leis da realidade,
está sempre mudando e fluindo;
escapa da escravidão das definições racionais,
faz todas as tentativas para comprimi-lo em uma forma sólida
ridícula, desnecessária e vã;
é destruidora perene de todas as formas,
e nada mais que uma manifestação,
é acessível apenas pelas
forças de destruição,
por vontade e risco da COINCIDÊNCIA,
e por uma ação rápida e violenta.10

No "Teatro Zero" (1963) Kantor lidou com objetos marginalizados e
emoções para desmembrar o desenvolvimento da trama lógica,
construindo cenas por referência textual para revelar a
individualidade de um ator descartando a ilusão:

A técnica tradicional de desenvolver trama fez uso da vida humana
como um trampolim para se impulsionar em direção ao reino das
paixões crescentes e intensas do heroísmo, do conflito e das reações
violentas. Quando surgiu pela primeira vez, essa idéia de "crescer"
significou a expansão trágica do homem, ou uma batalha heróica para
transcender as dimensões humanas e seus destinos. Com o passar do
tempo, se transformou em um mero show, exigindo potentes elementos
de espetáculo e a aceitação da ilusão violenta e irresponsável -
figuras convincentes e uma procriação impensada de formas.11

No "Teatro do Happening" (1967), Kantor deu atenção à verdade
cotidiana e sua potencialidade para ser objeto não-conceitual médio
ou "objeto-encontrado", objeto "que fora encontrado: um objeto cuja
estrutura [era] densa e sua identidade [era] delineada por sua
própria ficção, ilusão, e dimensão físico-psicológica."12 Fazendo
uso de objetos pobres, matéria, objetos marginalizados, objetos
deteriorados, que são colocados dentro de uma estrutura aberta de
realidade fluida, dinâmica, Kantor modificou um modelo de cultura ou
atividade artística baseado na restrição, negação, transformação da
imagem/objeto. Os experimentos teatrais de Kantor, que, no período
de 1965 até 1969, tomaram forma de Happenings, mais adiante
desenvolveram estes conceitos. 13
O manifesto "O Teatro da Morte"(1975) significou uma mudança nas
pesquisas de Kantor. As produções, que seguiram, exploraram as
noções de memória, história, mito, criação artística, e a função do
artista como cronista do século XX: A Classe Morta (1975: a
exploração de memórias acontecia num espaço ante uma barreira
intransponível); Wielopole, Wielopole (1980 : introdução da idéia de
espaço da memória); Que Morram os Artistas (1985: introdução à
teoria de negativos que modificaram a noção de espaço da memória-
agora, era denominado depósito de memória, ou seja, um lugar onde
lembranças são sobrepostas umas às outras); Aqui Não Volto Mais
(1988: introdução da idéia de pousada da memória, que existia além
dos confins do tempo e espaço, onde Kantor encontrou suas próprias
criações passadas); e Hoje é Meu Aniversário (1990: exploração do
ultrapassar o limiar entre o mundo da Ilusão e o mundo da Realidade,
que provocou a desintegração da própria ilusão).14

As experiências teatrais de Kantor e sua versão oficial e não-
oficial da história do século XX são testemunhas de sua crença que o
teatro é uma resposta para a realidade, ao invés de representação da
realidade. Mais importante, como ele observou, Teatro "é uma
atividade que acontece se a vida é levada ás últimas conseqüências,
onde todas as categorias e concepções perdem seus significados e
direitos de existir; onde loucura, febre, histeria e alucinações são
o último estágio da vida diante da chegada da TRUPE DA MORTE e do
ESPLÊNDIDO ESPETÁCULO da morte.". 15.


Fontes Adicionais

A Journey Through Other Spaces: Essays and Manifestos: 1944-1990,
editado, traduzido e com análise crítica do teatro de Tadeusz Kantor
por Michal Kobialka (Berkeley, 1993)
Ein Reisender, ed. Piotr Nawrocki and Peter Kamphel (Nürnberg, 1988)
Hommage á Tadeusz Kantor, ed. Krzysztof Pleśniarowicz (Cracóvia,
1999)
Kantor, l'artiste á la fin du XXé siécle, ed. Georges Banu (Paris,
1990)
Dennis Bablet, Tadeusz Kantor (Paris, 1983)
Wiesław Borowski, Tadeusz Kantor, (Warszawa, 1982)
Krzysztof Pleśniarowicz, The Dead Memory Machine: Tadeusz Kantor's
Theatre of Death (Londres, 2000)

Notas

Tadeusz Kantor, "Milano Lessons: Lesson 1," A Journey Through Other
Spaces: Essays and Manifestos, 1944-1990, translated and with the
critical commentary by Michal Kobialka (Berkeley: University of
California Press, 1993), 211-12.
A Journey, 274.
A Journey, 272.
Walter Benjamin cited in Douglas Crimp, "This is not a Museum of
Art," Marcel Broodthaers (Minneapolis: Walker Art Center, 1989), 72.
A Journey, 96-7.
In 1963, Kantor presents the Popular Exhibition, also known as the
Anti-Exhibition, at Galeria Krzysztofory in Kraków. It comprised of
the objects, which were usually removed to the margins of the
creative activity, glossed over by the traditional conventions, and
discarded as irrelevant. "It was an inventory [of facts, theatrical
objects, drawings, sketches, prescriptions, letters, stamps, tram
and bus tickets, etc.] without any chronology, hierarchy, and
locality. I found myself in the middle of all that, without a role
of my own" (Kantor, "Zero," Ambalaże (Warszawa: Galeria Foksal,
1976), 21). The objects, like laundry pieces, were hanging clipped
to the ropes running through the vaulted space of the Gallery (A
Journey, 23-5).
Theodor Adrono, "Commitment," The Essential Frankfurt School Reader,
eds. Andrew Arato and Eike Gebhardt (Oxford: Basil Blackwell, 1978),
317.
Jean-François Lyotard, The Postmodern Explained, trans. Don Barry,
Bernadette Maher, Julian Pefanis, Virginia Spate, and Morgan Thomas
(Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993), 15.
Wiesław Borowski, Tadeusz Kantor (Warszawa: Wydawnictwa Artystyczne
i Filmowe, 1982), 76.
A Journey, 51.
A Journey, 59.
A Journey, 85.
See "Tadeusz Kantor's Happenings: Reality, Mediality, and History,"
Theatre Survey 43, 1 (May 2002): 59-79.
See A Journey, Part 2, "The Quest for the Self/Other: A Critical
Study of Tadeusz Kantor's Theatre" for a detailed discussion of the
concept of memory in Kantor's production from the period between
1975 and 1990.
A Journey, 149.







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Um testemunho teatral

Yan Michalski



O teatro brasileiro não é, decididamente, tão rico em valores humanos de
altíssimo gabarito a ponto de resistir, sem profundo abalo, a prematuras
perdas dos seus melhores profissionais na plenitude de sua capacidade
criadora. Depois de Cacilda Becker, Glauce Rocha... O desaparecimento de
Glauce, aos 38 anos, tem algo de particularmente chocante e escandaloso,
talvez por sentirmos que aquilo que ela ainda tinha para nos dar era bem
mais do que o muito que já nos dera.

Em talento puro, vibração dramática, força de personalidade, ela podia
rivalizar com as nossas melhores atrizes das duas últimas décadas. Em
dedicação, seriedade de trabalho, garra, consciência do seu papel social de
atriz, ela estava um passo à frente de muitas das suas mais famosas colegas.
E, no entanto, Glauce nunca chegou a ser uma 'estrela', no sentido popular
do termo; nunca criou em torno de si um mito. Talvez por ter sido a única
das nossas principais atrizes que nunca esteve à frente de uma companhia
própria; talvez porque o seu temperamento e a simplicidade da sua maneira de
ser não a predestinassem a uma posição de evidência fora do palco. Creio que
não lhe agradaria mais ficar na nossa lembrança como uma primeira 'dama'.
Mas, por causa disso, não lhe foi dada a chance de aparecer no palco com a
merecida assiduidade, e em papéis que dessem toda a medida das suas enormes
possibilidades de intérprete.

Algumas de suas interpretações permanecem particularmente vivas na minha
lembrança: a aluna de "A Lição", de Ionesco, onde [sic] ela fazia esquecer o
seu tipo físico e transmitia uma idéia de provocante fragilidade; a sua
selvagem Electra, de uma sinceridade e intensidade de sofrimento
inesquecível; a Dorina, de "Tartufo", onde [sic] esta atriz, geralmente
marcada pelo seu temperamento dramático demonstrava, com soltura e alegria,
a sua veia cômica; os dois momentos em que ela lutava, com cada fibra de
seus nervos, contra as inconsistências teatrais da matéria prima [sic]
dramatúrgica, "A paixão segundo G. H." e "Um uísque para o rei Saul" (sendo
que este último desempenho lhe trouxe a alegria de um Prêmio Molière, que
lamentavelmente não chegou a usar); o seu trabalho mais amadurecido e
comovente, "O exercício", num papel que ela assumiu com um sentido de
entrega total; e, por ser o último, o seu desempenho em "A ponte sobre o
pântano".

Uma de suas características mais marcantes era a sua generosa fé em tudo que
fazia no teatro. Não sei se jamais me perdoou completamente as restrições
que fiz ao texto de "Um uísque para o rei Saul" - em todo caso, lembro-me de
um telegrama que me mandou na época, e no qual defendia vigorosamente o
autor e a obra contra aquilo que considerou uma avaliação injusta. E quando
a vi pela última vez, antes da estréia de "A ponte sobre o pântano", ela me
falou do papel que iria desempenhar dentro de alguns minutos com o
entusiasmo e a ansiedade de uma estreante.

