*************************************************************************************

................................

Capitu traiu Bentinho? Melhor é ficar na dúvidaSegunda

Em enquete promovida pelo portal do 'Estadão', leitores dizem que sim; para escritores, no entanto, não importa a resposta
 
João Luiz Sampaio
 
E, afinal, Capitu traiu Bentinho? Em Dom Casmurro, Machado de Assis optou pela dúvida. E desde então leitores de diversas gerações se perguntam: o ciúme de Bentinho era mesmo justificado? Ezequiel era de fato filho de Escobar, fruto de uma aventura extraconjugal de sua mulher? Na semana passada, o Cultura deu início à publicação da seção Meu Machado de Assis, em que personalidades do mundo cultural darão mensalmente depoimentos sobre sua relação com a obra do escritor, de quem se lembra este ano o centenário de morte. Em seu texto, a escritora Lygia Fagundes Telles relembrou a leitura de Dom Casmurro, a confecção do roteiro do filme Capitu, nele inspirado, e a dúvida que a persegue desde então: Capitu traiu Bentinho?
 
De domingo até quinta-feira, o portal do Estadão fez a pergunta aos internautas. Ao todo, 1.796 pessoas participaram da enquete - 50% acreditam que, sim, Capitu traiu Bentinho; 32% afirmaram que não; e, 18%, como Lygia, responderam que não sabem. A escritora se diverte com a enquete e arrisca uma interpretação para o resultado. 'Acho que há um liberalismo maior por parte das pessoas; em outras épocas, dificilmente tanta gente aceitaria abertamente a traição de uma mulher', diz. Já o escritor Moacyr Scliar relativiza os resultados. 'Aparentemente a maioria acha que sim, que Capitu traiu Bentinho; mas é metade das pessoas. A outra metade se divide entre o 'não' e o 'não sei'. Ou seja, o resultado é mais equilibrado do que parece', diz. Mas, e ele, o que acha? 'Bem, acho que Capitu não traiu.'
 
Já para o crítico Ronaldo Bressane , 'ao pé da letra morta do romance, é claro que o Bentinho levou chifre' - afinal, o Ezequiel é a cara do Escobar. Mas ele mesmo acrescenta: 'Temos a perspectiva do corno, e só. Conheço muito caso de pseudocorno, nego que vê chifre na própria cabeça.' No fim das contas, diz Bressane, 'voto que todos tenham culpa no cartório'. Falando em culpa, o escritor Fabrício Carpinejar carrega uma desde a infância: 'Eu participei de um júri na escola sobre Dom Casmurro. Era o advogado de defesa - e Capitu foi condenada.' E hoje? Para ele, a leitura sempre gira entre duas hipóteses: Bentinho era paranóico ou Capitu realmente foi infiel. 'Acredito, agora, que Bentinho era louco assim como Capitu o traiu. Machado criou a dúvida usando duas certezas.'
 
Há, no entanto, aqueles que não se interessam por uma resposta definitiva. 'Quem não sabe se Capitu traiu o marido, como eu, e nem se interessa por isso, simplesmente está curtindo a genial trama de Machado, que deve ter se divertido muito plantando essa dúvida na cabeça da burguesia carioca', diz o compositor Gilberto Mendes. O escritor Nelson de Oliveira concorda. 'Na coletânea Dinorá, Dalton Trevisan publicou um artigo sobre essa espinhosa questão. Discordo totalmente de sua opinião. Para ele, Capitu traiu. Na opinião de muita gente, de acordo com a enquete, Capitu não traiu. Na minha opinião, o romance só vale a pena ser lido, comentado, estudado, indicado, reeditado, ou seja, canonizado, se a balança permanecer imóvel', diz. Com a palavra, a psicanalista Maria Rita Kehl: 'Minha resposta vai na terceira coluna, dos que disseram 'não sei'. Aliás, não sei e não quero saber. Afinal, Machado escolheu escrever seu Dom Casmurro do ponto de vista de Bentinho de modo a conduzir o leitor por um caminho tão incerto quanto o do protagonista. O tema de Dom Casmurro, a meu ver, não é uma investigação sobre a infidelidade conjugal, é uma observação muito aguda sobre a cegueira masculina a respeito da sexualidade feminina.'
 
