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A idéia de pálido.

A.,
 
Sua carta produziu em mim uma idéia. Uma idéia na alma. Na parte superior da alma como diz Platão. No pensamento. A idéia de pálido. A estrela que você me deu, a mais bonita que já passou na minha vida, é pálida. As suas palavras escritas em uma carta estranha, são pálidas. A memória que tenho de você, de sua pergunta, é como a estrela que você me deu, pálida. Pálido não é uma cor, não é uma nuance: um rosto pode ser pálido, uma voz pode ser pálida, um sonho pode ser pálido. Uma lembrança pode ser pálida. O pálido é uma espécie de quarta dimensão, que quando se acrescenta às coisas, faz com que estas se tornem belas. A sua carta é um primor; mais do que isto: a sua carta é pálida. E de hoje para sempre, quando olhar para o céu, verei a estrela que você me deu, a mais pálida das estrelas.
 
A., se nunca mais nos encontrarmos, ainda assim nos encontraremos, quando olharmos para o céu, para o céu pálido, que você inventou com a sua carta, e que me deu... o nosso céu. O céu pálido.
 
Com toda admiração, e dignidade, presto-lhe uma homenagem de pensador, ao modo do pensador, homenagem à mais pálida das idéias: A.
 
 
 
Texto de Claúdio Ulpiano em http://www.claudioulpiano.org.br
 

 

acordar é reacordar-se

 

 
acordar não é de dentro
acordar é ter saída
acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
 
João Cabral de Melo Neto

E se eu disser

E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
Ivan Junqueira ,"Poemas Reunidos", Editora Record, 1999

ROBERTO DAMATTA - sobre a inveja

Você tem inveja?

Roberto DaMatta

A inveja é um sentimento básico no Brasil. Está para nascer um brasileiro sem inveja. A coisa é tão forte que falamos em 'ter' - em vez de 'sentir' - inveja. Outros seres humanos e povos sentem inveja (um sentimento entre outros), mas nós somos por ela possuídos. Tomados pela conjunção perversa e humana de ódio e desgosto, promovidos justamente pelo sucesso alheio. Nosso problema é o sujeito do lado, rico e famoso, que esbanja reformando a casa, comprando automóveis importados e dando 'aquelas festas de tremendo mau gosto!'. Ou é o sujeito brilhante que - estamos convencidos - 'tira' (rouba, apaga, represa, impede) a nossa chance de fulgurar naquela região além do céu, pois residindo no nirvana social dos poderosos (mesmo quando são cínicos e fracos); dos ricos (mesmo quando pobres e sofredores); dos belos (mesmo quando são feios); dos famosos (mesmo quando são fruto promocional das revistas e jornais); e dos elegantes (mesmo quando são cafonas), estariam acima de todas as circunstâncias.
 
Estou seguro que não é o patriotismo mas a inveja, o sentimento básico de nossa vida coletiva. Para começar a gostar do Brasil, tínhamos que invejar a França, a Inglaterra, a Rússia, a Alemanha, a Itália e os Estados Unidos. Era, sem dúvida, a inveja que nos fazia torcer pela queda do Brasil no tal abismo de onde ele sairia melhor do que todo mundo. Antes do sexo, o brasileiro, tem inveja. Ela antecede a sensualidade e o erotismo, sendo básica na formação de nossa identidade pessoal. Você sabe quem é, leitor, pela inveja que sente todas as vezes que encontra o tal 'alguém' que, pela relação invejosa, te faz sentir um bosta: um 'ninguém'.
 
Como as nuvens em volta das montanhas, a inveja se adensa em torno de quem é visto como importante, de modo que, ser invejado, é equivalente a 'ter poder', 'charme', 'prestígio' e 'riqueza'. Dizem que a inveja é perigosa, mas o fato concreto é que não há brasileiro que não goste de ser invejado por alguma coisa. Pelo salário, pelo poder, pela beleza, pelo sucesso, pela inteligência e até mesmo pelas sacanagens, injustiças, calúnias, e descalabros que comete. Num seminário recente sobre 'Ética e Corrupção', eu disse que é justamente a vontade de ser invejado que descobre os corruptos. Pois diferentemente dos ladrões de outros países, que roubam e somem no mundo, os nossos são forçados pela 'lei relacional da inveja' a retornar ao lugar natal para mostrar aos seus parentes, amigos e, acima de tudo, inimigos, como estão ricos e, nisso, são denunciados, presos, soltos e finalmente colocados no panteão cada vez mais extenso dos canalhas nacionais. Dos infames que comprovam como a inveja e o desejo de ser invejado é o motor da vida brasileira.
 
Minha tese é a de que até a canalhice é invejada no Brasil. Richard Moneygrand, o grande brasilianista, escreveu no seu diário filosófico, Voyage Into Brazil que: 'Para os brasileiros, um dia sem inveja, é um dia sem luz. A inveja confirma a idéia nacional do sucesso para poucos, como antes confirmava o berço e o sangue para a aristocracia e a superioridade social para os funcionários públicos e senhores de engenho. Todos a condenam, mas ninguém pode passar sem ela.'
 
A inveja, digo eu, é o sinal mais forte de um sistema fechado, onde a autonomia individual é fraca e todos vivem balizando-se mutuamente. O controle pela intriga, boato, fofoca, fuxico e mexerico é a prova desse incessante comparar de condutas cujo objetivo não é igualar, mas hierarquizar, distinguir, pôr em gradação. O horror à competição, ao bom senso, à transparência e à mobilidade, é o outro lado dessa cultura onde ter sucesso é uma ilegitimidade, um descalabro e um delito.
 
O êxito demarca, eis o problema, um escapar da rede que liga todos com todos. Essa indesejável individualização tem mais legitimidade quando vem de quem já está estabelecido. Daí ser imperdoável que Fulano - 'aquela figurinha' - o faça, destacando-se pelo disco, novela, livro ou empreendimento desse mundo onde todos são pobres e miseráveis por definição e por culpa do 'social'. O pecado mortal das sociedades relacionais é justo essa individualização que separa o sujeito de uma rede hierárquica. Rede que nos persegue neste e no outro mundo.
 
Como, então, não sentir inveja do sucesso alheio, se estamos convencidos que o êxito é um ato de traição a um pertencer coletivo conformado e obediente. Como não sentir inveja se o exitoso é aquele que recusa ser o bom cabrito que não chama atenção e passa a ser o mais vistoso - esse símbolo de egoísmo e ambição? Ademais, como não ter inveja, se o sucesso é um sinal de pilhagem de um bem coletivo? Essa coletividade que, entra ano e sai ano, continua a ser percebida como mesquinha, subdesenvolvida, pobre e atrasada? Como um bolo pequeno e que jamais cresce, destinado a ser comido somente pelos que estão sentados à mesa?
 