Outra coisa que me impressionava em Glauce Rocha era a coragem com a qual
assumia as suas opiniões, sem pesar as conseqüências. Não era de seu feitio
disfarçar aquilo que no seu modo de ver devia ser dito, e não raro isto
custou-lhe um preço bastante elevado. Que este preço tivesse sido pago, na
maioria das vezes, em defesa dos interesses de classe teatral e da liberdade
de expressão artística, dá a exata medida da sua personalidade tão
sinceramente admirada por todos os que a conheceram.

Sinto que Glauce Rocha estava agora madura para iniciar a mais bela etapa de
sua carreira, para dar um 'pulo' decisivo. A carreira, tão inesperadamente
interrompida, ficará incompleta para sempre. Mas a imagem de Glauce que
ficará comigo, e sei que também com muitos outros espectadores, é em si
plenamente completa: a imagem do mais denso momento da sua trajetória
teatral, a cena de "O exercício" na qual ela improvisava simultaneamente
três personagens, pai, mãe e filha. O virtuosismo formal e a identificação
emocional com o conteúdo do trabalho fizeram dessa cena um lindo presente
que Glauce dava a cada um de nós, e que cada um de nós guardará agora
religiosamente na mesinha-de-cabeceira de sua memória.

Publica no "Jornal do Brasil" de 15/10/1971.

* 'in' CONRADO, Aldomar: "GLAUCE ROCHA - Uma Vida Interrompida", Rio de
Janeiro, Relume-Dumará: Prefeitura, coleção "Perfis do Rio", 1996, pp.
121-123.



UM POUCO DE MACHADO

...um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde;mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo.
(DOM CASMURRO, minha edição é de 1955/p 8)

Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares, mas a saudade é isto mesmo, é o passar e repassar das memórias antigas. ( Dom Casmurro )

"O amor não nasce de uma circunstância fortuita , nem de uma longa intimidade, é uma harmonia entre duas naturezas, que se reconhecem e se completam." - Ressurreição

"As Melhores Mulheres Pertencem Aos Homens Mais Atrevidos "  Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo.. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar.Preferem pegaras maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados... Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore.

WILLIAM WORDSWORTH

The Rainbow:

My heart leaps up when I behold
A Rainbow in the sky:

So was it when my life began;
So is it now I am a man;
So be it when I shall grow old,
Or let me die!

The Child is father of the man;
And I could wish my days to be
Bound each to each by natural piety.

É preciso governar a louca da casa

"A paixão exalta a imaginação, encanta, fascina os sentidos. A imaginação pervertida orna de falsas cores os atrativos do mal, faz nascer ilusões enganosas e impele os sentidos para o gozo e voluptuosidade desordenada. É preciso aprender a governar essa louca da casa. A imaginação é o maior excitante das paixôes, através dela se corrompe a verdade. Além dos sentidos abertos para os riscos do mundo, é dela que vem as tentações interiores, muito mais perigosas e insidiosas de se domar"


" Esse mal ataca inicialmente pelos olhos, flui pelas veias como um veneno, dirige-se ao fígado que inflama de forma a transmitir um calor aos rins e ao lombo que se tornam sedes importantes dos sintomas eróticos,chegando finalmente ao cérebro que é escravizado. O amor tendo abusado dos olhos, como verdadeiros espiões e porteiros da alma, deixa-se deslizar docemente por um par de canais e caminha insensivelmente pelas veias até o fígado, imprime subitamente um desejo ardente da coisa que é realmente ou parece amável, acende a concupiscência e por este desejo começa toda a sedução (...) Vai diretamente ganhar a cidadela do coração , o qual estando uma vez assegurado como o mais forte lugar, ataca depois tão vivamente a razão e todas as potências nobres do cérebro que ela se sujeita e torna-se totalmente escrava."


" Amizades frequentes com conversações tenras, a vivenda na mesma casa, a sociedade nos mesmos exercícios, a ociosidade, as comidas especializadas em pimenta, canela e gengibre, a bebida do vinho e mais licores inebriantes, a lição de livros amatórios, a vista de painéis lascívios e outras curiosidades perigosas como as óperas , comédias etc, podem trazer o perigo do contágio do amor"

Bento Morganti, médico, século XVI

FERNANDA

Assim diz Fernanda Montenegro em entrevista à Folha Ilustrada, publicada em 19 de maio de 2009. Sincera, autêntica, de uma verdade quase desafiadora. E fico me perguntando, no meio da atual alienação, qual atriz poderá chegar a essa idade com esse porte? É uma geração, essa a de Fernanda, que infelizmente não deixará seguidores. Espero que algum aprendizado. Bela, Fernanda.


*LUCAS NEVES* da *Folha de S.Paulo*

"O ator é o demônio que dá passagem a outra entidade esquizofrênica dentro dele", costuma dizer Fernanda Montenegro, 79, aos jovens intérpretes que lhe perguntam como se constrói um personagem.

Quem a vê em cena, no monólogo "Viver sem Tempos Mortos", na pele da porta-voz do feminismo, Simone de Beauvoir (1908-1986), e depois conversa com ela "à paisana" sobre a peça que estreia em São Paulo nesta quinta entende perfeitamente a descrição. Sob o sol forte da tarde de outono, há em Fernanda um rastro palpável da filósofa francesa.

A ternura com que, no palco, Beauvoir recorda os primeiros encontros com o futuro companheiro Jean-Paul Sartre é análoga à de Fernanda ao falar, num sorriso saudoso, do começo do casamento com Fernando Torres, morto em 2008.


"Numa pensão na rua Rui Barbosa [em São Paulo], em 54, comendo bife estorricado com folha de alface e vinagre, a gente sonhava com uma companhia de teatro", lembra a atriz. As percepções da maturidade também são espelhadas. Em cena, Beauvoir se surpreende com a impressão de não ter envelhecido, embora se sinta "instalada na velhice". Com maquiagem sóbria, Fernanda observa que "seria mentiroso dizer que me sinto melhor do que quando tinha 20 anos", mas "os anos dão uma consciência que não tem preço".

Na entrevista a seguir, ela defende a atualidade do discurso de Beauvoir. Na política, acha que o Brasil está pronto para ter uma mulher na Presidência --sem endossar a candidatura de Dilma Rousseff. E afirma que se faz hoje no país apenas o "teatro possível", por conta das dificuldades de financiamento. Veja a íntegra.

*Folha - Oito anos separam sua última peça, "Alta Sociedade" (2001), de "Viver sem Tempos Mortos". A que se deve esse longo hiato?*
Fernanda Montenegro -* Há dez anos, "Central do Brasil" estourou. Não tinha como ficar pensando em projeto. Depois, seguiram-se quatro filmes. Mas nunca deixei de vê-los como trabalhos teatrais, com origem no que vivi em cena. E também passei a gostar de cinema. Mas ainda não sei fazer.

*Folha - Como o projeto de montar, com o ator Sergio Britto, uma peça sobre Anton Tchecov (1860-1904) se transformou em um monólogo sobre Simone de Beauvoir?*
*Fernanda -* Fomos pelos caminhos mais malucos. Queríamos primeiro fazer um texto sobre as cartas do Tchecov para a [atriz] Olga Knipper [mulher do autor]. Soubemos que havia dois textos, ambos na mão de alguém. Aí o Sergio se lembrou do Sartre e da Simone, porque tinha saído o livro "Tête-à-Tête" [biografia do casal]. E são duas personalidades ligadas à nossa memória mais jovem. Comecei a organizar esse material, e o tempo correu: Sergio estreou com sucesso "A Última Gravação de Krapp/Ato sem Palavras 1", de Beckett. De repente, nos separamos. Fiquei com a Simone, ele com o Beckett.

*Folha - Em que momento entrou o diretor Felipe Hirsch?*
*Fernanda -* Tenho um papo com ele de dez anos para fazermos algo juntos.Já passamos pela Hannah Arendt, pela Clarice Lispector. Achei que era o momento de chamá-lo para me conduzir. Trouxe sua gloriosa equipe [Daniela Thomas na cenografia e Beto Bruel na iluminação]. O problema maior era se ele via possibilidade naquele texto, porque era uma compilação de uma
compilação, sem nenhuma ambição de esgotar o assunto ou academizar o processo. Era um pequeno trabalho de uma loja da esquina. Quando ele disse que o texto daria não um espetáculo, mas uma encenação sensibilizada --que era por onde eu tinha ido quando "compilei a compilação"--, vi que estávamos harmonizados. Aí veio o processo de achar a encenação. Pusemos mesas, máquinas, cigarro, uísque, remédio... Esperei a intuição do Felipe. E ele
foi dizendo: "Olha, acho que isso está sobrando...". Um dia, ele chegou: Vou radicalizar, vou tirar tudo". [A montagem] É mais uma voz, um roçar, um arranhar a vida intensa e inesgotável que foi a dessa mulher.


*Folha - Muito se fala hoje em pós-feminismo, em conquistas femininas consolidadas, espaços sociais e profissionais ganhos. O discurso de Beauvoir sobre a igualdade entre os sexos não parece anacrônico?*
*Fernanda -* Acho que não, porque o discurso da liberdade e do autoconhecimento nunca será algo fora de cogitação. Esse conceito de liberdade, que é complexo --até onde você se aprisiona na sua consciência ou na sua neurose?--, traz um mistério que uma teoria radicalizada muitas vezes não quer ver.

