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MENTIROSOS - Luís Fernando Veríssimo

MENTIROSOS
(Luíz Fernando Veríssimo)

Nas intermináveis conversas que têm no céu, Jorge Luis Borges, Vladimir Nabokov e Italo Calvino falam de Deus – contando que Ele não esteja por perto -- e todo mundo , e no outro dia falavam mal da sua própria espécie, a dos escritores. Segundo Calvino, os escritores são um péssimo exemplo para a juventude, pois são mentirosos que ganham com suas mentiras. Vivem de contar coisas que nunca aconteceram, ou versões fantasiosas do acontecido, e não apenas assinam o que escrevem como, no caso dos autógrafos, assinam mais de uma vez!

Borges acha que os únicos escritores honestos são os que usam pseudônimo, pois estes reconhecem sua falsidade e protegem suas famílias da sua reputação, mas Nabokov disse que achava bom os escritores se entreterem inventando histórias, pois só isto os impedia de exercerem sua verdadeira vocação, sua volúpia inconfessada, a de falsificar as obras que determinam a vida sobre a Terra, a vida verdadeira: dicionários, enciclopédias, constituições, manuais de instrução, bulas, pareceres... Para Nabokov, toda a obra de Shakespeare se explica pela sua frustração por não ter escrito a Bíblia.

Foi então que Borges confessou que durante toda sua vida sonhara em escrever um livro telefônico fictício. Inclusive, já tinha quase todo o livro na cabeça, de Aabilongo, Álvaro a Zoroastra, Matilde, e dava especial atenção à seção dos Besundres, uma família formada apenas de viúvas, dezessete viúvas que moravam todas no mesmo endereço, cada uma com seu telefone, embora só uma Besundres, vva. Iriago – tivesse o seu nome em negrito, o seu nome também de luto. A lista telefônica de Borges , embora fosse de uma Buenos Aires imaginária, tinha coisas como Bell, Alexander Graham (número do telefone: 1) e...

Mas os três se calaram quando chegou um anjo com o chá. Um poeta que morrera inédito, e que eles não queriam chocar.

(Tenho essa crônica de Veríssimo em um recorte amarelado do Jornal do Brasil que guardo desde um dia de domingo, 25 de novembro de 1990).

mia couto

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem nunca ter partido
para o norte aceso
no arremedo da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente


( em "Raiz de Orvalho e outros poemas")


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto
de 'Raiz de Orvalho e outros poemas'.

Agosto 1979
ÂNSIA - Mia Couto
Não me deixem tranqüilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos tivéssemos trocado
para morrer vivendo


Novembro, 1981


O verso...

O verso
une o verso,
universo em página única
de um só lado, sem verso.
A parte,
então, parte o colar
missanga entre palavras: nasce o particular.
Assim,
no bulir da vida,
o abolir da morte.

Com um físico... de Mia Couto
Com um físico destes
nem posso ser metafísico?

Com tanta treva
só quero que ela se atreva.
E me traga
um búzio para deitar o meu vazio
um baton para o astrolábio
uma semi-pedra preciosa
um clandestino destino, já sem clã


Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Raiz de Orvalho - Mia Couto
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


Árvore
cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo


In “Despedida”


Companheiros
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terem escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver

hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

Fundo do mar
Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço


In “Despedida”

Manhã
Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


In “Despedida”

Morte silenciosa
A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada


In “Despedida”

Nocturnamente

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


In “Despedida”

Palavra que desnudo
Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

Para ti
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida


In “Despedida”


Quissico
1.
Deixei o sol
na praia de Quissico

De bruços
sobre o Verão
eu deixei o Sol
na extensão do tempo

Molhando, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico

A terra
se via estar nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua


2.
Não o pássaro: era o céu
que voava

O ombro da terra
amparava o dia

A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
um minhas ocultas asas


In “Despedida”

Saudades
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono


In “Despedida”