 

ESTADO DE SP  31 outubro 2007
 
A crônica da inveja e a inveja da crônica
 

Roberto DaMatta
 

Ao escrever sobre a inveja, essa companheira do ciúme, do despeito, do ódio e do horror (como diz Lupicínio Rodrigues, em Nervos de Aço), eu não tinha idéia da reação que iria provocar. Somente me dei conta do peso do assunto quando recebi sugestões precisas de como escrever e que autores usar para discorrer sobre esse sentimento tão básico, quanto complexo, da experiência humana.
 
Como tudo o que se localiza na difícil arena do que, nós cristãos e cartesianos (que imaginamos ser, acima de tudo, sujeitos dotados de razão), chamamos de 'sentimentos', a inveja abre um oceano de questões, a começar pela própria definição do que é isso que chamamos de sentimentos, por oposição aos nossos interesses explícitos que seriam racionais e objetivos. O coração, dizia Pascal, tem razões que a razão desconhece. O mesmo ocorre com o corpo como uma usina de sentimentos egoístas e anti-sociais, como disseram muitos estudiosos. A alma seria motivada pela razão e sempre altruísta mas, como compensação, quem tudo realiza, para gozar ou sofrer, é o corpo!
 
Por exemplo. Um sujeito deseja intensamente uma mulher. Segue então, da conquista ao motel uma impecável linha de racionalidade: escreve bilhetes, envia flores, mente para a esposa, economiza dinheiro e enfeita-se. Mas no motel, diante do objeto de suas fantasias, confronta-se com uma inesperada ausência de libido: tem - apesar do impulso fremente - uma brutal e incorrigível inibição sexual. O choque, para quem passou pela experiência, é dramático. Se tudo no mundo é determinado pelo desejo individual, com sua diabólica clareza, se o sujeito, afinal sentia a flama inquestionável do desejo e tinha a mais absoluta certeza dele; se durante meses moveu Seca e Meca e equacionou meios e fins para concretizar o encontro erótico, de onde vinha essa indesejada incapacidade impeditiva do pecado que tanto queria perpetrar?
 
Para tornar ainda mais contundente essa questão, citemos o exato oposto. O caso do sujeito que sente uma atração irresistível pela pessoa errada: pela irmã ou cunhada. Mas sem nenhuma inibição realiza o desejo que se concretiza em incesto promovendo culpa, expiação, tragédia e, talvez, reparação. De onde vem esse impulso proibido e indesejável que configura, a uma só vez, pecado, tabu e crime?
 
Se estamos conscientes de nossa condição social, se sabemos quem somos e, se o mundo é mesmo tocado a interesses que chegam límpidos ao consciente, de onde vêm as emoções que não combinam com tais projetos de comportamento?
 
Se a sociedade teme a inveja e o ciúme que seriam por definição destrutivos ou anti-sociais, como dizia, por exemplo, o eminente antropólogo George Foster, que escreveu um ensaio importante sobre o tema, por que eles surgem na consciência social de modo tão intenso e de forma tão exemplar?
 
Seria a inveja (e os sentimentos em geral) os motivadores das instituições sociais que serviriam para moldá-los e resolvê-los; ou seria o exato oposto: as instituições - leis, regras, proibições, mandamentos, rituais e prescrições em geral - é que engendrariam esses sentimentos indesejáveis que delas escapam como as faltas e os pênaltis nos jogos de futebol?
 
Muitos dos que comentaram minha crônica supõem que a inveja é um sentimento inato e natural, pronto a ocorrer onde quer que existam seres humanos. Deste ponto de vista, o cronista que aborda a inveja como sendo dependente da sociedade, não apenas incorria em erro, mas produzia uma matéria incompleta. Se eles, os leitores, escrevessem sobre tal assunto, o ponto de partida seria certamente diverso.
 
De fato, conheço pessoas que não cessam de me indicar temas e pessoas sobre os quais eu deveria escrever. Os mais impacientes chegam mesmo a dizer que eu deveria 'meter o pau', insinuando que tenho sido leniente (ou covarde) com o momento em que vivemos. Outros, porém, me perguntam - como fez um ex-aluno, ex-revolucionário das festivas utopias hoje em crise, filhinho de papai e companheiro zeloso em acusar quem fica na coluna 'do bem' ou 'do mal' - por que eu escrevo coisas tão 'reacionárias'.
 
Falando de inveja, eu não poderia deixar de repensar essas memórias da crônica, ao vivo e em cores, dizendo primeiramente aos leitores que, como todo ser humano, o escritor não faz o que quer, mas o que pode. A diferença entre querer e poder inventa o abismo que permite aproximar ou tornar distante o que ocorre conosco e, por projeção, com os outros.
 
Pena que cada qual não possa ser simultaneamente leitor e cronista. Uma situação - aliás - que, fica a sugestão, pode ser corrigida pelos jornais que se dispusessem a selecionar e publicar as crônicas do jornalista e escritor latente (e infelizmente, às vezes, desconhecido) que jaz dentro de cada um de nós. Aí o leitor veria como é fácil sugerir e falar de temas bons para 'cronicar' e como é duro realizá-los em letra de forma, tirando-os daquela zona maravilhosa da possibilidade e do sentimento que faz da inveja algo concreto e altamente produtivo.

A Birthday Present, a POEM BY SYLVIA PLATH

 
What is this, behind this veil, is it ugly, is it beautiful?
It is shimmering, has it breasts, has it edges?
 
I am sure it is unique, I am sure it is what I want.
When I am quiet at my cooking I feel it looking, I feel it thinking
 
'Is this the one I am too appear for,
Is this the elect one, the one with black eye-pits and a scar?
 
Measuring the flour, cutting off the surplus,
Adhering to rules, to rules, to rules.
 
Is this the one for the annunciation?
My god, what a laugh!'
 
But it shimmers, it does not stop, and I think it wants me.
I would not mind if it were bones, or a pearl button.
 
I do not want much of a present, anyway, this year.
After all I am alive only by accident.
 
I would have killed myself gladly that time any possible way.
Now there are these veils, shimmering like curtains,
 
The diaphanous satins of a January window
White as babies' bedding and glittering with dead breath. O ivory!
 