Também em defesa da dúvida partem as professoras Leyla Perrone-Moisés e Leda Tenório da Motta. 'O que faz do livro uma obra fascinante é a dúvida. A ficção não obedece à lógica do sim ou não, mas permite a lógica do sim e não. Só na ficção verdades conflitantes podem coexistir, lembrando-nos a complexidade do ser humano ', diz Leyla. 'A esse tribunal ideológico escapam as metáforas machadianas, por exemplo, o 'riso azul claro' do Rubião, o herói de Quincas Borba, quando ele entra em surto. Eu nunca vi nada mais forte nem mais surpreendente para se dizer a loucura... e nunca vi ninguém mencionar isso!', acrescenta Leda.
 
E, como ficamos? De volta a Moacyr Scliar. 'Para ter certeza, seria bom perguntar ao Machado. Infelizmente, ele não tem vindo às reuniões da ABL. Em algum lugar o bruxo deve estar rindo sozinho.'
 
ESTADO de SP, 03 fev 2008

João & Joaquim (e outros imortais)


Os dois imprimiram dimensão estética ao enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João
 
JOAQUIM MARIA Machado de Assis faleceu há cem anos. João Guimarães Rosa nasceu há cem anos. Os dois imprimiram dimensão estética ao enigma do feminino: Capitu, por Joaquim; Diadorim, por João. Os dois morreram no Rio, os dois em casa, os dois sozinhos. Joaquim, no Cosme Velho, viúvo; João, em Copacabana, a 19 de novembro de 1967, quando a mulher saíra para a missa.
Carioca, autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras, Joaquim construiu uma obra de inesgotável polissemia. Seu estilo revela a leveza da pena, graças às suas crônicas para jornais. Seus textos parecem, à primeira vista, ao alcance de qualquer leitor. Porém, exigem acuidade para serem captados em sua profusão de símbolos, subterfúgios, entrelinhas e aparentes tautologias.
Mineiro de Cordisburgo -"cidade do coração"-, poliglota, médico e diplomata, João reinventou a língua portuguesa, abrasileirou-a, potencializou-a, implodiu as regras da narrativa convencional, fez do sertão uma epopéia.
João observa o mundo pela cerca do pasto; Joaquim, pela janela do sobrado. O primeiro é rural; o segundo, urbano. João se solta nas águas límpidas dos grandes rios para pescar, nas profundezas, as metafísicas interrogações do humano. Joaquim é intimista, realista, encontra nos salões, numa conversa banal, a matéria-prima que lhe permite desvelar recônditos segredos da alma.
João encara o mundo de baixo para cima, situado no lugar social dos anônimos; pisa em bosta de vaca para descrever infinitudes. Joaquim é quase dândi, apresenta-se de luvas e cartola e, aos poucos, rasga-nos a fantasia, perfura a pele, escancara o coração, expõe as vísceras.
João é teólogo, apocalíptico; Joaquim, filósofo, irreverente. João é assombro; Joaquim, ironia. Este ergue seu bico de pena e penetra nos meandros de nossa inelutável insensatez; João mete a foice e desbasta, abre veredas em direções inesperadas.
Joaquim é cartesiano, explora a dúvida, o suspense, a ambigüidade, o contraditório. João é barroco, retorce a gramática, subverte a sintaxe, arranca o vocabulário de seu perfilar ordenado e o atira no corpo de baile dos entremeios do espírito.
Joaquim faz de sua literatura uma caprichosa renda; vista à distância, sua obra parece impecável toalha sobre a mesa, cuja beleza resulta de seus intrincáveis bordados, só apreciados pelo leitor arguto. João prefere juntar os cacos espalhados pelo chão da vida e expor o vitral de tantas sagas e aventuras.
Seu talento é inalcançável, pois se isolou num universo vocabular e semântico único, singular; melhor comparando, apagou o idioma da lousa e nos labirintos da sintaxe reconstruiu-o letra por letra, palavra por palavra, num tecido radicalmente local, esplendorosamente universal.
Nos dois, o domínio impecável da língua, o estilo cativante, o ritmo preciso. Os dois são inimitáveis. Joaquim nos convida a um jogo repleto de surpresas; João, a uma viagem através do misterioso sertão que cada um de nós traz dentro de si.
Este é um ano de muitas comemorações literárias. Há 400 anos nascia o padre Vieira (6/2/1608), que nos ensinou a reverenciar o idioma português, e, há 120 anos, Fernando Pessoa (13/6/1888), para quem "o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". Há 60 anos nos deixava Monteiro Lobato, que encantou a minha infância e habituou-me aos livros.
Antonio Candido, o maior crítico literário vivo, autor do clássico "Parceiros do Rio Bonito", faz 90 anos. E há 90 anos transvivenciou Olavo Bilac, que nos convida a ouvir estrelas. E Manuel Bandeira falecia há 40 anos, ele que nos induz a surfar na poesia: "a onda anda / aonde anda / a onda? / a onda ainda / ainda onda / ainda anda / aonde? / aonde? / a onda / a onda".
 