Ser que nunca fui -
Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem nunca ter partido
para o norte aceso
no arremedo da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente


( em "Raiz de Orvalho e outros poemas")

ÂNSIA - Mia Couto
Não me deixem tranqüilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos tivéssemos trocado
para morrer vivendo


Novembro, 1981

minha ferida...
Minha ferida é só
estar vivo
Minha alegria
é o sono de uma nuvem


O verso... O verso
une o verso,
universo em página única
de um só lado, sem verso.
A parte,
então, parte o colar
missanga entre palavras: nasce o particular.
Assim,
no bulir da vida,
o abolir da morte.

Com um físico...

Com um físico destes
nem posso ser metafísico?

Com tanta treva
só quero que ela se atreva.
E me traga
um búzio para deitar o meu vazio
um baton para o astrolábio
uma semi-pedra preciosa
um clandestino destino, já sem clã

In “Despedida”

Manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


In “Despedida”

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Morte silenciosa

A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada


In “Despedida”

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Palavra que desnudo

Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

-----------------------------------------------------
Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida


In “Despedida”
-------------------------------------------------------------
Só a lava...
Só a lava
lava o vulcão
O uivo
é o cão
chorando a ausência de um cão.

--------------------------------------------------------
Sotaque da terra


Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol


In “Despedida”

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Trajecto

Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher


In “Despedida”
--------------------------------------------------------------------------
Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve


In “Despedida”

-------------------------------------------------------------------------
(Escre)ver-me


nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar


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Raiz de orvalho


Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


In “Despedida”

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Carlos Drummond de Andrade - O Mito

 


Sequer conheço fulana,
Vejo fulana tão curto
Fulana jamais me vê,
Mas como amo fulana.


Amarei mesmo fulana?
Ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
Da perna, talvez o ombro.

Amo fulana tão forte,
Amo fulana tão dor,
Que todo me despedaço
E choro,menino, choro


Mas fulana vai se rindo...
Vejam fulana dançando
No esporte ele está sozinha
No bar, quão acompanhada.

E fulana diz mistérios,
Diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
No entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos,
É dama de alta fidúcia,
Tem latifúndios, iates,
Sustenta cinco mil pobres,

Menos eu...que de orgulhoso
Me basto pensando nela
Pensando com unha, plasma,
Fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado,
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
Nem vi pela fechadura.

Mas sei quanto me custa
Manter esse gelo digno,
Essa indiferença gaia, e não gritar:
vem, fulana!

Como deixar de invadir
Sua casa de mil fechos
E sua veste arrancando
Mostrá-la depois ao povo

Tal como deve ser:
Branca, intata, neutra, rara,
Feita de pedera translúcida,
De ausência e ruivos ornatos.

Mas como será fulana,
Digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo,
O meu se punge...pois sim.

Porque preciso do corpo
Para mendigar fulana,
Rogar-lhe que pise em mim,
Que me maltrate...assim não.

Mas fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livros?
Será bicho? saberei?

Não saberei? só pegando,
Pedindo: dona, desculpe,
O seu vestido, esconde algo?
Tem coxas reais? cintura?

Fulana às vêzes existe
Demais: até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
Eis que fulana me roça.

Mas não quero nada disso.
Para que chatear fulana?
Pancada na sua nuca
Na minha que vai doer.

E daí não sou criança
Fulana estudo meu rosto
Coitado: de raça branca
Tadinho: tinha gravata

Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
As artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoara
Matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes
Couraçados, invasores.

Fulana é tão dinâmica
Tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
Seus beijos refrigerados,

Desinfetados, gravados
Em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário
Que fêz de fulana um mito
Nutrindo-me de petrarca,
Ronsard, camões e capim;

Que a sei embebida em leite,
Carne, tomate, ginástica
E lhe colo metafísicas,
Enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir
Outra fulana que não
Essa de burguês sorisso
E de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome: recorto-lhe
Um traje de transparência;
Já perde a carência humana
E bato-a; de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces
De meu sonho que especula;
E abolimos a cidade
Já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
Mar de hipóteses.a lua
Fica sendo nosso esquema
De um território mais justo.