It must be a tusk there, a ghost column.
Can you not see I do not mind what it is.
 
Can you not give it to me?
Do not be ashamed—I do not mind if it is small.
 
Do not be mean, I am ready for enormity.
Let us sit down to it, one on either side, admiring the gleam,
 
The glaze, the mirrory variety of it.
Let us eat our last supper at it, like a hospital plate.
 
I know why you will not give it to me,
You are terrified
 
The world will go up in a shriek, and your head with it,
Bossed, brazen, an antique shield,
 
A marvel to your great-grandchildren.
Do not be afraid, it is not so.
 
I will only take it and go aside quietly.
You will not even hear me opening it, no paper crackle,
 
No falling ribbons, no scream at the end.
I do not think you credit me with this discretion.
 
If you only knew how the veils were killing my days.
To you they are only transparencies, clear air.
 
But my god, the clouds are like cotton.
Armies of them. They are carbon monoxide.
 
Sweetly, sweetly I breathe in,
Filling my veins with invisibles, with the million
 
Probable motes that tick the years off my life.
You are silver-suited for the occasion. O adding machine——-
 
Is it impossible for you to let something go and have it go whole?
Must you stamp each piece purple,
 
Must you kill what you can?
There is one thing I want today, and only you can give it to me.
 
It stands at my window, big as the sky.
It breathes from my sheets, the cold dead center
 
Where split lives congeal and stiffen to history.
Let it not come by the mail, finger by finger.
 
Let it not come by word of mouth, I should be sixty
By the time the whole of it was delivered, and to numb to use it.
 
Only let down the veil, the veil, the veil.
If it were death
 
I would admire the deep gravity of it, its timeless eyes.
I would know you were serious.
 
There would be a nobility then, there would be a birthday.
And the knife not carve, but enter
 
Pure and clean as the cry of a baby,
And the universe slide from my side.
 
 
 

AS COISAS QUE A LITERATURA PODE BUSCAR E ENSINAR SÃO POUCAS, MAS INSUBSTITUÍVEIS : A MANEIRA DE OLHAR O PRÓXIMO E A SI PRÓPRIOS, DE RELACIONAR ATOS PESSOAIS E FATOS GERAIS, DE ATRIBUIR VALOR A PEQUENAS COISAS OU A GRANDES, DE CONSIDERAR OS PRÓPRIOS LIMITES E VÍCIOS E OS DOS OUTROS, DE ENCONTRAR AS PROPORÇÕES DA VIDA E O LUGAR DO AMOR NELA, E SUA FORÇA E SEU RITMO, E O LUGAR DA MORTE, O MODO DE PENSAR OU DE NÃO PENSAR NELA;
 
A LITERATURA PODE ENSINAR A DUREZA, A PIEDADE, A TRISTEZA, A IRONIA, O HUMOR E MUITAS OUTRAS COISAS ASSIM NECESSÁRIAS E DIFÍCEIS.
 
O RESTO, QUE SE VÁ APRENDER EM ALGUM OUTRO LUGAR, DA CIÊNCIA, DA HISTÓRIA , DA VIDA COMO NÓS TODOS TEMOS DE IR APRENDER CONTINUAMENTE.
 
 
ITALO CALVINO NO ENSAIO "O MIOLO DO LEÃO" IN ASSUNTO ENCERRADO - DISCURSOS SOBRE LITERATURA E SOCIEDADE, CIA DAS LETRAS, 2009, P 21.   
 
IMAGEM  Manuscrito de Clarice Lispector

martírio

Beijar-te a fronte linda

Beijar-te o aspecto altivo

Beijar-te a tez morena

Beijar-te o rir lascivo



Beijar o ar que aspiras

Beijar o pó que pisas

Beijar a voz que soltas

Beijar a luz que visas



Sentir teus modos frios,

Sentir tua apatia,

Sentir até répúdio,

Sentir essa ironia,



Sentir que me resguardas,

Sentir que me arreceias,

Sentir que me repugnas,

Sentir que até me odeias,



Eis a descrença e a crença,

Eis o absinto e a flor,

Eis o amor e o ódio,

Eis o prazer e a dor!



Eis o estertor de morte,

Eis o martírio eterno,

Eis o ranger dos dentes,

Eis o penar do inferno!

(Junqueira Freire)

A bunda, que engraçada.



A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
                    A bunda é a bunda
                    redunda.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


IMAGEM: Foto que tirei de bundas horrorosas na praia da Urca, RJ,

TEXTO DE Luiza Jorge - PRODUÇÃO CULTURAL

Textos e Reflexões

Luiza Jorge - Revista 3º Fenatib

PRODUÇÃO TEATRAL

 

Revista

O que eu tenho para escrever sobre Produção Teatral são experiências conquistadas no exercício diário, na minha própria vivência como artista. A necessidade em viabilizar meus projetos e os meus espetáculos, fizeram com que eu descobrisse o caminho das pedras em direção à Produção, um caminho que na maioria das vezes as pessoas não gostam de seguir, pois consideram a produção um trabalho cansativo e complicado. Mas não vejo outra saída, a presença do mecenas que contrata o artista financiando o espetáculo e cuidando de tudo, está cada vez mais distante. Hoje, que quiser fazer teatro, tem que fazer a sua própria produção.

Cada vez mais, nós estamos sendo responsáveis pelo levantamento de um espetáculo. Elaborando projetos, fazendo captação de recursos, negociando com empresas, órgãos públicos e com os meios de comunicação. A produção bem elaborada está se tornando a base principal de um projeto, o alicerce que dá estrutura financeira para a realização do espetáculo.

Mesmo assim, iniciar uma produção hoje, está sendo um ato de resistência. Quem conseguir passar por todas as provas de captação de recursos, leis, patrocínios, apoios, etc, etc... e conseguir chegar até a estréia, é um vencedor.

E não pára por aí...a seguir vem a 2ª etapa, que é conquistar e manter o público que está cada vez mais escasso por conta das dificuldades financeiras e também pelo número crescente de opções de lazer principalmente dentro de casa. Opções baratas que divertem a família inteira, como fitas de vídeo, tv a cabo com montes de seriados, desenhos e mais os jogos interativos e a internet, que traz um mundo de atrações prendendo as pessoas durante horas diante do computador, principalmente aos finais de semana, onde o custo é reduzido.