*Folha - Em Beauvoir, por trás do discurso emancipacionista e da defesa do
amor livre, parece haver traços de romantismo. Digo isso porque, em "Viver
sem Tempos Mortos", a personagem comenta a relação com Jean-Paul Sartre
desta maneira: "Nossa vida não tinha sentido para além do nosso amor".*

*Fernanda -* Mas será que é romântico? Ela diz uma coisa que eles cumpriram: o amor estava acima das vidas, e nada modificaria isso, nem uma possível separação, nem futuras paixões, nem a guerra. Portanto, não acho que seja uma visão romântica. A não ser que, toda vez que se fale de amor, a gente vá lá e o derrube com esse rótulo. Ela estava falando de um amor acima de
futura separação, de futuras paixões e mesmo de uma guerra. E isso eles cumpriram, mesmo sem mais nenhum interesse sexual. Acima da relação sexual. Só se for uma visão romântica à la Schiller, Goethe, lá nos primórdios da conceituaçao do romantismo.


*Folha - Beauvoir defende que a mulher seja entendida segundo parâmetros próprios, e não masculinos. Num país como o Brasil, em que ainda resiste o machismo, é possível pensar em uma mulher presidente?*
*Fernanda -* Ah, completamente. Não que eu esteja endossando ou não a [candidatura da ministra da Casa Civil] Dilma [Rousseff]. É interessante não quando a mulher vem para o poder no velho esquema, de substituir o homem no seu temperamento de agir. A gente está esperando que as mulheres que chegarem ao poder tenham pelo menos o sentimento do feminino à frente de
qualquer outra coisa, e não que sejam imitações acentuadas, mais contundentes do homem.


*Folha - E qual seria essa marca do feminino no poder?*
*Fernanda -* É um sentimento. Tem algo na mulher que é o seu olhar para as entranhas. O homem é um pau levantado para o horizonte. A mulher, não. Ela é incubada, obrigada a entrar em contato com o interior do seu sexo todo mês, tem esse ventre. Isso não quer dizer que vá ser mole, que a delicadeza não possa ser absolutamente poderosa.

*Folha - O compêndio sobre Beauvoir e Sartre feito pela sra. recebeu algum verniz dramatúrgico antes de ir à cena?*
*Fernanda -* Não. Tenho uma longa experiência de lidar com textos de alta dramaturgia. Fiz por dez anos um teleteatro em que todos do grupo cortavam, dinamizavam os roteiros. No rádio, redigi um programa literário, adaptando contos, romances, crônicas. Mas, talvez por uma fidelidade ao palco, nunca quis me dispersar em algo que não fosse a interpretação mesma. O único momento em que saio disso é nas oficinas de leitura dramática [que conduz em várias partes do país]. Penso em um dia talvez dirigir alguma coisa com qualidade literária. Mas não tenho ambições de montagem, por exemplo. Sempre acho que, em teatro, menos é mais. O excesso, o ruído cenográfico só perturba.

*Folha - A sra. acompanha o trabalho de novos autores?*
*Fernanda -* Na medida do possível, porque o Brasil todo produz teatro, o país todo tem grupos, alguns de excelente qualidade, como o Galpão (MG), o Piollin (PB), o Ponto de Partida (MG). Sei da voltagem teatral que o Brasil tem, sem nenhuma demagogia. É interessante que já houve época em que [os grupos] tentavam vir mais para o eixo Rio-São Paulo. Hoje, querem ficar nas
suas cidades e de lá se projetarem por meio dos festivais.


*Folha - O que mudou no ofício de ator desde que a sra. começou no radioteatro (em meados dos anos 40)?*
*Fernanda -* Sou do tempo do ensaiador português, cujo primeiro conselho é: o ator tem de começar aprendendo a ouvir o ponto [o auxiliar de cena que,escondido do público, lembra aos atores suas falas]. A fase áurea foi a chegada à América do Sul de encenadores europeus que tinham boa formação acadêmica, como Zbigniew Ziembinski, Eugenio Kusnet, Gianni Ratto e Maurice Vaneau. Eles nos transmitiam uma logística de como se aproximar de um texto
dramático. Todos tiveram assistentes brasileiros, como o Antunes Filho. Formaram uma frente de encenadores com capacidade de ir a uma outra geração além deles. Nos ensinaram a ler textos do ponto de vista social, existencial. Somos essa geração que tem por volta de 80 anos. Os encenadores que foram assistentes estão passando adiante o que eles trouxeram. É claro
que, a partir de uma hora, com a contracultura e o domínio de uma segunda geração, aquela disciplina de corpo de balé, de companhias ensaiando 12 horas por dia, repetindo até morrer foi perdendo força. Havia grupos falando de si mesmos, uma criatividade mais comunal, um jogo menos acadêmico. E aí começou a haver uma mescla de experiências.
Hoje, por causa do processo econômico do teatro, temos o teatro que se pode fazer. Alguns grupos corajosamente são grandes, mas vão buscar seus recursos de sobrevivência em outros trabalhos, pois ali é apenas o prazer do jogo teatral. Para se concretizar o processo de presença artística, vamos para os monólogos. Não se faz isso porque a gente queira estar sozinho em cena. Faz-se isso porque esse é o teatro possível.

*Folha - Os atores Rodrigo Santoro e Alice Braga estão em ascensão em Hollywood, cenário em que a sra. transitou na esteira do sucesso de "Central do Brasil". Que caminho eles devem buscar ali?*
*Fernanda -* São dois atores com muito bom senso. Somos sul-americanos contaminados pela visão mexicana que o americano tem de toda a América Latina. Lá fora, não saímos disso. É importante ter essa consciência. Inventaram a raça latina: agora tem branco, amarelo, negro e latino. É isso que nos cabe ali. O que puderem aproveitar desse espaço, ótimo. São jovens
talentosos já com excelentes resultados em seus papeis, maiores ou menores. Mas há um destino cravado, que é a latinidade. Não adianta se iludir.

*Folha - A sra. recebeu vários convites para papéis desse tipo, não foi?*
*Fernanda -* Sim. Salvadorenhas, chilenas, madrilenas, até uma iraniana. Onde é que isso vai me levar? Não tenho mais 20 anos para ter ilusão hollywoodiana. E Hollywood já não é o espaço mítico que foi nos anos 30 e 40.

*Folha - Com que diretores estrangeiros gostaria de trabalhar?*
*Fernanda -* Nos EUA, queria ter trabalhado com o [Robert] Altman e o [Stanley] Kubrick. Na Europa, com [Ingmar] Bergman, um monstro que mexia com os atores de forma absoluta, os levava a instantes de dimensão interpretativa inalcançável. Sobrou só Pedro Almodóvar, um criador imenso.

*Folha - E brasileiros?*
*Fernanda -* Beto Brant. Os filmes dele têm nervo, inteligência, clareza.

*Folha - No cinema brasileiro, o ano tem sido marcado pelas ótimas bilheterias de comédias rasgadas, como "Se eu Fosse Você 2" e "Divã". Como vê o sucesso desse gênero?*
*Fernanda -* Acho fundamental. Precisamos ter uma diversificação de programação no nosso cinema. Eles [os filmes] podem ser crucificados por uma crítica mais purista, mas qualquer cinema do mundo se fez mesclando gêneros, propostas, genialidades e banalidades. É a história do cinema americano, francês, italiano. Não há uma indústria cinematográfica feita só de
criadores exponenciais


*Folha - A sra. disse certa vez que o salário da televisão lhe havia permitido voos cegos no teatro. Foi possível em algum momento fazer esses voos cegos na própria TV?*
*Fernanda -* Arriscamos na novela "Guerra dos Sexos" (1983). Achavam que aquele humor daria só para um mês, que era preciso haver uma história melodramática, séria para servir de porto seguro quando a graça afundasse. E foi o que não funcionou durante seis meses, ou funcionou só como espaço de passagem: "Vamos dar uma passadinha ali e vamos já cair na farsa". E com o
Luiz Fernando Carvalho [com quem trabalhou em "Renascer" e "Hoje É Dia de Maria"], é sempre um salutar voo cego, altamente produtivo e comovente.

*Folha - O que pensa das telenovelas de hoje? Há quem veja um esgotamento do
gênero.*

*Fernanda -* Acompanho, na medida do possível, "Caminho das Índias". É tão kitsch que vejo. É um pulo no abismo, sem rede. Vejo que os atores começaram estranhando as roupas, os cenários. Mas, meses depois, já não têm mais problema, aceitaram um tipo de jogo. Estão plenos. Vejo o trabalho do Tony Ramos, por exemplo, que, como um danado de um ator que é, está pleno. E os moços estão lá, dando conta e aprendendo o seu ofício. Nas outras novelas,
às vezes, eu acho que tem um pouco de clipe demais. Mas vejo que uma pessoa como o João Emanuel Carneiro [roteirista de "A Favorita"] tem tutano, coragem.