E colocamos os dados
De um mundo sem classe e imposto;
E nesse mundo instalamos
Os nossos irmãos vingados:

E nessa fase gloriosa,
De contradições extintas,
Eu e fulana, abrasados,
Queremos...que mais queremos?

E digo a fulana: amiga,
Afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
Mas somos a mesma coisa

(uma coisa tão diversa
da que pensava que fossemos.)

FOTO DE ANDREA CARVALHO STARK, 2006

antologia drummond





Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.








As sem razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no elipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.



Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido

continua a doer eternamente.



MEMÓRIA
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Pneumotórax

Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
...............................................................................................................
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
(MANOEL BANDEIRA)

Um inédito de Julio Cortazar


Vou ter de te matar de novo.
Te matei tantas vezes, em Casablanca, em Lima, em Cristianía,
em Montparnasse, numa estância do partido de Lobos,
num prostíbulo, na cozinha, em cima de um pente,
no escritório, nesta almofada,
vou ter de ter matar de novo,
eu, com minha única vida.


Esse é Julio Cortazar no poema inédito "A mosca", publicado em "Papéis inesperados", 2009, depois da viúva oficial (gostei desse negócio de "viúva oficial") do escritor, falecido há 25 anos, ter aberto uma certa gavetinha com recortes de Cortazar. Bem, depois do poema sobre uma urgência de amor e morte, só podemos concluir uma coisa: o mais importante não é um bom casamento, mas sim, deixar uma boa viúva(o), por via das dúvidas... (rs)

Para mais saber: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/#190549

No topo Imagem de Kifrf Borodin

FRIDA



FRIDA

Todavía no entré
en la casa de Frida Kahlo,
con sus paredes azules
y su portón cerrado.

Era una tarde de fiesta
por Benito Juarez
y por el petróleo protegido
de las ásperas manos del norte.

Era el claro equinoccio
de primavera.

Yo no pude ver
la cocina de temperos
y temperamentos
de Frida Kahlo.

Tampoco pude ver
como se ama a un hombre
que ama lo que sus obras
significan.


No supe como podría
ser un almuerzo com Diego
un dicho profundo
sobre la condición humana.

Los mariachis son austeros
como la casa de Frida Kahlo
Donde la mujer de México
vivió con Diego Rivera.

Pero tienen esos mariachis
la melancolía que supone
la idea misma del amor.

No entré en la casa de Frida
aunque esté abierta
a esos perros humildes
de la fortuna, los turistas
de martes a domingo,
de las diez a las dieciocho
de la tarde.

Era un día de fiesta
por Benito y por el petróleo.

Y yo me consolé
en el lado de afuera de sus vidas.

Estamos siempre en el lado
de afuera de la vida de los outros
y nos detenemos a admirarlos.

No pude ver los andamios
de donde bajó
al negro profundo
de las tintas de la muerte.

Ella, tan acostumbrada
con los matizes serenos
de las acuarelas
y el rigor de la plomada.

Caíste , Diego,
y todos caen un día
del mismo andamio
de ellos mismos.

No entré en la casa de Frida Kahlo,
puesto que la cerraron
en el equinoccio de primavera
y nos dejaron afuera
como a los perros
de una catedral cerrada.

Yo sé que estoy
en el lado de afuera,
pero los perros apenas están
en este lado de afuera.

Es tarde, y ya no necesito entrar
me acostumbré con el calor azul
de los muros y con esta perspectiva
de ver lo que no me es dado a ver.

Invento, pues , la casa de Frida,
¿Y no es eso, acaso, lo que hacen
todos los hombres que inventan,
todo el tiempo, los deseos
que nos adentran?