É uma infinidade de apelos incentivando as pessoas a permanecerem muito mais tempo dentro de casa. Com muita oferta e pouco recurso financeiro, o público acaba ficando bem mais seletivo em suas escolhas. Este comportamento já está refletindo em nossas platéias. Precisamos ficar atentos e perceber que além de enfrentar uma maratona para conseguir levantar uma produção e fazer um espetáculo de qualidade, vamos ter que ser criativos ao máximo para estimular o público, a escolher o teatro, entre as inúmeras atrações que o mercado de entretenimento oferece, dentro e fora de casa.

Este mercado está evoluindo rapidamente e é altamente competitivo atuando em várias áreas. Um exemplo são os Parques Temáticos, que já é possível perceber, vai ser a grande tendência dos próximos anos. Estes parques, além de trazer brinquedos de impacto, promovem diversas atividades artísticas como shows, performances, espetáculos de dança e de teatro oferecendo diversão para a família inteira.

De um lado esses empreendimentos abrem campo de trabalho para a nossa área, mas por outro, estes Parques visam atingir o mesmo público que nós buscamos.

Diante deste quadro, vamos ter que investir em nossos projetos com uma postura cada vez mais profissional. O artista tem que mudar a tendência de sair com seu projeto na mão, como se fosse um pires, pedindo ajuda para montar seu espetáculo. Teatro é o nosso trabalho. Um projeto ou a montagem de um espetáculo é o fruto de meses e anos de pesquisa, de investimento. Nós temos que tirar deste trabalho o melhor e dar continuidade à ele, Evoluindo.

Não adianta montar um espetáculo hoje e só daqui há dois ou três anos conseguir fazer outro, quando se consegue... nós temos que criar condições para dar seguimento ao que estamos idealizando como profissionais, como qualquer outro profissional de outra área dá seguimento à sua carreira.

A nossa profissão é fazer teatro, esta é a nossa atividade, nosso ramo de negócio. E o fazer teatral é um excelente negócio.

As empresas estão começando a descobrir as vantagens de investir em arte, de investir em cultura. Este investimento, principalmente em atividades ligadas ao teatro infantil e juvenil traz um retorno muito favorável de imagem, demonstrando um interesse social e educacional na formação das crianças e dos jovens, valorizando assim, a imagem do patrocinador diante da mídia e da sociedade. Isso é muito positivo para a empresa.

Mas aí chegamos nós, com os nossos projetinhos, humildemente pedindo uma verba de ajuda, sem dar atenção à dimensão favorável que significa para a marca da empresa, do investidor, estar ligada ao nosso projeto.

Hoje, o profissional de teatro, não pode ficar se preocupando apenas com o resultado artístico e ter com o planejamento do seu projeto, do seu espetáculo, uma postura amadora. O profissional é aquele que valoriza o seu trabalho e sabe o seu preço diante do patrocinador. Sabe quando ele custa no sentido educacional, social, cultural e artístico.

O teatro abrange todos estes setores, mas geralmente o artista faz o seu preço avaliando somente o custo da produção. E o que vem além disso? Tem que partir do artista ampliar esta visão para si mesmo e expor ao patrocinador o alcance que o seu projeto, o seu espetáculo pode atingir e favorecer a imagem da empresa. É um excelente negócio que o artista tem a oferecer e deve ir em busca de sócios, de parceiros. É uma relação de igual para igual. Não tem que pedir, tem que negociar.

A verba de patrocínio tem que ser vista como uma negociação, uma sociedade que se propõe ao patrocinador. As duas partes tem que sair ganhando, o artista e o investidor.

Ë puro negócio, não é obra de caridade

Com o tempo vamos aprendendo como se faz isso, desde a formação do projeto, até as negociações. O projeto tem que ser claro, competente, especificando dados que façam a empresa se interessar em investir. Este projeto vai levar a imagem do patrocinador ao público, à mídia. O patrocinador precisa estar associado de alguma maneira à temática do espetáculo.

É importante o artista relacionar patrocinadores que tenham o perfil do seu espetáculo, não adianta fazer um monte de pastinhas com projetos iguais e sair distribuindo por aí. Cada empresa tem um perfil, o indicado seria elaborar um projeto especial para cada patrocinador.

É bom lembrar que, em algumas ocasiões, este projeto vai estar disputando uma verba de patrocínio voltada para a área de comunicação. Ele vai ser avaliado com projetos voltados para o cinema, vídeo, música, arte plásticas e uma infinidade de outros veículos existentes nesse setor, senso assim, aumenta a necessidade de se elaborar um projeto personalizado que se mostre atraente o investidor.

O que interessa ao patrocinador é investir em projetos competentes, que possibilitem algum tipo de retorno como: exposição da sua marca na mídia, reconhecimento da sociedade e do público em geral. Visibilidade e retorno de vendas ou imagem institucional.

Mesmo que o espetáculo tenha um porte menor, alternativo ou não interesse ao artista entrar em nenhuma disputa de mercado, mesmo assim, é preciso estar atento ao planejamento de produção para não investir em gastos desnecessários e conseguir um resultado positivo, mostrando seu trabalho ao público com qualidade e profissionalismo.

Se a captação de recursos significar apenas conseguir alguns metros de tecidos na lojinhas do "Seu Mané", esta negociação já diz respeito à produção e "Seu Mané" deve ficar sabendo que não está ajudando e sim investindo com o nome da sua loja na realização de um espetáculo. "Seu Mane" é um patrocinador e deve toda atenção que uma grande empresa receberia.

Durante uma produção, seja ela de que porte for, existe uma série de mecanismos de negociações que só se aprende na prática, no dia-a-dia, conforme vão surgindo as situações, não tem escola. A necessidade tem que bater na porta e jogar a gente na roda. É só com a vivência e usando a intuição que vamos nos aperfeiçoando nesta arte de criar recursos e levantar uma produção com qualidade, deixando todos os envolvidos satisfeitos: público, artistas e patrocinadores.

Com o tempo a gente vai se habituando às negociações e aprendendo a lidar com este universo empresarial. É um a outra linguagem, uma outra postura nas negociações, bem diferente da postura artística. O patrocinador é racional. O produtor precisa saber transitar muito bem nesta ponte delicada, que tem de um lado a razão do artista, na ótica da sua criação e do outro, a razão do patrocinador na sua ótica de números e visibilidade pública. Saber juntar essas duas expectativas, fazendo disso um bom negócio para os dois lados, é o sucesso de uma produção, que não significa o sucesso do espetáculo.

Graças a Deus, nós artistas, não trabalhamos com fórmulas e ainda somos livres pra criar, acertar e errar. E é pelo direito de ampliar estas oportunidades que nós precisamos nos especializar em nossas produções, abrindo espaço para podermos experimentar, errar e acertar cada vez mais.