*Folha - Por que, nos últimos 20 anos, os produtores culturais brasileiros passaram a depender tanto de patrocínios e leis de renúncia fiscal?*
*Fernanda -* No início, era possível ir ao banco, contrair uma dívida --fosse um espetáculo contestador ou de consumo--, e a bilheteria era nosso aval. Assim se viveu por 30 anos. Veio a mudança da capital, uma grande inflação, a impossibilidade de se manter elencos fixos por ano. Houve renúncias. É impressionante como não se estuda isso no Brasil: o que todo esse movimento que vem desde a morte de Getúlio até agora --esse mundo político inseguro, com jogadas de sobrevivência ideológica, censura e perseguições-- custou para a cultura brasileira, principalmente as artes cênicas. Porque você pode tocar sua clarineta que está tudo bem, pode dar 10 mil passos de balé que tudo bem. Agora vá para a cena e fale um texto que o
militar lá acha que é contra o regime. Falou o que não tinha de ser falado, está cassado.
Diante de um Brasil que se industrializou, essas companhias com agrupamentos à la século 19, de 20, 30 pessoas em torno de um espetáculo foram sobrevivendo amadoristicamente. Ou então se fazia o teatro de produções certas, por um período curto, que é o modelo que vigora até hoje. Isso foi industrializando o produto teatral. Isso e a censura nos levou para o atendimento cultural governamental.A primeira Lei Sarney [de 1986, que implantava o sistema de renúncia fiscal no patrocínio à cultura] precisava de apenas algumas tarrachas. Mas aí resolveram acabar com a lei e fizeram uma outra, a Rouanet [1991]. E essa era tão fiscalizante que não funcionava. E veio o Collor, que acabou com todo o processo cultural do país. Tudo cada vez mais indo para o colo do
governo.
Hoje, estamos, talvez envergonhadamente, estatizados. Alegam que os que têm
nome vão e recebem os patrocínios. A maior parte das empresas que você visita diz que não têm lucro.
Não se sabe direito os critérios das comissões que selecionam projetos. Acho justíssimo que se faça prestação de contas de uma agulha, uma caixa de fósforos. Só gostaria que todos os ministérios tivessem o grau de exigência que o Ministério da Cultura tem com o ato cultural brasileiro, quando este passa por uma lei do governo. Que todos tivessem o mesmo pente fino, a mesma acuidade com o dinheiro público que o MinC exige de quem leva dinheiro público.

*Folha - Não é verdade que os nomes consagrados recebem mais patrocínios?*
*Fernanda -* Não necessariamente. Porque as verbas são entregues ao diretor do setor de marketing. Tanto o consagrado quanto o alternativo recebem um "não". Para dividir e poder reinar, criou-se a expectativa de que o consagrado chega e abre todas as portas. Isso não é verdade. Falo por experiência própria.

*Folha - Os artistas consagrados levam tantos "nãos" quanto os grupos de
pesquisa?*

*Fernanda -* O diretor do grupo experimental não vai ser alugado como o nome dito consagrado, que tem de dar autógrafo para todo o sistema de atendimento daquele andar [da gerência de marketing da empresa], para o presidente da organização, para a mãe, a mulher.

*Folha - E como vê o debate atual sobre a reforma da Lei Rouanet?*
*Fernanda -* É uma reforma que não precisa existir. A lei tem de ter um apuro, ajuste. O Fundo Nacional de Cultura é fundamental, assim como é deixar uma brecha para quem queira atender por fora dele [por renúncia fiscal]. Por que confinar todos num só guichê? É preciso ter mais portas, porque, se todos vão ao fundo, aí é estatizar, por mais que se queira defender o não-dirigismo. Aí toda a cultura brasileira será entregue a uma comissão. Quem são essas pessoas? Que cabeça elas terão no tempo? Você está confinado a uma chancela que pode ter apenas uma visão ideológica, apenas uma visão estética, apenas uma visão existencial. É poder demais.O que se pode fazer para evitar abusos é botar lá um parágrafo dizendo que não pode trazer estrangeiros patrocinados por leis de incentivo à cultura. São esses apuros que já deveriam ter sido feitos desde a Lei Sarney.

*Folha - Os epítetos que lhe foram dados pela mídia, como grande dama do teatro brasileiro, alguma vez interferiram na sua decisão de fazer algum projeto? Já hesitou diante de um convite por medo de comprometer sua reputação, imagem?*
*Fernanda -* Em primeiro lugar, não fui eu que criei isso. Não tenho nada a ver com isso. Nasceu de fora para dentro. Não tenho nada com essa fantasia. Tenho uma vida de trabalho, ofício. O que possa ter da chamada "boa imagem" [aspas da atriz] não é para ser uma imagem, é resultado de uma consciência. Não sei por que só fazem isso com as atrizes. Há um certo debique quando
falam em "grande dama". Isso pode corresponder a uma saudação até honesta, mas também a um certo humor, sarcasmo. Não tenho uma imagem que criei para me defender de algo que eu não sou. Ninguém me faz propostas que me agridam, que seja obrigada a recusar para guardar uma imagem.


*Folha - No fim de "Viver sem Tempos Mortos", a personagem de Simone de Beauvoir diz: "Meu passado é a referência que me projeta e que devo ultrapassar". Com que projetos a sra. pretende ultrapassar o que fez até aqui?*
*Fernanda -* Olha, se disser a você que não tenho projeto nenhum... É que já vivi mais do que possa viver. Quando você tem muito a viver, naturalmente tem projetos. Mas chega uma hora em que o meu projeto primeiro é estar inteira. Para o futuro, tenho uma novela do Silvio de Abreu, um convite do Teatro do Porto (Portugal) para atuar em "A Amante Inglesa", de Marguerite Duras. E o sonho de 50 anos de fazer alguma coisa da Clarice Lispector. Mas sempre tem tantas Clarices sendo feitas que deixo para daqui a pouco. Mas não tenho mais tempo de experimentar o que experimentei, de passar por mais 50 personagens. Então não é uma visão festiva.

*Folha - Isso lhe traz angústia?*
*Fernanda -* Seria idiota se dissesse que não. Seria mentiroso dizer que me sinto melhor do que quando tinha 20 anos. Isso não existe. Os anos dão uma consciência que não tem preço, ou que tem o preço da sua juventude. Mas não sei se trocaria a minha vivência de 80 anos pelo tempo não vivido quando a gente tem 20. Nessa idade, a gente nem se vê vivendo.

Imagem: Sergio Britto e Fernanda Montenegrro em A Volta ao Lar, 1967.

um poema de Leonardo Martinelli (1971-2008)




Retrato cubista (para cdcl)


Não há remédio
para cólicas e abismos
afetivos:
você ali sentindo as
dores dentro e

o amor através -

além das
expectativas
mofadas ao
sol, eternas
cativas dos
malefícios fiscais
sem retorno -

do sorriso
infantil às margens
da Lagoa
após uma palavra
afiada
da última vez etc. -

então
o telefone
público
explode em cacos
oito meses
de idas sem volta -

esperas
tão banais
quanto um arco
e flecha
de brinquedo
um beijo sem retorno
ou dez mil pixels
de Picasso

(não esqueceremos
nada disso
querida,
e no entanto queremos
dormir em paz.)

imagem: Picasso, les demoiselles d´avignon

Doces lembranças da passada glória

Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz üa hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho n'alma larga história
deste passado bem que nunca fora
(ou fora, e não passara); mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, mouro de esquecido
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.



Soneto de Luís Vaz de Camões. Imagem: As sete idades da mulher, de Hans Baldug Grien

Italo Calvino - Por que ler os clássicos?

Ando relendo esse livro - um dos meus clássicos - e na minha vontade de compartlhá-lo eu achei na web essa parte. Reproduzo aqui com muita satisfação...

Capítulo I

Comecemos com algumas propostas de definição.


1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo..." e nunca "Estou lendo...".
Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram "grandes leitores"; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.

O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranqüilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras "de formação" de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.
Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados que lidos. Na França, se começa a ler Balzac na escola, e pelo número de edições em circulação, se diria que continuam a lê-lo mesmo depois. Mas na Itália, se fosse feita uma pesquisa, temo que Balzac apareceria nos últimos lugares. Os apaixonados por Dickens na Itália constituem uma restrita elite de pessoas que, quando se encontram, logo começam a falar de episódios e personagens como se fossem amigos comuns. Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio.
Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições de apreciá-los.

De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma as experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aquelas constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra

que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente. A definição que dela podemos dar então será:

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual. Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permanecerem os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo. Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

A definição 4 pode ser considerada corolário desta:

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicando dentro e fora de contexto. Se leio Pais e Filhos de Turgueniev ou Os Possuídos de Dostoievski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.

A leitura de um clássico deve oferecer-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura direta dos textos originais, evitando o mais possível bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumaça para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendem saber mais do que ele. Podemos concluir que:

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação, como sempre dá a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertinência. De tudo isso poderíamos derivar uma definição do tipo:

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

Naturalmente isso ocorre quando um clássico "funciona" como tal, isto é, estabelece uma relação pessoal com quem o lê. Se a centelha não se dá, nada feito: os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os "seus" clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.