Cuantos amores tuve
como esta casa
en la que no pude entrar.


He sufrido el peso universal
del deseo, por carnes
que no toqué, por voces
que no he oído, por diálogos
que imaginé.

Lo más de los amores
es inaugurarlos
para que los relojes
no se arrepientan
de marcar las horas
no vividas de la vida.

Me siento adulto
delante de la casa de Frida,
puesto que no soy el que sabe
estar afuera contemplando
la pesada mesa
en la cual Frida y Rivera
desenvainaron sus desayunos.

Lo importante no es entrar
en todas la casas, sino no estar
totalmente afuera de ellas.

Mejor esto que el pobre orfeo,
que no resistió a la tentación
de entrar en la casa de Frida Kahlo,
mismo cuando sus puertas
por supuesto estaban cerradas.

Jorge da Cunha Lima

Cantiga para não morrer


Cantiga para não morrer

         Quando você for se embora,
        
moça branca como a neve,
        
me leve. 

         Se acaso você não possa
        
me carregar pela mão,
        
menina branca de neve,
        
me leve no coração. 

         Se no coração não possa
        
por acaso me levar,
        
moça de sonho e de neve,
        
me leve no seu lembrar. 

         E se aí também não possa
        
por tanta coisa que leve
        
já viva em seu pensamento,
        
menina branca de neve,
         me leve no esquecimento.


POEMA DE FERREIRA GULLAR
imagem - salvador dali - diane de poitiers, 1973

Declaração de Amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Crônica publicada no livro "A Descoberta do Mundo", de Clarice Lispector

Declaração de Amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E este desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança da língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Crônica publicada no livro "A Descoberta do Mundo", de Clarice Lispector

Anna Akhmatova

INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE
Summer Reading: The poetry of Anna Akhmatova
Thursday, June 28, 2007



Today I have so much to do

I must kill memory once and for all

I must turn soul to stone

I must learn to live again

Unless...Summer's ardent rustling

Is like a festival outside my window.

For a long time I've foreseen this

Brilliant day, deserted house.

These words are from Anna Akhmatova's poem "The Sentence," translated from the Russian by Judith Hemschemeyer. Akhmatova was a remarkable woman whose deeply felt poems chronicled Stalin's Terror, World War II, and what is called the Thaw in Russia after Stalin's death. She also explored her own local fame, her fall from grace, and her international renown shortly before her death.

With poems far tighter and more powerful than any history, Akhmatova brings readers in with color, emotion, and confession.

When it comes to Russia, all expatriates - from the most fearless investors to the most knowledgeable scholars - are humbled. Most acknowledge that this ancient country nearly 20 years after the fall of Communism is a steep learning curve. No expat self-help text is worthy of this messy epic.

For those moving here, it might be suggested that the appropriate preparation is a lifetime of study. For most of us, it's too late for that. The next best thing is delving into the poems and life of Akhmatova, a confessional, romantic, provocative poet who gave a voice to millions of Russians in the 20th century. Her poem "The Sentence," part of her moving "Requiem," was finally published in 1989, 100 years after her birth.

Akhmatova's own "sentence" was to see her son, lovers and friends nearly destroyed by the Soviet authorities for their "anti-Soviet" natures. Her first husband, Nikolay Grumilyov, was executed. Her son Lev was imprisoned, and even a poem praising Stalin did not win his release. Her friends Boris Pasternak and Mikhail Bulgakov died after being tormented by the authorities; she eulogized them in her poems. She watched horrified as her prodigy Joseph Brodsky was arrested for "parasitism." Akhmatova herself lived like a vagabond, hand-to-mouth, in disgrace with the party, for many years.

Yet there is triumph to Akhmatova's own tragic story. Elaine Feinstein's book, "Anna of All the Russias," offers up a thoughtful portrait. Feinstein makes it clear that Akhmatova is iconic, "not of dissidence and resistance alone but as a poet of womanly feeling in a brutal world." In an introduction to her poems, Brodsky wrote: "They will survive because language is older than state and because prosody always survives history. In fact, it hardly needs history; all it needs is a poet, and Akhmatova was just that."