Quero dizer aqui os meus parabéns a Teresinha Heimann e toda sua equipe pela primorosa atenção e produção do 3º Festival Nacional de Teatro Infantil de Blumenau. Saí feliz. Revi amigos antigos e fiz novos amigos que pretendo encontrar em futuras empreitadas de experiências, erros e acertos.

Luiza Jorge

Atriz e Produtora teatral em São Paulo.

why do I love BYRON?



She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens over her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.


And on that cheek, and over that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!




Lord Byron



Image: andrea carvalho stark, flamengo, rio de janeiro

GUARDAR - um conto de Victor Paes



Guardar

Naquele momento havia para Túlio dois horários. O primeiro deles cumpria em uma sala de persianas, dentro de um arquivo onde só uma das mãos folheava, a outra atravessada em um caco de vidro. A mulher perguntou sobre aquele lenço e ele mentiu a mão. O outro horário cumpria, ao mesmo tempo, em outra sala, do outro lado da rua, onde a mão continuava a folhear, embora pouco houvesse para folhear, apenas um envelope de onde não saiu nada que lhe desviasse a atenção de mais um outro horário. Nesse horário a mão ferida era a outra.

Em ambos os horários não havia almoçado nem tomado um banho nas últimas quarenta e oito horas.

Um terceiro horário: após tantos anos de informações quase apenas bibliográficas sobre o historiador pesquisado, havia agora recebido da própria família, em seu bicentenário, acesso a um material pessoal que até agora estava guardado apenas em boatos. Então, tomaram chá, com perguntas e apertos de mão. Ele não sabia às vezes qual das mãos oferecer.
– Túlio, por favor, só não faça missa de minha família...

"Missa" para Madame Haendel era qualquer tipo de "atenção controlada". Nesse caso, se referia ao suicídio de Maurice e principalmente a seus motivos. Ela o queria confortável entre carreira, família, viagens e que até se mencionasse algumas de suas péssimas fixações... Mas que ninguém comprasse uma letra por isso. O desenho a nanquim estava em um envelope preto e ele já o abria.
Outro horário: subitamente, invadia uma varanda, desmontava uma porta, talvez um museu. Lá dentro, tanta escuridão, preferia mais açúcar no chá.

Desistiu de abrir o envelope, pois se frustraria com o último esclarecimento dessa pesquisa, mais do que com o primeiro: O primeiro, em palavras de Maurice:"O estudioso deve estar distraído sempre, a cada vez que algo lhe exija a atenção. Porém, deve estar também sempre um degrau abaixo de todo solo (e o rosto que lhe olhem seja somente um vulto do seu) para que possa ver sem ser visto. Esta deve ser uma metáfora de sua insônia."

Tanta distração, que Maurice acabou por começar a conversar com pessoas imaginárias. E deu a elas tanta atenção, que começou a estudá-las. O que mais o fascinava era o fato de saber sempre que eram imaginárias e, ainda assim, nunca lhes negar sua simpatia. Pela manhã, cumprimentava-as antes do café.

Um quinto horário: Túlio lê em uma cafeteria, roubando para si a autoria, um poema de Maurice, que nem escreveu poemas:
"Balaústre de nuvens
Teu céu, teto de cair
Sobre minha testa antes
Que tuas sombras me cubram
Desse abismo de que és feito"
Dentro do museu, Túlio tateou o escuro, esculturas negras, armas e móveis negros, telas negras. Até que acendesse a lanterna.

As luzes se apagaram, e ele, com o papel na mão, foi aplaudido.

Mesmo na claridade o envelope era negro. Decidiu abri-lo em sua sala. Se tivesse uma, faria isso.

Na sala, decidiu de novo abrir o envelope.

Em sua casa, Maurice estava em cada gaveta, mesa ou folha no chão.

Em sua casa, Maurice escrevia melhor, rodeado e ouvindo suas próprias personagens (como ele
as queria chamar).
"Contam-me sobre si, agradáveis de si, embora circunspectas em algumas palavras. Jamais me estorvam quando não são o objeto da pesquisa. Quando me volto para o passado, não me seguem... recolhem-se nas sutilezas desse presente e já estão de novo ocultas."

Maurice publicou dois volumes sobre elas: um sobre suas histórias (aceito como ficção) e o outro sob o respaldo de um estudo de seres elementais, nos quais acreditava ainda menos. Um terceiro volume levou consigo ao saltar do penhasco. Trecho encontrado em seus guardados, segundo se acredita, pertencente a esse volume:
"... pois ele me foi especialmente caro. Seus gestos deixaram de ser confundidos com as linhas dos objetos de minha sala, como era o costume com os outros, e agora pareciam movimentos destes próprios objetos. Em pouco tempo me vi defendendo-me de braços de cadeiras. Há nele uma fúria material, como se estivesse negando-lhe minha atenção por eu estar à vontade em minha própria casa. Todos nos sentimos hostilizados e alguns quase mais não falam. Culpo-me por lhe ter feito crer que sou abnegado. Pois não sou. Às vezes quase me esqueço de que ele não existe..."

Outro trecho, de alguns meses depois:
"... e não existe... no entanto, a cada segundo me adivinha o que farei no próximo segundo... me grita o porvir e já não sei o quanto desse porvir veio realmente... a pouca saúde que me estava aceitavelmente pendendo por essa matemática de absurdos já não tem mais qualquer sustento... não há mais matemática... ele agora quase quer existir... assombramo-nos mutuamente..."

Maurice fez missa de si um dia depois.

No palco, um amigo de Túlio recita:
"Túlio tirou o caco de vidro
da mão o mais rápido
que não pudesse
ver"

Túlio abre o envelope. O desenho a nanquim tem a assinatura de Maurice Haendel. Atrás da folha, o nome do desenho: "Túlio em minha cadeira".
Imagem Nude over the bed, Thomas Kelly

este mundo é um baile de casacas alugadas

Sim, considerei a vida, remontei os anos, vim por eles abaixo, remirei o espetáculo do mundo, o visto e o contado, cotejei tantas coisas diversas, evoquei tantas imagens complicadas, combinei a memória com a história, e disse comigo: - Certamente, este mundo é um baile de casacas alugadas.