CARLOS ALBERTO LIBÂNIO CHRISTO , o Frei Betto, 63, frade dominicano e escritor, é autor, de "Alfabetto Autobiografia Escolar", entre outras obras. Foi assessor especial da Presidência da República (2003-2004).
FOLHA DE SÃO PAULO, 13 DE ABRIL DE 2008

um poema de Machado de Assis

VAI-TE
1º jan. 1858
 
 
POR QUE VOLTASTE? Esquecidos
Meus sonhos, e meus amores
Frios, pálidos morreram
Em meu peito. Aquelas flores
Da grinalda da ventura
Tão de lágrimas regada,
Nesta fronte apaixonada
Cingida por tua mão,
Secaram mortas estão.
Pobre pálida grinalda!
Faltou-lhe um orvalho eterno
De teu belo coração.
Foi de curta duração
Teu amor: não compreendeste
Quanto amor esta alma tinha...
Vai, leviana andorinha,
 
A outro clima, outro céu:
Meu coração? Já morreu
Para ti e teus amores,
E não pode amar-te — vai!
O hino das minhas dores
Dir-to-á a brisa, à noite,
Num terno, saudoso — ai —
Vai-te — e possa a asa do vento
Que pelas selvas murmura,
Da grinalda da ventura
Que em mim outrora cingiste,
Inda um perfume levar-te,
Morta assim: como um remorso
Do teu olvido... eu amar-te?
Não, não posso; esquece, parte;
Eu não posso amar-te... vai!

SHAKESPEARE SONNETS

XVIII
 
Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
 
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:
 
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
 
When in eternal lines to time thou grow'st,
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
 
XIX
 
Devouring Time, blunt thou the lion's paws,
And make the earth devour her own sweet brood;
Pluck the keen teeth from the fierce tiger's jaws,
And burn the long-liv'd phoenix, in her blood;
 
Make glad and sorry seasons as thou fleet'st,
And do whate'er thou wilt, swift-footed Time,
To the wide world and all her fading sweets;
But I forbid thee one most heinous crime:
 
O! carve not with thy hours my love's fair brow,
Nor draw no lines there with thine antique pen;
Him in thy course untainted do allow
 
For beauty's pattern to succeeding men.
Yet, do thy worst old Time: despite thy wrong,
My love shall in my verse ever live young.
 
XXIII
 
As an unperfect actor on the stage,
Who with his fear is put beside his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength's abundance weakens his own heart;
 
So I, for fear of trust, forget to say
The perfect ceremony of love's rite,
And in mine own love's strength seem to decay,
O'ercharg'd with burthen of mine own love's might.
 
