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O Ovo de Galinha - João Cabral de Melo Neto
I
Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.
Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.
No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:
que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.
II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.
E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas
cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.
No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.
III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.
O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.
A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.
É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.
IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.
Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.
O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:
procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.
"João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1994, pág. 302.
Imagem: Mão e foto de Andrea Carvalho Stark, no Arpoador, RJ.
TORQUATO NETO
que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.
O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.
E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia
Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.
Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.
Parte III
Vou à parede e examino o retrato,
irresponsável-amarelo-acinzentado-testemunha.
Meus olhos não se abrem e mesmo assim o vejo.
E mesmo assim te vejo, ó menino, encostado à palmeira de tua praça
e sem querer sair.
E mesmo assim te penso dique,
desolação de seca na caatinga, noite de insônia,
canção antiga ao pé do berço,
prata
fósforo queimado
poço interminável, seco.
Ouço teu sorriso e te obedeço.
Eu que desaprendi a preparação do sorriso
e não o consigo mais.
Estou preso a ti, ainda agora,
apesar do cabelo escurecido,
as mãos maiores e mais magras
e um súbito medo de morrer, amor à vida, tolo.
tenho preso a ti a palavra primeira
e o primeiro gesto de enxergar o espelho:
ouço-te, sou mais desgosto em mim, imcompreensível.
À tua ordem decido não envergonhar-me de existir
nesta forma disforme e de osso
carne
algumas coisas químicas
e uma vontade de estar sempre longe,
visitando países absurdos.
Não posso envergonhar-me de ser homem.
tenho um menino em mim que me observa
e ele tem nos olhos
(qual a cor?)
todas as manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino, que me alumiava.
Tenho um menino em mim e ele é que me tem:
por isso a corcunda precoce
e os olhos banzos: tenho o corpo voltado à sua procura
e meu olhar apenas toca, e leve,
a exata matriz da calça
molhada em festa vespertina da bexiga.
Um Cidadão ComumSempre subindo a ladeira do nada,
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão.
Rio 9.8.62
ANA CRISTINA CESAR
olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
Psicografia
Tambem eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto
Poesia
jardins inabitados pensamentos
pretensas palavras em
pedaços
jardins ausenta-se
a lua figura de
uma falta contemplada
jardins extremos dessa ausência
de jardins anteriores que
recuam
ausência freqüentada sem mistério
céu que recua
sem pergunta
*
Flores Do Mais
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais
Deus na Antecâmara
Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)
Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sangüinária
(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)
Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero partir ao repartir
filho
pai
e
fogo
DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando
HOMEM: ACORDA!
Um Beijo
que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.
Minha boca também
está seca
deste ar seco do planalto
bebemos litros d'água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade
te livrando
castillo de alusiones
forest of mirrors
anjo
que extermina
a dor
Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 nesta
cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas
viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras,
escreveu para revistas e jornais alternativos, e saiu na antologia "26
Poetas Hoje", de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre
literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros
livros em edições independentes: "Cenas de Abril" e "Correspondência
Completa". Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução
literária, escreveu muitas cartas e editou "Luvas de Pelica". Trabalhou em
jornalismo, televisão e escreveu "A Teus Pés", Editora Ática - São Paulo,
1998, de onde extraímos o texto acima.. Suicidou-se no dia 29 de outubro de
1983.
Ítalo Moriconi escreveu: "Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu
desbunde fora abandonar a idéia de ser escritora, livrar-se do que ela
naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa
bem-comportada, alguém marcada para escrever".
IMAGEM OBRA DE E. MUNCH
http://www.releituras.com/anacesar_sono.asp
Poeminha Amoroso - CORA CORALINA
Este é um poema de amor
tão meigo, tão terno, tão teu...
É uma oferenda aos teus momentos
de luta e de brisa e de céu...
E eu,
quero te servir a poesia
numa concha azul do mar
ou numa cesta de flores do campo.
Talvez tu possas entender o meu amor.
Mas se isso não acontecer,
não importa.
Já está declarado e estampado
nas linhas e entrelinhas
deste pequeno poema,
o verso;
o tão famoso e inesperado verso que
te deixará pasmo, surpreso, perplexo...
eu te amo, perdoa-me, eu te amo.