Machado de Assis, "A Semana", 11 de junho de 1893

Unhappy? Self-critical? Maybe you're just a perfectionist By Benedict Carey

HERALD TRIBUNE
Unhappy? Self-critical? Maybe you're just a perfectionist
By Benedict Carey

Tuesday, December 4, 2007


Just about any sports movie, airport paperback or motivational tape delivers a few boilerplate rules for success. Believe in yourself. Don't take no for an answer. Never quit. Don't accept second best.
Above all, be true to yourself.
It's hard to argue with those maxims. They seem self-evident — if not written into the Constitution, then at least part of the cultural water supply that irrigates everything from halftime speeches to corporate lectures to SAT coaching classes.
Yet several recent studies stand as a warning against taking the platitudes of achievement too seriously. The new research focuses on a familiar type, perfectionists, who panic or blow a fuse when things don't turn out just so. The findings not only confirm that such purists are often at risk for mental distress — as Freud, Alfred Adler and countless exasperated parents have long predicted — but also suggest that perfectionism is a valuable lens through which to understand a variety of seemingly unrelated mental difficulties, from depression to compulsive behavior to addiction.
Some researchers divide perfectionists into three types, based on answers to standardized questionnaires: Self-oriented strivers who struggle to live up to their high standards and appear to be at risk of self-critical depression; outwardly focused zealots who expect perfection from others, often ruining relationships; and those desperate to live up to an ideal they're convinced others expect of them, a risk factor for suicidal thinking and eating disorders.
"It's natural for people to want to be perfect in a few things, say in their job — being a good editor or surgeon depends on not making mistakes," said Gordon Flett, a psychology professor at York University and an author of many of the studies. "It's when it generalizes to other areas of life, home life, appearance, hobbies, that you begin to see real problems."
Unlike people given psychiatric labels, however, perfectionists neither battle stigma nor consider themselves to be somehow dysfunctional. On the contrary, said Alice Provost, an employee assistance counselor at the University of California, Davis, who recently ran group therapy for staff members struggling with perfectionist impulses. "They're very proud of it," she said. "And the culture highly values and reinforces their attitudes."
Consider a recent study by psychologists at Curtin University of Technology in Australia, who found that the level of "all or nothing" thinking predicted how well perfectionists navigated their lives. The researchers had 252 participants fill out questionnaires rating their level of agreement with 16 statements like "I think of myself as either in control or out of control" and "I either get on very well with people or not at all."
The more strongly participants in the study thought in this either-or fashion, the more likely they were to display the kind of extreme perfectionism that can lead to mental health problems.
In short, these are people who not only swallow many of the maxims for success but take them as absolutes. At some level they know that it's possible to succeed after falling short (build on your mistakes: another boilerplate rule). The trouble is that falling short still reeks of mediocrity; for them, to say otherwise is to spin the result.
Never accept second best. Always be true to yourself.
The burden of perfectionist expectations is all too familiar to anyone who has struggled to kick a bad habit. Break down just once — have one smoke, one single drink — and at best it's a "slip." At worst it's a relapse, and more often it's a fall off the wagon: failure. And if you've already fallen, well, may as well pour yourself two or three more.
This is why experts have long debated the wisdom of insisting on abstinence as necessary in treating substance abuse. Most rehab clinics are based on this principle: Either you're clean or you're not; there's no safe level of use. This approach has unquestionably worked for millions of addicts, but if the studies of perfectionists are any guide it has undermined the efforts of many others.
Provost said those in her program at UC Davis often displayed symptoms of obsessive-compulsive disorder — another risk for perfectionists. They couldn't bear a messy desk.. They found it nearly impossible to leave a job half-done, to do the next day. Some put in ludicrously long hours redoing tasks, chasing an ideal only they could see.
As an experiment, Provost had members of the group slack off on purpose, against their every instinct. "This was mostly in the context of work," she said, "and they seem like small things, because what some of them considered failure was what most people would consider no big deal."
Leave work on time. Don't arrive early. Take all the breaks allowed. Leave the desk a mess. Allow yourself a set number of tries to finish a job; then turn in what you have.
"And then ask: Did you get punished? Did the university continue to function? Are you happier?" Provost said. "They were surprised that yes, everything continued to function, and the things they were so worried about weren't that crucial."
The British have a saying that encourages people to show their skills while mocking the universal fear of failure: Do your worst.
If you can't tolerate your worst, at least once in a while, how true to yourself can you be?

la niña, el soldado y los zapatitos tolitos molitos ...

Tolín Tolín Tolán


Una niñita chiquitita tolita molita...
Salió de paseo un día tolín tolín tolán
Se saca los zapatitos tolitos molitos
Y va con los pies desnudos tolín tolín tolán

Los zapatitos caminan tolitos molitos
Van caminando solitos tolín tolín tolán

La niña va detrás de ellos tolitos, molitos
Los zapatos solos van tolín tolín tolán

Los zapatos van corriendo tolitos, molitos
La niña corre tras ellos tolín tolín tolán
Pero nunca los alcanza tolitos, molitos
Se pone a descansar tolín tolín tolán

Los zapatos se devuelven tolitos, molitos
A donde la niña está tolín tolín tolán
La niñita se los pone tolitos, molitos
Y no se los saca más tolín tolín tolán

el soldado Trifaldón

el soldado Trifaldón vive dentro de un melón
las pepitas amarillas forman firme el batallón
poromponpon el soldado Trifaldón, poromponpon el soldado Trifaldón.

Su espada es de chocolate, su escopeta es de turrón
de caluga es el sombrero del soldado Trifaldón,
un día va de paseo con todo su batallón
va marchando por el campo el soldado Trifaldón,
poromponpon el soldado Trifaldón, poromponpon el soldado Trifaldón.

Un ejército de hormigas en correcta formación
se encuentra con las pepitas del soldado Trifaldón,
el que manda las hormigas es un Capitán Gruñón
alto dice a las pepitas del soldado Trifaldón:
"A todo lo que sea dulce, agridulce o dulzón
dice la hormiga furiosa al soldado Trifaldón"...
Trifaldón mira su espada, su escopeta, el batallón
es dulce lo que lleva el soldado Trifaldón.

Espere un momentito no se apure tanto Don
somos el gran regimiento del soldado Trifaldón,
pero el Capitán Hormiga sin más le da un coscorrón
y cae de espalda al suelo el soldado Trifaldón
pero muy luego se para valiente como un león
y desenvaina su espada el soldado Trifaldón
y aunque es de chocolate le hace un gran chichón
a la hormiga capitana el soldado Trifaldón.