DUBITO ERGO SUM - Millor Fernandes sobre Dom Casmurro

DUBITO ERGO SUM
Machado de Assis
O OUTRO LADO DE DOM CASMURRO
Millôr Fernandes

Publicado em Veja, 26 de janeiro de 2005

Quando se fala cada vez mais de Machado de Assis, a pretexto do cinema,
permito-me, com o desrespeito que Deus me deu (inclusive em relação a Ele
próprio) falar do Bruxo. Como não sou dos maiores e nem mesmo dos menores
admiradores do fundador da Academia Brasileira de Letras ("a Glória que
fica, eleva, honra e consola", eu, hein?) não vou discutir a maciça,
impenetrável, inexpugnável web que se criou em torno dele. Nem polemizar com
a desconfiança que os maiores erúditos (com acento no ú, por favor) e
curiosos têm pra relação equívoca entre Capitu, a "dos olhos de ressaca"
(que Machado não explica se era ressaca do mar ou de um porre) e Escobar, o
mais íntimo amigo de Bentinho, narrador e personagem principal do livro.
Essa desconfiança vem desde 1900, quando Machado de Assis publicou Dom
Casmurro. Afinal Capitu deu ou não deu pro Escobar? Dom Casmurro é ou não é
corno, palavra cujo sentido de infâmia - ainda mantendo bastante de sua
força nesta época de total permissividade - na época de Machado era motivo
de crime passional, "justa defesa da honra", e outros desagravos permitidos
pela legislação e pelos costumes. A palavra corno era tão infamante que
mesmo o sangue não lavava honra nenhuma. O cara era corno e, lavasse ou não
lavasse o brio dos seus chifres com todos os sabões e explicações, o
universo dos olhares convergia, pelo menos ele assim sentia, pra sua
infamada testa.
Curioso que, ontem como hoje, o epíteto "corna" não se grudou às mulheres.
Ela é tola, idiota, "não sei como suporta isso!", "corneia ele também!", mas
o epíteto não colou. Mas Dom Casmurro sofre da dor específica umas 50
páginas do romance, envenenado pela hipótese da infidelidade da mulher.
Eu, porém, ao contrário dos erúditos, não tenho hipótese. Capitu deu pra
Escobar. O narrador da história, Bentinho/Machado, só não coloca até o DNA
de seu (do Escobar, claro) filho porque ainda não havia DNA, que atualmente
está acabando com o romance "policial" e a novela passional.
Mas Bentinho/Machado fica humilhado, desesperado mesmo, à proporção em que o
filho vai crescendo e mostrando olhos, mãos, gestos e tudo o mais do amigo,
agora morto. Bentinho chega a chamar Escobar de comborço (parceiro na cama
conjugal).
Essa é a intriga principal do livro. Mas, curiosamente, pela nossa eterna
pruderie intelectual, ainda ridiculamente forte com relação a outro tipo de
relação, a homo, nunca vi ninguém falar nada das intimidades entre Bentinho
e Escobar. É verdade que, na época, Oscar Wilde estava em cana por causa do
pecado "que não ousa dizer seu nome".
Mas, olhe, não estou afirmando nada. Leiam estes destaques (da edição da
Editora Nova Aguilar), que colhi no original, e julguem. Quem fala é
Bentinho/Machado:
(pág. 868)
Chamava-se Ezequiel de Souza Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um
pouco fugidios, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.
(mesma página)
Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do
quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os
lados, muita luz e ar puro... Não sei o que era a minha. Mas como as portas
não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as
e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou....
(pág. 876)
Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim. Os rapazes
também e Escobar mais que os rapazes e os padres.
(pág. 883)
Os olhos de Escobar eram dulcíssimos. A cara rapada mostrava uma pele alva e
lisa. A testa é que era um pouco baixa... mas tinha sempre a altura
necessária para não afrontar as outras feições, nem diminuir a graça delas.
Realmente era interessante de rosto, a boca fina e chocarreira, o nariz fino
e delgado.
(mesma página)
Fui levá-lo à porta... Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do
ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao
longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.
(mesma página)
Capitu viu (do alto da janela) as nossas despedidas tão rasgadas e
afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.
- É o Escobar, disse eu.
(pág. 887)
- Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui no seminário você
é a pessoa que mais me tem entrado no coração...
- Se eu dissesse a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perderia a graça...
Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro,
e creio que já notaram; mas eu não me importo com isso.
(pág. 899)
Durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas, como se
não me visse desde longos meses.
- Você janta comigo, Escobar?
- Vim para isto mesmo.
(pág. 900)
Caminhamos para o fundo. Passamos o lavadouro; ele parou um instante aí,
mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio;
lembra-me só que as achei engenhosas, e ri, ele riu também. A minha alegria
acordava a dele, e o céu estava tão azul, e o ar tão claro, que a natureza
parecia rir também conosco. São assim as boas horas deste mundo.
(pág. 901)
Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude
deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa
efusão: um padre que estava com eles não gostou...
(pág.902)
Escobar apertou-me a mão às escondidas, com tal força que ainda me doem os
dedos.
(pág. 913)
Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se
tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.
(pág. 914)
A amizade existe; esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar ao
ouvir-lhe isto, e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto;
estas vieram depois, de atropelo, afinadas pelo coração, que batia com
grande força.
(pág.925/26)
(Depois da morte de Escobar)
Era uma bela fotografia tirada um ano antes. (Escobar) estava de pé,
sobrecasaca abotoada, a mão esquerda no dorso de uma cadeira, a direita
metida no peito, o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Tinha garbo
e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória,
escrita embaixo, não nas costas do cartão: "Ao meu querido Bentinho o seu
querido Escobar 20-4-70".