IMAGEM FRIDA KHALO
POEMA 20 - PABLO NERUDA
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros, ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis, e às vezes ela também me quis...
Em noites como esta eu a tive entre os meus braços.
A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como na relva o orvalho.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
Minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Como para aproximá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura, e ela não está comigo
A mesma noite que faz branquear as mesmas árvores.
Nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é verdade, mas quanto a quis.
Minha voz procurava o vento para tocar o seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é verdade, mas talvez a quero.
É tão curto o amor, e é tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta eu a tive entre os meus braços,
minha alma não se contenta com tê-la perdido.
Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,
e estes, os últimos versos que lhe escrevo
HILDA HILST - TRANSLATED
Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo.
Também isso te devo.
Poema 1
This mournful moon, this unease
Inner turbulence, lagoon,
Inside of solitude, a dying body,
All this I owe you. Such immense
Plans and future, ships,
Walls of ivory, words full
Always consented to. It would be December.
A jade horse beneath the waters
Double transparency, a line in mid-air
All these things at your fingertips
Silent and blue. Some mornings of glass,
Wind, a hollow soul, a sun I can't see
This, too, I owe you.
Poema 2
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso
Distanciado
Dos teus livros políticos
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
I smile when I wonder
Where in your room
You keep my verse.
Away from your
Political books?
In the first drawer
Close to the window?
Do you smile when you read
Or are you tired of seeing
Such abandon
Amorous spark
On my ripened face?
Do I seem beautiful
Or am I to you
Too much of a poet, perhaps,
And not serious enough?
What does the man think
Of the poet? That there's no truth
In my drunkenness
And that you prefer
A friend more peaceful
And less adventurous?
That you simply cannot
Worldly traces
Of my passionate words?
Do you see me as mad?
Do you see me as pure?
Do you see me as young?
Or is it real
That you never knew me?
POEMAS DE HILDA HILST do livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974). Versão para o inglês de Beatriz Cabral Bastos publicada em HILDA HILST: DOIS POEMAS, DUAS VERSÕES - Revista Tradução em Revista,Número 6 , Periódico de Estudos da Tradução, PUC-Rio, 2009
Why are we still reading Dickens?
Why are we still reading Dickens?
The great Victorian is probably even more ubiquitous now than he was in his lifetime. How he remains such vital reading is an intriguing question
The Guardian, Wednesday 30 September 2009
Shining a light on his audience ... Dickens giving a reading. Photograph: Corbis
It seems that you cannot turn a corner this year without bumping into Charles Dickens. So far we've seen the release of four major novels based on the Victorian icon's life: Dan Simmons's Drood (February), Matthew Pearl's The Last Dickens (March), Richard Flanagan's Wanting (May), and Gaynor Arnold's Girl in a Blue Dress (July). Earlier this year BBC1's lush new production of Little Dorrit was nominated for five Bafta awards in the UK, and 11 Emmys in the US. Newspapers and magazines have run stories on his relevance to the current global economic crisis. And with the Christmas season now only four months away, it seems that there is no getting away from him any time soon.
As someone who teaches and writes about Dickens, the question of why we still read him is something that's often on my mind. But that question was never more troubling than one day, nearly 10 years ago, when I was standing as a guest speaker in front of a class of about 30 high school students. I had been speaking for about 20 minutes with an 1850 copy of David Copperfield in my hand, telling the students that for Victorian readers, Dickens's writing was very much a "tune-in-next-week" type of thing that generated trends and crazes, much as their own TV shows did for them today.
Then a hand shot up in the middle of the room.
"But why should we still read this stuff?"
I was speechless because in that moment I realised that, though I had begun a PhD dissertation on Dickens, I had never pondered the question myself.
The answer I gave was acceptable: "Because he teaches you how to think," I said. But lots of writers can teach you how to think, and I knew that wasn't really the reason.
The question nagged me for years, and for years I told myself answers, but never with complete satisfaction. We read Dickens not just because he was a man of his own times, but because he was a man for our times as well. We read Dickens because his perception and investigation of the human psyche is deep, precise, and illuminating, and because he tells us things about ourselves by portraying personality traits and habits that might seem all too familiar. His messages about poverty and charity have travelled through decades, and we can learn from the experiences of his characters almost as easily as we can learn from our own experiences.