Todas las pepas se ríen al ver a este hormigón
y el cototo que le hizo el soldado Trifaldón,
pero Trifaldón las calla
viendo que un gran lagrimón
está llorando la hormiga y el soldado Trifaldón
se acerca toma la hormiga
y luego le pide perdón
pepas y hormigas aplauden al soldado Trifaldón
y desde entonces van juntos
batallón con batallón
las pepas y las hormigas mandadas por Trifaldón
poromponpon el soldado Trifaldón, poromponpon el soldado Trifaldón

... (atención de frente... ¡MARRRRRR)....





don crispin

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

 
TEXTO e IMAGEM CLARICE LISPECTOR

UM POUCO DE NIETZCHE

Do livro "Humano demasiadamente humano"
 
606 . O desejo de uma dor profunda - A paixão deixa, ao passar, um obscuro anseio por ela, e ao desaparecer ainda lança um olhar sedutor. Deve ter havido uma espécie de prazer em ser golpeado por seu açoite. Os sentimentos mais moderados parecem insípidos, em comparação; ao que parece, preferimos ainda um mais intenso desprazer a um prazer mortiço.
 
603  Amor e reverência - O amor deseja, o medo evita. Por  causa disso não podemos ser amados nem reverenciados pela mesma pessoa, não no mesmo período de tempo, pelo menos. Pois quem reverencia reconhece o poder, isto é, o teme: seu estado é de medo-respeito. Mas o amor não reconhece nenhum poder, nada que separe ou distinga, sobreponha ou submeta. E, como ele não reverencia, pessoas ávidas de reverência resistem aberta ou secretamente a serem amadas. 
 
Talento - Em algumas pessoas o talento parece menor do que é, pois elas sempre se impõem tarefas grandes demais.

MENTIROSOS - Luís Fernando Veríssimo

MENTIROSOS
(Luíz Fernando Veríssimo)

Nas intermináveis conversas que têm no céu, Jorge Luis Borges, Vladimir Nabokov e Italo Calvino falam de Deus – contando que Ele não esteja por perto -- e todo mundo , e no outro dia falavam mal da sua própria espécie, a dos escritores. Segundo Calvino, os escritores são um péssimo exemplo para a juventude, pois são mentirosos que ganham com suas mentiras. Vivem de contar coisas que nunca aconteceram, ou versões fantasiosas do acontecido, e não apenas assinam o que escrevem como, no caso dos autógrafos, assinam mais de uma vez!

Borges acha que os únicos escritores honestos são os que usam pseudônimo, pois estes reconhecem sua falsidade e protegem suas famílias da sua reputação, mas Nabokov disse que achava bom os escritores se entreterem inventando histórias, pois só isto os impedia de exercerem sua verdadeira vocação, sua volúpia inconfessada, a de falsificar as obras que determinam a vida sobre a Terra, a vida verdadeira: dicionários, enciclopédias, constituições, manuais de instrução, bulas, pareceres... Para Nabokov, toda a obra de Shakespeare se explica pela sua frustração por não ter escrito a Bíblia.

Foi então que Borges confessou que durante toda sua vida sonhara em escrever um livro telefônico fictício. Inclusive, já tinha quase todo o livro na cabeça, de Aabilongo, Álvaro a Zoroastra, Matilde, e dava especial atenção à seção dos Besundres, uma família formada apenas de viúvas, dezessete viúvas que moravam todas no mesmo endereço, cada uma com seu telefone, embora só uma Besundres, vva. Iriago – tivesse o seu nome em negrito, o seu nome também de luto. A lista telefônica de Borges , embora fosse de uma Buenos Aires imaginária, tinha coisas como Bell, Alexander Graham (número do telefone: 1) e...

Mas os três se calaram quando chegou um anjo com o chá. Um poeta que morrera inédito, e que eles não queriam chocar.

(Tenho essa crônica de Veríssimo em um recorte amarelado do Jornal do Brasil que guardo desde um dia de domingo, 25 de novembro de 1990).

mia couto

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer


Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem nunca ter partido
para o norte aceso
no arremedo da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente


( em "Raiz de Orvalho e outros poemas")


Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto
de 'Raiz de Orvalho e outros poemas'.

Agosto 1979
ÂNSIA - Mia Couto
Não me deixem tranqüilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos tivéssemos trocado
para morrer vivendo


Novembro, 1981


O verso...

O verso
une o verso,
universo em página única
de um só lado, sem verso.
A parte,
então, parte o colar
missanga entre palavras: nasce o particular.
Assim,
no bulir da vida,
o abolir da morte.

Com um físico... de Mia Couto
Com um físico destes
nem posso ser metafísico?

Com tanta treva
só quero que ela se atreva.
E me traga
um búzio para deitar o meu vazio
um baton para o astrolábio
uma semi-pedra preciosa
um clandestino destino, já sem clã


Poema da despedida
Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

Raiz de Orvalho - Mia Couto
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


Árvore
cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo


In “Despedida”


Companheiros
quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terem escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver

hei-de inventar
um verso que vos faça justiça

por ora
basta-me o arco-íris

em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço

companheiros

Fundo do mar
Quero ver
o fundo do mar
esse lugar
de onde se desprendem as ondas
e se arrancam
os olhos aos corais
e onde a morte beija
o lívido rosto dos afogados

Quero ver
esse lugar
onde se não vê
para que
sem disfarce
a minha luz se revele
e nesse mundo
descubra a que mundo pertenço


In “Despedida”

Manhã
Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


In “Despedida”

Morte silenciosa
A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada


In “Despedida”

Nocturnamente

Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces


In “Despedida”

Palavra que desnudo
Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

Para ti
Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida


In “Despedida”


Quissico
1.
Deixei o sol
na praia de Quissico

De bruços
sobre o Verão
eu deixei o Sol
na extensão do tempo

Molhando, quase líquido,
o dia afundava
nas fundas águas do Índico

A terra
se via estar nua
lembrando, distante,
seu parto de carne e lua


2.
Não o pássaro: era o céu
que voava

O ombro da terra
amparava o dia

A luz
tombava ferida
pingando
como um pulso suicida
um minhas ocultas asas


In “Despedida”

Saudades
Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono


In “Despedida”


Ser que nunca fui -
Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem nunca ter partido
para o norte aceso
no arremedo da esperança
Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais
Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava
Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente


( em "Raiz de Orvalho e outros poemas")

ÂNSIA - Mia Couto
Não me deixem tranqüilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos tivéssemos trocado
para morrer vivendo


Novembro, 1981

minha ferida...
Minha ferida é só
estar vivo
Minha alegria
é o sono de uma nuvem


O verso... O verso
une o verso,
universo em página única
de um só lado, sem verso.
A parte,
então, parte o colar
missanga entre palavras: nasce o particular.
Assim,
no bulir da vida,
o abolir da morte.