É só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o "seu" livro. Conheço um excelente historiador da arte, homem de inúmeras leituras e que, dentre todos os livros, concentrou sua preferência mais profunda no Documentos de Pickwick e a propósito de tudo cita passagens provocantes do livro de Dickens e associa cada fato da vida com episódios pickwickianos. Pouco a pouco ele próprio, o universo, a verdadeira filosofia tomaram a forma do Documentos de Pickwick numa identificação absoluta. Por esta via, chegamos a uma idéia de clássico muito elevada e exigente:

10. Chama-se clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

Com esta definição nos aproximamos da idéia de livro total, como sonhava Mallarmé. Mas um clássico pode estabelecer uma relação igualmente forte de oposição, de antítese. Tudo aquilo que Jean-Jacques Rousseau pensa e faz me agrada, mas tudo me inspira irresistível desejo de contradizê-lo, de criticá-lo, de brigar com ele. Aí pesa a sua antipatia particular num plano temperamental, mas por isso seria melhor que o deixasse de lado; contudo não posso deixar de incluí-lo entre os meus autores. Direi portanto:

11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

Creio não ter necessidade de justificar-me se uso o termo clássico sem fazer distinções de antigüidade, de estilo, de autoridade. (Para a história de todas essas acepções do termo, consulte-se o exausto verbete "Clássico" de Franco Fortini na Enciclopédia Einaudi, vol. III). Aquilo que distingue o clássico no discurso que estou fazendo talvez seja só um efeito de ressonância que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma moderna mas já com um lugar próprio numa comunidade cultural. Poderíamos dizer:

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

A esta altura, não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas outras leituras que não sejam clássicas. Problema que se articula com perguntas como: "Por que ler os clássicos em vez de concentrar-nos em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?" e "Onde encontrar o tempo e a comodidade da mente para ler clássicos, esmagados que somos pela avalanche de papel impresso da atualidade?".

É claro que se pode formular a hipótese de uma pessoa feliz que dedique o "tempo-leitura" de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, O Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo. O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para afrente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir "de onde" eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem. E isso não presume necessariamente uma equilibrada calma interior: pode ser também o fruto de um nervosismo impaciente, de uma insatisfação trepidante.

Talvez o ideal fosse captar a atualidade como o rumor do lado de fora da janela, que nos adverte dos engarrafamentos do trânsito e das mudanças do tempo, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos, que soa claro e articulado no interior da casa. Mas já é suficiente que a maioria perceba a presença dos clássicos como um reboar distante, fora do espaço invadido pelas atualidades como pela televisão a todo volume. Acrescentemos então:

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incopatível.

Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição como nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa. Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antigüidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, para confronto da irmã ("o teu Stendhal", escrevia a Paolina). Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Frederico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.

Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicaram, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar. Separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.

Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei. Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.

Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque "servem" para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.

E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): "Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. 'Para que lhe servirá?', perguntaram-lhe. 'Para aprender esta ária antes de morrer' ".

A rede ou o que a Sevilha não conhece DE João Cabral de Mello Neto

A rede ou o que a Sevilha não conhece

João Cabral de Mello Neto



Há uma lembrança para o corpo,

a tua: é a de um abraço de rede,

esse abraço de corpo inteiro

de qualquer rede do Nordeste,

da rede que tua Andaluzia,

que é tão da sesta, não conhece,

e mais que abraço, é o abraçar

de tudo o que pode estar nele;

é o abraço sem fora e nem dentro,

é como vestir outra pele

que ele possui e que o possui,

uma rede nas veias, febre

Mi entrañable señor Cervantes - JORGE LUIS BORGES


DON QUIXOTE POR GUSTAVE DORÈE


Mi entrañable señor Cervantes - JORGE LUIS BORGES

Puede parecer una tarea estéril e ingrata discutir una vez más el tema de Don Quijote, ya que se han escrito sobre él tantos libros, bibliotecas enteras, bibliotecas aún más abundantes que la que fue incendiada por el piadoso celo del sacristán y el barbero. Sin embargo, siempre hay placer, siempre hay una suerte de felicidad cuando se habla de un amigo. Y creo que todos podemos considerar a Don Quijote como un amigo. Esto no ocurre con todos los personajes de ficción. Supongo que Agamenón y Beowulf resultan más bien distantes. Y me pregunto si el príncipe Hamlet no nos hubiera menospreciado si le hubiéramos hablado como amigos, del mismo modo en que desairó a Rosencrantz y Guildenstern. Porque hay ciertos personajes, y esos son, creo, los más altos de la ficción, a los que con seguridad y humildemente podemos llamar amigos. Pienso en Huckleberry Finn, en Mr. Pickwick, en Peer Gynt y en no muchos más.

Pero ahora hablaremos de nuestro amigo Don Quijote. Primero digamos que el libro ha tenido un extraño destino. Pues de algún modo, apenas si podemos entender por qué los gramáticos y académicos le han tomado tanto aprecio a Don Quijote. Y en el siglo XIX fue alabado y elogiado, diría yo, por las razones equivocadas. Por ejemplo, si consideramos un libro como el ejercicio de Montalvo, Capítulos que se le olvidaron a Cervantes, descubrimos que Cervantes fue admirado por la gran cantidad de proverbios que conocía. Y el hecho es que, como todos sabemos, Cervantes se burló de los proverbios haciendo que su rechoncho Sancho los repitiera profusamente. Entonces, la gente consideraba a Cervantes un escritor ornamental. Y debo decir que a Cervantes no le interesaba para nada la escritura ornamental; la escritura refinada no le agradaba demasiado, y leí en alguna parte que la famosa dedicatoria de su libro al Conde de Lemos fue escrita por un amigo de Cervantes o copiada de algún libro, ya que él mismo no estaba especialmente interesado en escribir esa clase de cosas. Cervantes fue admirado por su «buen estilo», y por supuesto las palabras «buen estilo» significan muchas cosas. Si pensamos que Cervantes nos transmitió el personaje y el destino del ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, tenemos que admitir su buen estilo, o, más bien, algo más que un buen estilo, porque cuando hablamos de buen estilo pensamos en algo meramente verbal.

Me pregunto cómo hizo Cervantes para lograr ese milagro, pero de algún modo lo logró. Y recuerdo ahora una de las cosas más notables que he leído, algo que me produjo tristeza. Stevenson dijo: «¿Qué es el personaje de un libro?». Y respondió: «Después de todo, un personaje es tan sólo una ristra de palabras».

Es cierto, y sin embargo, lo consideramos una blasfemia. Porque cuando pensamos, digamos, en Don Quijote o en Huckleberry Finn o en Peer Gynt o en Lord Jim, sin duda no pensamos en ristras de palabras. También podríamos decir que nuestros amigos están hechos de ristras de palabras y, por supuesto, de percepciones visuales. Cuando en la ficción nos encontramos con un verdadero personaje, sabemos que ese personaje existe más allá del mundo que lo creó. Sabemos que hay cientos de cosas que no conocemos, y que sin embargo existen. De hecho, hay personajes de ficción que cobran vida en una sola frase. Y tal vez no sepamos demasiadas cosas sobre ellos, pero, especialmente, lo sabemos todo. Por ejemplo, ese personaje creado por el gran contemporáneo de Cervantes. Shakespeare: Yorick; el pobre Yorick, es creado, diría, en unas pocas líneas. Cobra vida. No volvemos a saber nada de él, y sin embargo sentimos que lo conocemos. Y tal vez, después de leer Ulises, conocemos cientos de cosas, cientos de hechos, cientos de circunstancias acerca de Stephen Dedalus y de Leopold Bloom. Pero no los conocemos como a Don Quijote, de quien sabemos mucho menos.

Ahora voy al libro mismo. Podemos decir que es un conflicto entre los sueños y la realidad. Esta afirmación es, por supuesto, errónea, ya que no hay causa para que consideremos que un sueño es menos real que el contenido del diario de hoy o que las cosas registradas en el diario de hoy. No obstante, como debemos hablar de sueños y realidad, porque también podríamos, pensando en Goethe, hablar de Wahrheit und Dichtung, de verdad y poesía. Pero cuando Cervantes pensó escribir este libro, supongo que consideró la idea del conflicto entre los sueños y la realidad, entre las proezas consignadas en los romances que Don Quijote leyó y que fueron tomadas del Matière de Bretagne, del Matière France y demás y la monótona realidad de la vida española a principios del siglo XVII. Y encontramos este conflicto en el título mismo del libro. Creo que, tal vez, algunos traductores ingleses se han equivocado al traducir El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha como The ingenious knight: Don Quijote de la Mancha, porque las palabras «Knight» y «Don» son lo mismo. Yo diría tal vez «the ingenious country gentleman», y allí está el conflicto.

Pero, por supuesto, durante todo el libro, especialmente en la primera parte, el conflicto es muy brutal y obvio. Vemos a un caballero que vaga en sus empresas filantrópicas a través de los polvorientos caminos de España, siempre apelado y en apuros. Además de eso, encontramos muchos indicios de la misma idea. Porque por supuesto, Cervantes era un hombre demasiado sabio como para no saber que, aun cuando opusiera los sueños y la realidad, la realidad no era, digamos, la verdadera realidad, o la monótona realidad común. Era una realidad creada por él; es decir, la gente que representa la realidad en Don Quijote forma parte del sueño de Cervantes tanto como Don Quijote y sus infladas ideas de la caballerosidad, de defender a los inocentes y demás. Y a lo largo de todo el libro hay una suerte de mezcla de los sueños y la realidad.

Por ejemplo, se puede señalar un hecho, y me atrevo a decir que ha sido señalado con mucha frecuencia, ya que se han escrito tantas cosas sobre Don Quijote. Es el hecho de que, tal como la gente habla todo el tiempo del teatro en Hamlet, la gente habla todo el tiempo de libros en Don Quijote. Cuando el párroco y el barbero revisan la biblioteca de Don Quijote, descubrimos, para nuestro asombro, que uno de los libros ha sido escrito por Cervantes, y sentimos que en cualquier momento el barbero y el párroco pueden encontrarse con un volumen del mismo libro que estamos leyendo. En realidad eso es lo que pasa, tal vez lo recuerden, en ese otro espléndido sueño de la humanidad, el libro de Las mil y una noches. Pues en medio de la noche Scherezade empieza a contar distraídamente una historia y esa historia es la historia de Scherezade. Y podríamos seguir hasta el infinito. Por supuesto, esto se debe a, bueno, a un simple error del copista que vacila ante ese hecho, si Scherezade contando la historia de Scherezade es tan maravilloso como cualquier otro de los maravillosos cuentos de las Noches.