O! let my looks be then the eloquence
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love, and look for recompense,
 
More than that tongue that more hath more express'd.
O! learn to read what silent love hath writ:
To hear with eyes belongs to love's fine wit.

Minha mãe ME ensinou

Minha mãe ensinou a VALORIZAR O SORRISO...
 
'ME RESPONDE DE NOVO E EU TE ARREBENTO OS DENTES!'
 
Minha mãe me ensinou a RETIDÃO.
 
'EU TE AJEITO NEM QUE SEJA NA PANCADA!'
 
Minha mãe me ensinou a DAR VALOR AO TRABALHO DOS OUTROS...
 
'SE VOCÊ E SEU IRMÃO QUEREM SE MATAR, VÃO PRA FORA. ACABEI DE LIMPAR A CASA!'
 
Minha mãe me ensinou LÓGICA E HIERARQUIA...
 
'PORQUE EU DIGO QUE É ASSIM! PONTO FINAL! QUEM É QUE MANDA AQUI?'
 
Minha mãe me ensinou o que é MOTIVAÇÃO...
 
'CONTINUA CHORANDO QUE EU VOU TE DAR UMA RAZÃO VERDADEIRA PARA VC CHORAR!'
 
Minha mãe me ensinou a CONTRADIÇÃO...
 
'FECHA A BOCA E COME!'
 
Minha Mãe me ensinou sobre ANTECIPAÇÃO...
 
'ESPERA SÓ ATÉ SEU PAI CHEGAR EM CASA!'
 
Minha Mãe me ensinou sobre PACIÊNCIA...
 
'CALMA!... QUANDO CHEGARMOS EM CASA VOCÊ VAI VER SÓ..'.
 
Minha Mãe me ensinou a ENFRENTAR OS
DESAFIOS...
 
'OLHE PARA MIM! ME RESPONDA QUANDO EU TE FIZER UMA PERGUNTA!'
 
Minha Mãe me ensinou sobre RACIOCÍNIO LÓGICO...
 
"SE VOCÊ CAIR DESSA ÁRVORE VAI QUEBRAR O PESCOÇO E EU VOU TE DAR UMA SURRA!'
 
Minha Mãe me ensinou MEDICINA...
 
'PÁRA DE FICAR VESGO, MENINO! PODE BATER UM VENTO E VOCÊ VAI FICAR ASSIM PARA SEMPRE.'
 
Minha Mãe me ensinou sobre o REINO ANIMAL...
 
'SE VOCÊ NÃO COMER ESSAS VERDURAS, OS BICHOS DA SUA BARRIGA VÃO COMER VOCÊ!'
 
Minha Mãe me ensinou sobre SEXO...
 
'...E COMO VOCÊ ACHA QUE VOCÊ NASCEU?'
 
Minha Mãe me ensinou sobre GENÉTICA...
 
'VOCÊ É IGUALZINHO AO SEU PAI!'
 
Minha Mãe me ensinou sobre minhas RAÍZES...
 
'TÁ PENSANDO QUE NASCEU DE FAMÍLIA RICA É?'
 
Minha Mãe me ensinou sobre a SABEDORIA DE IDADE...
 
'QUANDO VOCÊ TIVER A MINHA IDADE, VOCÊ VAI ENTENDER.'
 
Minha Mãe me ensinou sobre JUSTIÇA...
 
'UM DIA VOCÊ TERÁ SEUS FILHOS, E EU ESPERO ELES FAÇAM PRÁ VOCÊ O MESMO QUE VOCÊ FAZ PRA MIM! AÍ VOCÊ VAI VER O QUE É BOM!'
 
Minha mãe me ensinou RELIGIÃO...
 
'MELHOR REZAR PARA ESSA MANCHA SAIR DO TAPETE!'
 
Minha mãe me ensinou o BEIJO DE ESQUIMÓ...
 
'SE RABISCAR DE NOVO, EU ESFREGO SEU NARIZ NA PAREDE!'
 
Minha mãe me ensinou CONTORCIONISMO...
 
'OLHA SÓ ESSA ORELHA! QUE NOJO!'
 