Com um físico...

Com um físico destes
nem posso ser metafísico?

Com tanta treva
só quero que ela se atreva.
E me traga
um búzio para deitar o meu vazio
um baton para o astrolábio
uma semi-pedra preciosa
um clandestino destino, já sem clã

In “Despedida”

Manhã

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


In “Despedida”

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Morte silenciosa

A noite cedeu-nos o instinto
para o fundo de nós
imigrou a ave a inquietação

Serve-nos a vida
mas não nos chega:
somos resina
de um tronco golpeado
para a luz nos abrimos
nos lábios
dessa incurável ferida

Na suprema felicidade
existe uma morte silenciada


In “Despedida”

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Palavra que desnudo

Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a imperceptível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

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Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida


In “Despedida”
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Só a lava...
Só a lava
lava o vulcão
O uivo
é o cão
chorando a ausência de um cão.

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Sotaque da terra


Estas pedras
sonham ser casa

sei
porque falo
a língua do chão

nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico

agora,
ouço em mim
o sotaque da terra

e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol


In “Despedida”

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Trajecto

Na vertigem do oceano
vagueio
sou ave que com o seu voo
se embriaga
Atravesso o reverso do céu
e num instante
eleva-se o meu coração sem peso
Como a desamparada pluma
subo ao reino da inconstância
para alojar a palavra inquieta
Na distância que percorro
eu mudo de ser
permuto de existência
surpreendo os homens
na sua secreta obscuridade
transito por quartos
de cortinados desbotados
e nas calcinadas mãos
que esculpiram o mundo
estremeço como quem desabotoa
a primeira nudez de uma mulher


In “Despedida”
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Despedida


Aves marinhas soltaram-se dos teus dedos
quando anunciaste a despedida
e eu que habitara lugares secretos
e me embriagara com os teus gestos
recolhi as palavras vagabundas
como a tempestade que engole os barcos
porque ama os pescadores

Impossível separarmo-nos
agora que gravaste o teu sabor
sobre o súbito
e infinito parto do tempo

Por isso te toco
no grão e na erva
e na poeira da luz clara
a minha mão
reconhece a tua face de sal

E quando o mundo suspira
exausto
e desfila entre mercados e ruas
eu escuto sempre a voz que é tua
e que dos lábios
se desprende e se recolhe

Ali onde se embriagam
os corpos dos amantes
o te ventre aceitou a gota inicial
e um novo habitante
enroscou-se no segredo da tua carne

Nesse lugar
encostámos os nossos lábios
à funda circulação do sangue
porque me amavas
eu acreditava ser todos os homens
comandar o sentido das coisas
afogar poentes
despertar séculos à frente
e desenterrar o céu
para com ele cobrir
os teus seios de neve


In “Despedida”

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(Escre)ver-me


nunca escrevi

sou
apenas um tradutor de silêncios

a vida tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

sou
um soldado
que se apaixona
pelo inimigo que vai matar


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Raiz de orvalho


Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram

Quem me dera acontecer
essa morte
de que não se morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada

De quando em quando
me perco
na procura a raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco as mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens

Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silêncio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância

Amam-me demasiado
as cosias de que me lembro
e eu entrego-me
como se me furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nascer
dos versos
a que livremente me condeno


In “Despedida”

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Carlos Drummond de Andrade - O Mito

 


Sequer conheço fulana,
Vejo fulana tão curto
Fulana jamais me vê,
Mas como amo fulana.


Amarei mesmo fulana?
Ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
Da perna, talvez o ombro.

Amo fulana tão forte,
Amo fulana tão dor,
Que todo me despedaço
E choro,menino, choro


Mas fulana vai se rindo...
Vejam fulana dançando
No esporte ele está sozinha
No bar, quão acompanhada.

E fulana diz mistérios,
Diz marxismo, rimmel, gás.
Fulana me bombardeia,
No entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos,
É dama de alta fidúcia,
Tem latifúndios, iates,
Sustenta cinco mil pobres,

Menos eu...que de orgulhoso
Me basto pensando nela
Pensando com unha, plasma,
Fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado,
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
Nem vi pela fechadura.

Mas sei quanto me custa
Manter esse gelo digno,
Essa indiferença gaia, e não gritar:
vem, fulana!

Como deixar de invadir
Sua casa de mil fechos
E sua veste arrancando
Mostrá-la depois ao povo

Tal como deve ser:
Branca, intata, neutra, rara,
Feita de pedera translúcida,
De ausência e ruivos ornatos.

Mas como será fulana,
Digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo,
O meu se punge...pois sim.

Porque preciso do corpo
Para mendigar fulana,
Rogar-lhe que pise em mim,
Que me maltrate...assim não.

Mas fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livros?
Será bicho? saberei?

Não saberei? só pegando,
Pedindo: dona, desculpe,
O seu vestido, esconde algo?
Tem coxas reais? cintura?

Fulana às vêzes existe
Demais: até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
Eis que fulana me roça.

Mas não quero nada disso.
Para que chatear fulana?
Pancada na sua nuca
Na minha que vai doer.

E daí não sou criança
Fulana estudo meu rosto
Coitado: de raça branca
Tadinho: tinha gravata

Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
As artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoara
Matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes
Couraçados, invasores.

Fulana é tão dinâmica
Tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
Seus beijos refrigerados,

Desinfetados, gravados
Em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário
Que fêz de fulana um mito
Nutrindo-me de petrarca,
Ronsard, camões e capim;

Que a sei embebida em leite,
Carne, tomate, ginástica
E lhe colo metafísicas,
Enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir
Outra fulana que não
Essa de burguês sorisso
E de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome: recorto-lhe
Um traje de transparência;
Já perde a carência humana
E bato-a; de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces
De meu sonho que especula;
E abolimos a cidade
Já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
Mar de hipóteses.a lua
Fica sendo nosso esquema
De um território mais justo.

E colocamos os dados
De um mundo sem classe e imposto;
E nesse mundo instalamos
Os nossos irmãos vingados:

E nessa fase gloriosa,
De contradições extintas,
Eu e fulana, abrasados,
Queremos...que mais queremos?

E digo a fulana: amiga,
Afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
Mas somos a mesma coisa

(uma coisa tão diversa
da que pensava que fossemos.)

FOTO DE ANDREA CARVALHO STARK, 2006