Mas, pros que ainda tenham qualquer dúvida, reservei para o fim a moral da
história de Bentinho/Machado, a cena e a frase conclusivas. Está na página
845 do fúlgido romance. Bentinho, ele próprio, ficou pasmo com seu feito de
bravura, quando conseguiu dar um beijo (na verdade apenas uma bicota) em
Capitu. É ele próprio quem fala, cheio de entusiasmo, na página 845:

"De repente, sem querer, sem pensar, saiu-me da boca esta palavra de
orgulho: - Sou Homem!"

Em Millôr Online - enfim um escritor sem estilo!

LEOPARDI

E come il vento
odo stormir tra questa voce
vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
e le morte stagioni; e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare.
Giacomo Leopardi, L'Infinito
 

HOW DO I LOVE THEE?




How do I love thee?
Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with a passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, --- I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! --- and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


Elizabeth Barrett Browning,inglesa, 1806-1861 

Can it be right to give what I give?

IX. "Can it be right to give what I can give?..."
by Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)

Can it be right to give what I can give?
To let thee sit beneath the fall of tears
As salt as mine, and hear the sighing years
Re-sighing on my lips renunciative

Through those infrequent smiles which fail to live
For all thy adjurations? O my fears,
That this can scarce be right! We are not peers,
So to be lovers; and I own, and grieve,

That givers of such gifts as mine are, must
Be counted with the ungenerous. Out, alas!
I will not soil thy purple with my dust,

Nor breathe my poison on thy Venice-glass,
Nor give thee any love --- which were unjust.
Belovèd, I love only thee! let it pass.

GABRIELA MISTRAL

Cordeirinho

O mundo, que vale?

De mim não percebo

Mais que o colo farto

Com que te sustento.

De mim sei apenas

Que em mim te reclinas.

Tua festa, filho,

Toda festa exprime.