These are all wonderful reasons to read Dickens. But these are not exactly the reasons why I read Dickens.
My search for an answer continued but never with success, until one year the little flicker came not surprisingly from another high school student, whose essay I was reviewing for a writing contest. "We need to read Dickens's novels," she wrote, "because they tell us, in the grandest way possible, why we are what we are."
There it was, like a perfectly formed pearl shucked from the dirty shell of my over-zealous efforts an explanation so simple and beautiful that only a 15-year-old could have written it. I could add all of the decoration to the argument with my years of education the pantheon of rich characters mirroring every personality type; the "universal themes" laid out in such meticulous and timeless detail; the dramas and the melodramas by which we recognise our own place in the Dickensian theatre but the kernel of what I truly wanted to say had come from someone else. As is often the case in Dickens, the moment of realisation for the main character here was induced by the forthrightness of another party.
And who was I, that I needed to be told why I was what I was? Like most people, I think I knew who I was without knowing it. I was Oliver Twist, always wanting and asking for more. I was Nicholas Nickleby, the son of a dead man, incurably convinced that my father was watching me from beyond the grave. I was Esther Summerson, longing for a mother who had abandoned me long ago due to circumstances beyond her control. I was Pip in love with someone far beyond my reach. I was all of these characters, rewritten for another time and place, and I began to understand more about why I was who I was because Dickens had told me so much about human beings and human interaction.
There are still two or three Dickens novels that I haven't actually read; but when the time is right I'll pick them up and read them. I already know who it is I'll meet in those novels the Mr Micawbers, the Mrs Jellybys, the Ebenezer Scrooges, the Amy Dorrits. They are, like all of us, cut from the same cloth, and at the same time as individual as their unforgettable aptronyms (http://www.britannica.com/EBchecked/topic/30911/aptronym) suggest. They are the assurances that Dickens, whether I am reading him or not, is shining a light on who I am during the best and worst of times.
A Gate at the Stairs by Lorrie Moore
A Gate at the Stairs by Lorrie Moore
Lorrie Moore's literary talent has always seemed exquisitely adapted to brevity. Now she has finally proved herself over the long haul, says Geoff Dyer

Lorrie Moore. Photograph by Linda Nylind
Did it matter did it gnaw away at her that in spite of the high critical standing enjoyed by her stories, Lorrie Moore had not come up with the big novel by which writers, American ones especially, tend to be judged? Yes, there was Anagrams (1986), but the fact that a third of it also ended up in last year's Collected Stories slightly undermined its claims to unity. And then there was Who Will Run the Frog Hospital? (1994), which was nice enough but suggested that, like a boxer moving up a weight division, litheness was having to compensate for lack of bulk.
- A Gate at the Stairs
- by Lorrie Moore
- 336,
- Faber and Faber
The stories, meanwhile, got better, deeper, darker and yes heavier, but maybe a voice and talent so exquisitely adapted to the shaped imperatives of brevity would come to be defined and measured by the lack of top-quality long-haul. "I can't do this," says the distraught mother-writer in the famous story "People Like That Are the Only People Here". "I can do quasi-amusing phone dialogue. I do the careful ironies of daydreams. I do the marshy ideas upon which intimate life is built." Hence the mix of excitement and trepidation that even adoring readers will bring to Moore's third novel. Will it be great? Will Moore prove that she is not synonymous with less?
Hell yes! It is and she does. She's on fire for 300 pages! You can sit back and have the time of your life reading A Gate at the Stairs if you're prepared to make a bunny-hop of critical faith, what might be called I'm showing my age here the Jimmy Clitheroe concession.
Moore was born in 1957; her narrator, Tassie, is looking back to the time, shortly after 9/11, when she was a student in the Midwest town of Troy. At the alleged time of writing, she is in her mid-20s but the voice and, to a lesser extent, the eyes are those of someone old enough to be her mother.
Moore's characters and books have always been light-footed. Self-Help, her first collection of stories, was all wit and sad dazzle. Anagrams was so loaded with gags that the reader suffered occasional quip fatigue. No surprise, then, that Tassie has a GSOH, but for someone claiming to be "fresh from childhood" she seems to be lugging around an extra quarter-century of adult life. A couple of times, she remarks on the quirks of "our generation" the way, for example, that "everything either 'sucked' or was 'awesome'" but they're exactly the things that strike people of Moore's age.