Además, también tenemos en Don Quijote el hecho de que muchas historias están entrelazadas. Al principio podemos pensar que se debe a que Cervantes puede haber pensado que sus lectores podrían cansarse de la compañía de Don Quijote y de Sancho y entonces trató de entretenerlos entrelazando otras historias. Pero yo creo que lo hizo por otra razón. Y esa otra razón sería que esas historias, la Novela del curioso impertinente, el cuento del cautivo y demás, son otras historias. Y por eso está esa relación de sueños y realidad, que es la esencia del libro. Por ejemplo, cuando el cautivo nos cuenta su cautiverio, habla de un compañero. Y ese compañero, se nos hace sentir, es finalmente nada menos que Miguel de Cervantes Saavedra, que escribió el libro. Así hay un personaje que es un sueño de Cervantes y que, a su vez, sueña con Cervantes y lo convierte en un sueño. Después, en la segunda parte del libro, descubrimos, para nuestro asombro, que los personajes han leído la primera parte y que también han leído la imitación del libro que ha escrito un rival. Y no escatiman juicios literarios y se ponen del lado de Cervantes. Así que es como si Cervantes estuviera todo el tiempo entrando y saliendo fugazmente de su propio libro y, por supuesto, debe haber disfrutado mucho de su juego.

Por supuesto, desde entonces otros escritores han jugado ese juego (permítanme que recuerde a Pirandello) y también una vez lo ha jugado uno de mis escritores favoritos, Henrik Ibsen. No sé si recordarán que al final del tercer acto de Peer Gynt hay un naufragio. Peer Gynt está a punto de ahogarse. Está por caer el telón. Y entonces Peer Gynt dice: «Después de todo, nada puede ocurrirme, porque, ¿cómo puedo morir al final del tercer acto?». Y encontramos un chiste similar en uno de los prólogos de Bernard Shaw. Dice que de nada le serviría a un novelista escribir «se le llenaron los ojos de lágrimas, pues vio que a su hijo sólo le quedaban unos pocos capítulos de vida». Y yo diría que fue Cervantes quien inventó este juego. Salvo que, por supuesto, nadie inventa nada, porque siempre hay algunos malditos antecesores que han inventado muchísimas cosas antes que nosotros.

Entonces tenemos en Don Quijote un doble carácter. Realidad y sueño. Pero al mismo tiempo Cervantes sabía que la realidad estaba hecha de la misma materia que los sueños. Es lo que debe haber sentido. Todos los hombres lo sienten en algún momento de su vida. Pero él se divirtió recordándonos que aquello que tomamos como pura realidad era también un sueño. Y así todo el libro es una suerte de sueño. Y al final sentimos que, después de todo también nosotros podemos ser un sueño.

Y hay otro hecho que me gustaría recordarles: cuando Cervantes habló de La Mancha, cuando habló de los caminos polvorientos, de las posadas de España a principios del siglo XVII, pensaba en ellas como cosas aburridas, como cosas muy ordinarias. Algo muy semejante sentía Sinclair Lewis al hablar de Main Street, y cosas así. Y sin embargo ahora palabras como La Mancha tienen una significación romántica porque Cervantes se burló de ellas.

Y hay otro hecho que me gustaría recordarles. Cervantes, como él mismo dijo dos o tres veces, quería que el mundo olvidara los romances de caballería que él acostumbraba leer. Y sin embargo si hoy se recuerdan nombres tales como Palmerín de Inglaterra, Tirant lo Blanc, Amadís de Gaula y otros, es porque Cervantes se burló de ellos. Y de algún modo esos nombres ahora son inmortales. Entonces uno no debe quejarse si la gente se ríe de nosotros, porque por lo que sabemos, esa gente puede inmortalizarnos con su risa.

Por supuesto, no creo que tengamos la suerte de que se ría de nosotros un hombre como Cervantes. Pero seamos optimistas y pensemos que podría ocurrir.

Y ahora llegamos a otra cosa. Algo que es tal vez tan importante como otros hechos que ya les he recordado. Bernard Shaw dijo que un escritor sólo podía tener tanto tiempo como el que le diera su poder de convicción. Y, en el caso de Don Quijote, creo que todos estamos seguros de conocerlo. Creo que no hay duda posible de nuestra convicción en cuanto a su realidad. Por supuesto, Coleridge escribió sobre una voluntaria suspensión del descreimiento. Ahora me gustaría entrar en detalles acerca de mi afirmación.

Creo que todos nosotros creemos en Alonso Quijano. Y, por raro que parezca, creemos en él desde el primer momento en que nos es presentado. Es decir, desde la primera página del primer capítulo. Y sin embargo, cuando Cervantes lo presentó ante nosotros, supongo que sabía muy poco de él. Cervantes debe haber sabido tan poco como nosotros. Debe haber pensado en él como héroe, o como el eje de una novela de humor, pero no se ve ningún intento de entrar en lo que podríamos llamar su psicología. Por ejemplo, si otro escritor hubiera tomado el tema de Alonso Quijano, o de cómo Alonso Quijano se volvió loco por leer demasiado, hubiera entrado en detalles acerca de su locura. Nos hubiera mostrado el lento oscurecimiento de su razón. Nos hubiera mostrado cómo todo empezó con una alucinación, cómo al principio jugó con la idea de ser un caballero errante, cómo por fin se lo tomó en serio, y tal vez todo eso no le hubiera servido de nada a ese escritor. Pero Cervantes meramente nos dice que se volvió loco. Y nosotros le creemos.

Ahora bien, ¿qué significa creer en Don Quijote? Supongo que significa creer en la realidad de su personaje, de su mente. Porque una cosa es creer en un personaje, y otra muy diferente es creer en la realidad de las cosas que le ocurrieron. En el caso de Shakespeare es muy claro. Supongo que todos creemos en el príncipe Hamlet, que todos creemos en Macbeth. Pero no estoy seguro de que las cosas ocurrieran tal como Shakespeare nos cuenta en la corte de Dinamarca, ni tampoco que creemos en las tres brujas de Macbeth.

En el caso de Don Quijote, estoy seguro de que creemos en su realidad. No estoy seguro -tal vez sea una blasfemia, pero después de todo, estamos hablando entre amigos, les estoy hablando a todos ustedes; es algo diferente, ¿no?, estoy hablando en confianza-, no estoy del todo seguro de que creo en Sancho como creo en Don Quijote. Pues a veces siento, que pienso en Sancho como un mero contraste de Don Quijote. Y después están los otros personajes. Me parece que creo en Sansón Carrasco, creo en el cura, en el barbero, tal vez en el duque, pero después de todo no tengo que pensar mucho en ellos, y cuando leo Don Quijote tengo una sensación extraña. Me pregunto si compartirán esta sensación conmigo. Cuando leo Don Quijote, siento que esas aventuras no están allí por sí mismas. Coleridge comentó que cuando leemos Don Quijote nunca nos preguntamos «¿y ahora qué sigue?», sino que nos preguntamos qué ocurrió antes, y que estamos más dispuestos a releer un capítulo que a continuar con uno nuevo.

¿Cuál es la causa? La causa, supongo, es que sentimos, al menos yo siento, que las aventuras de Don Quijote son meros adjetivos de Don Quijote. Es una argucia del autor para que conozcamos profundamente al personaje. Es por eso que libros como La ruta de Don Quijote, de Azorín, o la Vida de Don Quijote y Sancho de Unamuno, nos parecen de algún modo innecesarios. Porque toman las aventuras o la geografía de las historias demasiado en serio. Mientras que nosotros realmente creemos en Don Quijote y sabemos que el autor inventó las aventuras para que nosotros pudiéramos conocerlo mejor.

Y no sé si esto no es cierto con respecto a toda la literatura. No sé si podemos encontrar un solo libro, un buen libro, del que aceptemos el argumento aunque no aceptemos a los personajes. Creo que eso no ocurre nunca, creo que para aceptar un libro tenemos que aceptar a su personaje central. Y podemos pensar que estamos interesados en las aventuras, pero en realidad estamos más interesados en el héroe. Por ejemplo, aun en el caso de otro gran amigo nuestro -y le pido disculpas a él y ustedes por no haberlo mencionado-, Mr. Sherlock Holmes, no sé si creemos verdaderamente en El perro de los Baskerville. No lo creo, al menos yo creo en Sherlock Holmes, creo en el Dr. Watson, creo en esa amistad.

Y lo mismo ocurre con Don Quijote. Por ejemplo, cuando cuenta las extrañas cosas que vio en la cueva de Montesinos. Y sin embargo, yo siento que él es un personaje muy real. Las historias no tienen nada especial, no se ve ninguna ansiedad especial en la urdimbre que las une, pero son, en cierto sentido, como espejos, como espejos en los que podemos ver a Don Quijote. Y sin embargo, al final, cuando él vuelve, cuando vuelve a su pueblo natal para morir, sentimos lástima de él porque tenemos que creer en esa aventura. El siempre había sido un hombre valiente. Fue un hombre valiente cuando le dijo estas palabras al caballero enmascarado que lo derribó: «Dulcinea del Toboso es la dama más bella del mundo, y yo el más miserable de los caballeros». Y sin embargo, al final, descubrió que toda su vida había sido una ilusión, una necedad, y murió de la manera más triste del mundo, sabiendo que había estado equivocado.