Gabriela Mistral

POEMA EM LINHA RETA

Álvaro de Campos
 
Poema em Linha Reta
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

 

DESABAFO DA MULHER MODERNA

 DESABAFO DE UMA MULHER MODERNA 
 
São 6h. O despertador canta de galo e eu não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede. Estou tão acabada, não queria ter que trabalhar hoje.
 
Quero ficar em casa, cozinhando, ouvindo música, cantarolando, até! Se tivesse cachorro,passearia com eles pelas redondezas. Aquário? Olhando os peixinhos nadarem. Espaço? Fazendo alongamento. Leite condensado? Brigadeiro. Tudo menos sair da cama, engatar uma primeira e colocar o cérebro pra funcionar. Gostaria de saber quem foi a mentecapta, a matriz das feministas que teve a infeliz idéia de reivindicar direitos da mulher e por que ela fez isso conosco, que nascemos depois dela.
 
Estava tudo tão bom no tempo das nossas avós, elas passavam o dia a bordar, a trocar receitas com as amigas, ensinando-se mutuamente segredos de molhos e temperos, de remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, colhendo legumes das hortas, educando crianças, frequentando saraus, a vida era um grande curso de artesanato, medicina alternativa e culinária.
 
Aí vem uma fulaninha qualquer que não gostava de sutiã tampouco de espartilho, e contamina várias outras rebeldes inconsequentes com idéias mirabolantes sobre "vamos conquistar o nosso espaço".
 
QUE ESPAÇO, MINHA FILHA !!!!!???
 
Você já tinha a casa inteira, o bairro todo, o mundo ao seus pés. Detinha o domínio completo sobre os homens, eles dependiam de você para comer, vestir, e se exibir para os amigos, que raio de direitos requerer?
Agora eles estão aí todos confusos, não sabem mais que papéis desempenhar na sociedade, fugindo de nós com o diabo da cruz!
 
Essa brincadeira de vocês acabou é nos enchendo de deveres, isso sim!
 
E, PIOR, nos largando no calabouço da solteirice aguda. Antigamente, os casamentos duravam para sempre. Por que, me digam por que, um sexo que tinha tudo do bom e do melhor, que só precisava ser frágil, foi se meter a competir com o macharedo?
Olha o tamanho do bíceps deles, e olha o tamanho do nosso. Tava na cara que isso não ia dar certo. Não aguento mais ser obrigada ao ritual diário de  fazer escova, maquiar, passar hidratantes, escolher que roupa vestir, que sapatos, acessórios, que perfume combina com meu humor, nem de ter que sair correndo, ficar engarrafada, correr risco de ser assaltada, de morrer atropelada, passar o dia ereta na frente do computador, com o telefone no ouvido, resolvendo problemas.
 
Somos fiscalizadas e cobradas por nós mesmas a estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, cheirosas, unhas feitas, sem falar no currículo impecável, recheado de mestrados, doutorados, e especialidades. Viramos "super-mulheres", mas continuamos a ganhar menos do que eles.
 
Não era muito melhor ter ficado fazendo tricô na cadeira de balanço?
 
Chega!!!
 
Eu quero alguém que abra a porta para eu passar, puxe a cadeira para eu sentar, me mande flores com cartões cheios de poesia, faça serenatas na minha janela.
 
- Ai, meu Deus, são 7h30, tenho que levantar! - e tem mais: que chegue do trabalho, sente no sofá, coloque os pés pra cima e diga "meu bem, me traz uma dose de whisky, por favor?", pois eu descobri que é muito melhor servir.
 
Ou pensam que eu tô ironizando? To falando sério!
 
Estou abdicando do meu posto de mulher moderna. Troco pelo de Amélia.
 
Alguém mais se habilita?
 
Antes eu sonhava, agora nem durmo mais.
 (sem autora)

HILDA HILST

Colada à tua boca a minha
desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.

Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
sôfrega

Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.