Minha mãe me ensinou DETERMINAÇÃO...
 
'VAI FICAR AÍ SENTADO ATÉ COMER TODA COMIDA!'
 
Minha mãe me ensinou habilidades como
VENTRÍLOQUO...
 
'NÃO RESMUNGUE! CALA ESSA BOCA E ME DIGA POR QUE É QUE VOCÊ FEZ ISSO?'
 
Minha mãe me ensinou a SER OBJETIVO...
 
'EU TE AJEITO NUMA PANCADA SÓ!'
 
Minha mãe me ensinou a ESCUTAR ....
 
'SE VOCÊ NÃO ABAIXAR O VOLUME, EU VOU AÍ E QUEBRO ESSE RÁDIO!'
 
Minha mãe me ensinou a TER GOSTO PELOS ESTUDOS..
 
'SE EU FOR AÍ E VOCÊ NÃO TIVER TERMINADO ESSA LIÇÃO, VOCÊ JÁ SABE!...'
 
Minha mãe me ajudou na COORDENAÇÃO MOTORA...
 
'JUNTA AGORA ESSES BRINQUEDOS!! PEGA UM POR UM!!'
 
Minha mãe me ensinou os NÚMEROS...
 
VOU CONTAR ATÉ DEZ. SE ESSE VASO NÃO APARECER VOCÊ LEVA UMA SURRA!'
 
Obrigado, mãe !!! Eu te amo!
(esse é um desses textos engraçadíssimos e anônimos que circula na internet)

Will Durant:"Que mau demônio nos afeiçoou assim? "


Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E não sem acerto, porque todas as coisas agradáveis devem ser tidas como inocentes, e até que se provem culpadas todas as presunções pendem a seu favor. A vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites; tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente - e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito rápidamente todas as alegrias perdem a vivacidade - e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O próprio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a estação própria - a velhice.
É este o grande drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; «olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali»; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demônio nos afeiçoou assim?
Will Durant, in "Filosofia da Vida"

Eu amo o Longe e a Miragem

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
.
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
.
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
 
 
"Cântico negro"  de José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico que nasceu em Vila do Conde em 1901.  Licenciado em Letras em Coimbra, foi um dos fundadores da revista "Presença".

O português são dois; o outro, mistério


A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender.A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
 
Aula de Português -  Carlos Drummond de Andrade

Cecília Meireles- Cântico XXIII

 
Não faça de ti um sonho a realizar,
Vai!
Sem caminho marcado
Tu és de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti, sem te falarem.
Sem lhes falares.
 
Cecília Meireles- Cântico XXIII

EUCANAÃ FERRAZ

HABITARE
 
I
Mais que nenhuma outra:
casa.
 
Mais que nenhuma outra:
branca.
 
Mais inteira que possa:
sem porta, sem tranca.
 
Ei-lo: ovo
(Parthenon, barraco).
 
II
Estranho granito, estranha guarita.
Gradil compacto, excêntrica parede.
 
Chão, teto, dobradiça: é tudo.
Ostras habitam o outro da casa.
 
Porém, sobre o pátio prosaico da mesa,
carapaças, capas-pedras de livros nunca abertos,
 
quando abertas mostram glândulas,
tripas, transístores, dentros
 
de um dentro sem
mistérios.
 
SENTENÇA
 
Na canção, perdoar.
Deixar que os inimigos durmam
 
na canção, enquanto caminhamos
à cata de comida, de pátria, de beleza.
 
Na canção, tentar não morrer,
tentar não estar mudo.
 
Aceitar o acorde ruim,
dormir ao relento, ter um filho,
 
dar a outra face ao silêncio
da canção, na canção.
 
NÃO SÃO
 
Podem vir abruptas, íngremes, arrevesadas.
Podem ser afabilidade e pele.
Podem ser inflamar-se,
Podem ser guarida.
 