Ahora llegamos a lo que tal vez sea la escena más grande de ese gran libro: la verdadera muerte de Alonso Quijano. Tal vez sea una lástima que sepamos tan poco de Alonso Quijano. Sólo nos es mostrado en una o dos páginas antes de que se vuelva loco. Y sin embargo, tal vez no sea una lástima, porque sentimos que sus amigos lo abandonaron. Y entonces también podemos amarlo. Y al final, cuando Alonso Quijano descubre que nunca ha sido Don Quijote, que Don Quijote es una mera ilusión, y que está por morirse, la tristeza nos arrasa, y también a Cervantes.

Cualquier otro escritor hubiera cedido a la tentación de escribir un «pasaje florido». Después de todo, debemos pensar que Don Quijote había acompañado a Cervantes muchos años. Y, cuando le llega el momento de morir, Cervantes debe haber sentido que se estaba despidiendo de un viejo y querido amigo. Y, si hubiera sido peor escritor, o tal vez si hubiera sentido menos pena por lo que estaba pasando, se hubiera lanzado a una «escritura florida».

Ahora estoy al borde de la blasfemia, pero creo que cuando Hamlet está por morir, creo que tendría que haber dicho algo mejor que «el resto es silencio». Porque eso me impresiona como escritura florida y bastante falsa. Amo a Shakespeare, lo amo tanto que puedo decir estas cosas de él y esperar que me perdone. Pero bien, también diré: Hamlet, «el resto es silencio»... no hay otro que pueda decir eso antes de morir. Después de todo, era un dandy y le encantaba lucirse.

Pero en el caso de Don Quijote, Cervantes se sintió tan sobrecogido por lo que estaba ocurriendo que escribió: «El cual entre suspiros y lágrimas de quienes lo rodeaban», y no recuerdo exactamente las palabras, pero el sentido es «dio el espíritu, quiero decir que se murió». Ahora bien, supongo que cuando Cervantes releyó esa oración debe haber sentido que no estaba a la altura de lo que se esperaba de él. Y sin embargo, también debe haber sentido que se había producido un gran milagro. De algún modo sentimos que Cervantes lo lamenta mucho, que Cervantes está tan triste como nosotros. Y por eso se le puede perdonar una oración imperfecta, una oración tentativa, una oración que en realidad no es imperfecta ni tentativa sino un resquicio a través del cual podemos ver lo que él sentía.

Ahora, si me hacen algunas preguntas trataré de responderlas. Siento que no he hecho justicia al tema, pero después de todo, estoy un poco conmovido. He vuelto a Austin después de seis años. Y tal vez ese sentimiento ha superado lo que siento por Cervantes y por Don Quijote. Creo que los hombres seguirán pensando en Don Quijote porque después de todo hay una cosa que no queremos olvidar: una cosa que nos da vida de tanto en tanto, y que tal vez nos la quita, y esa cosa es la felicidad. Y, a pesar de los muchos infortunios de Don Quijote, el libro nos da como sentimiento final la felicidad. Y sé que seguirá dándoles felicidad a los hombres. Y para repetir una frase trillada y famosa, pero por supuesto todas las expresiones famosas se vuelven trilladas: «Algo bello es una dicha eterna». Y de algún modo Don Quijote -más allá del hecho de que nos hemos puesto un poco mórbidos, de que todos hemos sido sentimentales con respecto a él- es esencialmente una causa de dicha. Siempre pienso que una de las cosas felices que me han ocurrido en la vida es haber conocido a Don Quijote.



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Papel Literario de El Nacional: Centenario de Borges
Papel literario de El Nacional, 1º de agosto de 1999
En 1968 Jorge Luis Borges pronunció, en inglés, esta conferencia sobre el Quijote en la Universidad de Texas, Austin. El texto fue recobrado recientemente por Julio Ortega y Richard Gordon e incluido en un número monográfico de la revista estadounidense Inti. Esta traducción, la primera que se hace al castellano, fue publicada por la revista española Letra Internacional. Papel Literario celebra el centenario del nacimiento de Borges con un número temático que incluye, además, un ensayo de Atanasio Alegre, una selección de retratos capturados por Enrique Hernández-D’Jesús, en 1982, y una secuencia fotográfica de Eduardo Comesario.





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BORGES



La música, los estados de felicidad, la mitología, las caras trabajadas por el tiempo, ciertos crepúsculos y ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder... esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético.

Jorge Luis Borges (1899-1986), La muralla y los libros, IN Otras Inquisiciones

SONNETS by William Shakespeare

SONNET XVIII
by William Shakespeare (1564-1616)


Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate.
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date.

Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimm'd;

But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou ow'st;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,

When in eternal lines to time thou grow'st:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.




Sonnet LXXVI

Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?

Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth and where they did proceed?

O, know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,

Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.

WILLIAM SHAKESPEARE (isso é lindo, se vc não entendeu procure a traduçao de Geraldo Carneiro em seu site www.geraldocarneiro.com, tão bela quanto

MARIO QUINTANA

eu gosto muito desse menino: MÁRIO QUINTANA






Entrevista de Mario Quintana no programa “As músicas que fizeram a sua cabeça”. Entrevistadora: Ivete Brandalise Data: 2 de janeiro de 1990 Rádio FM Cultura

Ivete – Ele nasceu no Alegrete e vive em Porto Alegre, felizmente. É o homem que escolhemos para iniciar este ano de 90. O grande poeta do Rio Grande do Sul. Nós vamos conhecer as músicas que fizeram a cabeça de Mario Quintana. Mario, este homem que faz poema, que faz música com suas palavras, que músicas que foram incorporadas ao seu patrimônio afetivo ?
Quintana – Eu não gosto de músicas só com açúcar. Eu não gosto de música de ópera.


Ivete – Por que não?
Quintana – Porque parece namoro de gato, não termina nunca e não deixa a gente dormir.

Ivete – Que músicas fazem a tua cabeça ?
Quintana – A 4ª sinfonia de Maler, pois ela é uma música angustiada e eu como todos neste fim-de-século estamos angustiados. Gosto também de Cânticos Peregrinos de Wagner e a Canção dos Barqueiros do Wolga.

Ivete – Tu falaste na angústia de Maler. Tu achas que a angústia de ajuda a criar ? Quintana – A angústia ajuda a criar porque um poema sempre se faz num estado de inquietação, que não deixa de ser angústia. Embora não seja uma angústia de desespero, mas uma angústia que traz esperança.

Ivete – Um poema é como uma gota d’água bebida no escuro?
Quintana – Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.

Ivete – Em termos de música, o que mais te impressiona na música ?
Quintana – É a força.

Ivete – E a música que tu fazes com as palavras ? Como tu classificas ?
Quintana – O pessoal sempre me tem como um poeta suave. Cheguei a ser chamado de anjo poeta. Eu tenho todos os sons, desde as coisas mais amorosas, as mais suaves até as coisas mais violentas. Eu tenho um poema por exemplo que começa assim: “Estou triste. Não dessa tristeza envergonhada dos que ao invés de se matarem, fazem poemas. Estou triste porque vocês são burros e feios, e não morrem nunca”.

Ivete – Foi feito para os imortais da Academia de Letras ?
Quintana – Não, eu simpatizo muito com os imortais da Academia de Letras. Me lembro quando eu fui pedir o voto para eles. Quase todos moravam em ipanema. Eram tão amáveis, pareciam uns garotos.

Ivete – E aquele garoto que morava em Alegrete e ajudava a aviar receitas médicas. Aquele garoto gostava de música ?
Quintana – Sim, gostava de música. Não havia TV, só rádio. Eu fui para Alegrete porque fui reprovado. E pára não repetir o ano, o meu pai (Celso) me disse: - Já que você não ser se formar, eu pra vagabundo não te quero. Vem trabalhar aqui comigo na farmácia”.

Ivete – Tu fazias poesia nesta época ?
Quintana – Desde que eu me entendia por gente, eu começava a escrever umas coisas que achava a ser poesia. O primeiro poema é sempre o mais belo do mundo, porque a sua descoberta no mundo da poesia é o seu encontro com a poesia.

Ivete – e estes primeiros poemas, estão guardados, foram editados ou estão perdidos? Quintana – Não, estão perdidos, espalhados. Sabe como é.

Ivete – Quando é que tu deixaste o balcão da farmácia e viste para Porto Alegre ? Quintana – Depois que o meu pai faleceu em 1928. Comecei e trabalhar no Estado do Rio Grande do Sul, dirigido por Raul Pilla.

Ivete – Foi fácil o começo ?
Quintana – Como o que eu gostava de fazer era escrever, não foi difícil. Minha profissão é jornalista. Poeta é o estado, assim como o estado de graça ou estado de coma, conforme o poeta.

Ivete – Onde é que surgia a poesia ?
Quintana – Quando a gente escreve um poema, a gente fica dentro de uma redoma de silêncio, por mais barulho que haja entorno.

Ivete – E o sucesso com as mulheres ?
Quintana – Ora, era uma coisa natural. As minhas namoradas sempre foram formidáveis. A bem amada era um pretexto para a poesia.

Ivete – Quais foram as tuas musas ?
Quintana – eu não posso dizer, se não vai dar dor de cotovelo nas outras.

Ivete – No jornal, tu sempre pode escrever o que queria ou tinha que seguir ordem do patrão ?
Quintana – Não, eu não seguia ordem de patrão. Por exemplo, lá no Estado do Rio Grande, eu botava título nas coisas, mas o pessoal gostava de botar o número exato de letras na manchete. Eu achava aquilo bobagem e não seguia esta norma. Eu fazia a coisa ao inverso. Nos títulos em 3 colunas, eu botava 12 sílabas, no segundo título decassílabo, no terceiro título, um setissílabo. Uma vez, Uma vez eu fiz um título que parecia um poema. Fiquei contentíssimo. O meu chefe Raul Pilla chegou lá e perguntou: - Quem foi que escreveu este título ? Eu me levantei muito (...) anjo e disse: - Fui eu Dr.Pilla. E ele disse: - Seu Mario o seu título está em pleno desacordo com a orientação dos jornais, o senhor precisa ler os meus editoriais. Aí eu disse para ele: - Mas eu escrevo aqui uma seção onde faço o resumo dos jornais do Rio, para que fazer o resumo do seu. Mas o Pilla era o patrão, ele disse aquilo de uma maneira jocosa (engraçada), se não ele podia me botar na rua.


Ivete – Mario, tu costumas escrever ouvindo música ou no silêncio ?
Quintana – Em qualquer parte. Não pára nunca de escrever. Preparo o diário poético. Já estou fazendo o diário poético de 1991.


Ivete – Que frase tem no diário poético de 1990 para o primeiro de janeiro ? Quintana – “O dia da mais antiga esperança do mundo”.


Ivete – O que mais tu estás fazendo ? Alguma coisa para editar neste ano de 90 ? Quintana – Vai ser editado uma tradução. Eu acho que vai sair em 91. Tenho livros traduzidos em inglês, chinês, russo, italiano, francês e para vários países da América Latina.


Ivete – Tu achas que as traduções tem respeitado a tua poesia ?
Quintana – Uma tradução é uma coisa muito difícil, tem que ser uma tradução literária.

Ivete – E a tua poesia está bem traduzida, para o francês por exemplo ?
Quintana – Vou dizer que está (risos).

Ivete - Como é que um poeta sobrevive ?
Quintana – Olha, eu tenho conseguido ganhar dinheiro com os meus livros e com a minha aposentadoria.

Ivete – Eu vou roubar um poema teu pra te fazer uma pergunta. Será que o Brasil é uma verdade que esqueceu de acontecer ?
Quintana – O Brasil é uma verdade que acontece e continuará acontecendo e sempre que não for interrompido por uma revolução.

Ivete – Você teve um contato muito estreito com grandes poetas brasileiros, Bandeira, Vinícius, Drummond. Que poeta te parece mais representativo da poesia brasileira, incluindo a Cecília.
Quintana – Eu acho que a Cecília Meireles é a maior poeta brasileira da primeira metade do século, porque para nós, para disfarçar um pudor de sentimentalismo, a gente se refugia no humor, e ela nunca. Ela sempre foi poeta puro.

Ivete – E a poesia que se faz na música. Neste momento, por exemplo, há quem considere o Chico Buarque um grande poeta. Tu entendes assim também ?
Quintana – O Chico é um bom poeta.

Ivete – O que te encanta no ser humano?
Quintana – É o simples fato de ser humano.

Ivete – E o que te desencanta no ser humano ?
Quintana – Quando ele é desumano (risos).


Ivete – Tu achas que a vida ainda é poesia ou está faltando poesia na vida ? Quintana – A poesia sempre existiu. Não pode deixar de existir a poesia. Enquanto há esperança, há vida. E a gente nunca perde a esperança.

Ivete – Tu achas que neste momento aqui no Brasil estamos fazendo poesia ? Boa ou má poesia ?
Quintana – Acho que estão fazendo uma coisa que não tem nada a ver com poesia. Estão fazendo prosa mal escrita.

Ivete – Mario, estamos chegando ao final deste programa. Alguma coisa que tu queiras acrescentar ?
Quintana – Estou muito contente com os meus 83 anos. Viajei bastante e felizmente a minha saúde está ótima graças a Deus.

Ivete – Mario, pensei que tu fosses acrescentar que tu me amas.
Quintana – Há, mas isto é uma coisa que está na cara.

Ivete – Mario, quando começamos este programa, tu disseste que não gostava de recordar. Por que?
Quintana – Porque dá saudade de mim mesmo.

Ivete - Nós vamos encerrar Mario com uma das músicas que fizeram a tua cabeça. Tu falaste em Milton Nascimento. O que te encanta no Milton, a música ou a letra ? Quintana – A voz.

Ivete – O que tu esperas deste ano de 90 ?
Quintana – Que termine da melhor maneira possível.


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Eu queria trazer-te uns versos muito lindos

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel...
Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo,
ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!

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O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

(Apontamentos de História Sobrenatural)


Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

(Esconderijos do Tempo)


Obsessão do mar oceano

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

(O Aprendiz de Feiticeiro)


Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

(Espelho Mágico)


Dos milagres

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

(Espelho Mágico)



Do amoroso esquecimento

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

(Espelho Mágico)

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.


Canção de barco e de olvido
(Para Augusto Meyer)

Não quero a negra desnuda.
Não quero o baú do morto.
Eu quero o mapa das nuvens
E um barco bem vagaroso.

Ai esquinas esquecidas...
Ai lampiões de fins de linha...
Quem me abana das antigas
Janelas de guilhotina?

Que eu vou passando e passando,
Como em busca de outros ares...
Sempre de barco passando,
Cantando os meus quintanares...

No mesmo instante olvidando
Tudo o de que te lembrares.


Evolução

O que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenha sido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser nosso futuro.

(Caderno H)


Eu escrevi um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

(A Cor do Invisível)


O auto-retrato

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!

(Apontamentos de História Sobrenatural)


A canção da vida

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

(Esconderijos do Tempo)


Os degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
(Baú de Espantos)


Ah! Os relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...
(A Cor do Invisível)



A grande surpresa

Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...
(Caderno H)


Da discrição

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
(Espelho Mágico)


Os arroios

Os arroios são rios guris...
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d'água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo...
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios...

(Baú de Espantos)



O pior

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

(Caderno H)




Libertação

A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal, estar deitado de sapato



Poeminha sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

(Preparativos de Viagem)




A vida

Mas se a vida é tão curta como dizes porque que é que me estás lendo até agora?




FONTE: IN http://www.estado.rs.gov.br/marioquintana/

rosa

O grande movimento é a volta.
(Guimarães Rosa, Nada e a nossa condição, in Primeiras histórias)

Antes falar bobagens do que calar besteiras.
(Guimarães Rosa, Partida do audaz navegante, Idem)

(Arthur Rimbaud, Une Saison en enfer/ Mauvais sang)

"Tu ne sais ni où tu vas ni pourquoi tu vas, entre partout, réponds à tout.
On ne te tuera pas plus que si tu étais cadavre."



"LA VIE EST LA FARCE À MENER PAR TOUS"

(Alfredo Bosi, História da Literatura brasileira)

O eu romântico, objetivamente incapaz de resolver os conflitos com a sociedade, lança-se a evasão. No tempo, recriando uma Idade Média gótica e embruxada. No espaço, fugindo para ermas paisagens de um Oriente exótico. A natureza romântica é expressiva, ao contrário da natureza árcade, decorativa. Ela significa e revela. Prefere-se à noite ao dia, pois à luz crua do sol o real impõe-se ao indivíduo, mas é na treva que latejam as forças inconscientes da alma: o sonho, a imaginação (...) Enfim com a música, a mais livre das artes, esperavam os românticos entregar-se ao fluxo infinito do Cosmos.
(Alfredo Bosi, História da Literatura brasileira)

(Paul Zumthor, Performance, recepção, leitura)

o som transmitido pelo disco atenua bastante o efeito da distância temporal e do abafamento sensorial. Entretanto, ele não passa de ilusão de presença; e, se procedemos a uma execução em salão, com cantor e músicos, é sobre os elementos não textuais da performance que se concentram as equivocidades: sentados em nossas cadeiras, aquilo que escutamos, mesmo com um vivo prazer, refere-se apenas de modo artificial ao passado medieval. Esse concerto constitui uma performance atual.

Guimarães Rosa, Seqüência, em Primeiras Histórias

Tudo,aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.
Guimarães Rosa, Seqüência, em Primeiras Histórias

(WILLIAM BUTLER YEATS )

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim Soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
(WILLIAM BUTLER YEATS )

(MIA COUTO)

ACONTECE QUE O MUNDO É SEMPRE GRÁVIDO DE IMENSO.
E OS HOMENS, MORADORES DE INFINITOS, NÃO TÊM OLHOS A MEDIR.
SEUS SONHOS VÃO À FRENTE DE SEUS PASSOS.
OS HOMENS NASCERAM PARA DESOBEDECER AOS MAPAS E
DESINVENTAR BÚSSOLAS. SUA VOCAÇÃO É A DE DESORDENAR PAISAGENS.
(MIA COUTO)

Machado de Assis, Ilustraçao Brasileira, 01 de julho de 1876

Passam os séculos, os homens, as repúblicas, as paixões; a história faz-se dia por dia, folha a folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se, modificam-se, transformam-se. Toda a superfície civilizada da terra
é um vasto renascer de coisas e idéias.”
Machado de Assis, Ilustraçao Brasileira, 01 de julho de 1876