Acontece: chegam inteiras,
toda justeza cada sílaba,
definitivas, despóticas
ou privam-se do silêncio em que vivem, livres,
para serem acaso e litígio
no unto de páginas
e telas de computador,
à espera de alguma dignidade.
 
Não há obstetrícia certa
para com elas.
Palavras não são
farinha do mesmo saco.
 
POR ISSO
 
Se quer dedicar-se à pintura
deve começar por cortar a língua.
 
Matisse, penso nele, sempre,
que cismava Tolouse-Lautrec.
 
Quer dedicar-se à poesia?
Inicie com abrir os olhos.
 
Leve, obediente, a mão: não deve
a criada tornar-se patroa.
 
Aprender, aprender, aprender,
encontrar, descobrir,
 
até que um dia se possa afirmar:
finalmente, já não sei fazer.
 
VIAGEM
 
Não levaremos a alma.
Entraremos descalços
ali
 
onde visível anel tudo alinhava
e o corpo se descubra mais contente.
Alma nenhuma.
 
Nada que não caiba na fome.
A carne cantará docemente
de não sabermos quem somos.
 
RELOJOARIA
 
Dizem
diante de quem morre:
chegou sua hora. Hora que,
 
certa e da qual não se foge,
não é grão n'ampulheta,
o digital não desenha,
 
barco algum espera e,
pulso nenhum, oco,
é à prova de cronômetros.
 
Mais que marco
do instante em que
se quebrou a máquina, é ela,
 
a hora, que, inexorável,
gasta, morde, rói
e rompe a corda.
 
 

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
 
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
 
Silence the pianos and with muffled drum
 
Bring out the coffin, let the mourners come.
 
Let aeroplanes circle moaning overhead
 
Scribbling on the sky the message He is Dead.
 
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
 
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
 
He was my North, my South, my East and West,
 
My working week and my Sunday rest,
 
My noon, my midnight, my talk, my song;
 
I thought that love would last forever: I was wrong.
 
The stars are not wanted now; put out every one,
 
Pack up the moon and dismantle the sun,
 
Pour away the ocean and sweep up the woods;
 
For nothing now can ever come to any good.
 
-- W.H. Auden, 1936

É só tocá-lo volatiza-se a memória guardada:

No armário do meu quarto escondo
de tempo e traça meu vestido
estampado em fundo preto. 
É de seda macia desenhada
em campânulas vermelhas à ponta
de longas hastes delicadas. 
Eu o quis com paixão
e o vesti como um rito,
meu vestido de amante. 
Ficou meu cheiro nele,
meu sonho, meu corpo ido. 
É só tocá-lo,
volatiza-se a memória guardada: 
Eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão. 
De tempo e traça meu vestido me guarda. 
 
 
 
O VESTIDO, Adélia Prado, Poesia reunida, Editora Siciliano, 1991
 

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
 
ROBERT FROST
 

LXXVI.

 
Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?
 
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth and where they did proceed?
 
O, know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
 
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.
 
WILLIAM SHAKESPEARE
 

é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?


Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo -- é água, esperma,
 
 
 
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fontes?

em lugar dos vestidos, pus a vida

Amor, co´ a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:
nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta te com as lágrimas que choro.
 
Luis Vaz de Camões

reminiscências osculares


Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares
mas a saudade é isto mesmo
é o passar e repassar das memórias antigas.
 
 
Machado de Assis, "Dom Casmurro"

Schopenhauer, Arte de escrever

Há três tipos de escritores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa é a classe mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.
 
(Escritores)
 
 
 
A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada. Só que, "longe dos olhos, perto do coração"! O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada pode nos abandonar se não nos casarmos com ela.
 
(O pensamento e o amor)
Antes falar bobagens do que calar besteiras.
(Guimarães Rosa, Partida do audaz navegante, "Primeiras Histórias")

há certas memórias que são como pedaços da gente, que não podemos tocar sem algum gozo e dor

Aí estou eu a repetir cousas que sabeis – uns por as haverdes lido, outros por vós lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades.
 
Machado de Assis, 20 de setembro de 1892