It's tricky. The main symptom of over-ageing in this coming-of-age novel is also intrinsic to its effect. Precocity enables you to play the piano at six, but wisdom, like the "half-life of regret" that also haunts these pages, only comes later. You find it, as Blake said, in the desolate market where few come to buy.
This is not to minimise the purchases made there the grief visited upon and witnessed by Tassie in the brief period covered by the novel. Short of cash, she gets a part-time, all-consuming job babysitting for a middle-aged couple who are adopting a mixed-race baby. Much of the book details Tassie's time with the foster mother, Sarah, and her adopted child, Emmie. She is smuggled the word turns out to be more apt than one might imagine into an overwhelmingly white town, and Emmie's arrival prompts Sarah to organise a series of evenings in which other mixed families serve as a scathing mock-chorus on the state of race relations in idyllic-seeming Troy.
The neurotically energetic Sarah runs a ludicrously upmarket restaurant whose potatoes are grown by Tassie's dad. At Christmas, Tassie goes home to the family farm where her brother, Robert, is poised to join the army. She will return there during the intensely moving and, in places, brilliantly weird final phase of the book. So the immediate focus of the novel life in a college town is framed by the immensity of the surrounding prairie, whose seasons and endlessly changing monotony are captured in a series of virtuoso passages. Tassie learns that despair means "mistaking a small world for a large one and a large one for a small"; but how to avoid such an error when small and large college and prairie are prey to the same implacable meteorological and historical forces?
But let's stick, for a moment, with the small stuff, with Moore's eye for absurdist, hi-def detail: the mouth of the meth addict with its "crooked teeth, bits of shell awash on a reef of gum"; the fortune cookie that looks like "a short paper nerve baked in an ear"; the wonderful, late-night glimpse of married life when Tassie overhears Sarah saying to her husband: "You emptied the top rack of the dishwasher but not the bottom, so the clean dishes have gotten all mixed up with the dirty ones and now you want to have sex?" There's tons of this kind of thing, cute and psychologically acute, but there's also the sense of something sky-vast and doom-laden, "full of sorrow and truth", bearing down from the past or about to loom up from the future.
The past trauma turns out to be Sarah's, though it will taint the present and be passed on to Emmie, one of whose first attempts at speech is "Uh-oh!": "She already knew both the sound and the language of things going wrong." The future history, so to speak, is latent in Robert's posting to Afghanistan and by the way that the Brazilian boy Tassie is dating turns out a tad implausibly to be
Ah, but that would be telling, wouldn't it? Reviews are not supposed to give the game away, even though certain works the best ones, arguably are not harmed by spoilers. On first reading A Gate at the Stairs, one can become not frustrated, exactly, but impatient with Moore's determinedly lackadaisical way of proceeding. Second time around, when you know what's going to happen, when you give yourself up to the book's unusual and distinctive rhythm, it quivers on the brink of being a masterpiece. That quivering, that slight feeling of uncertainty (like "candlelight vibrating the room") is entirely appropriate given Moore's hesitant engagement with the demands of a big novel and the protracted gestation of this, her eventual response and solution.
Uninterested in narrative locomotion, Moore advances her story while appearing to let it drift sideways, roll backwards or even, at times, to stall. In the middle of Tassie's first conversation with Sarah, at a point in the novel when convention decrees that this scene and these characters are fixed in the reader's mind, Tassie remembers, instead, how her father "took to driving his combine down country roads to deliberately slow up traffic. 'I had them backed up seventeen deep,' he once boasted to my mom". And after a while, he might have added, none of them wanted to be any place else. They were glad to be along for the ride.
Geoff Dyer's most recent novel is Jeff in Venice, Death in Varanasi (Canongate)
Lorrie Moore's Midwest Chronicle
Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle
MADISON, Wis. Lorrie Moore had just begun working on what would become her new novel, "A Gate at the Stairs," when she told one interviewer that she was writing a book "about hate."
Later she recalled telling someone else that it was a novel about chores.
In May, speaking to a roomful of booksellers at BookExpo America, the publishing industry's annual convention, she said she had written a book her first in 11 years about a 20-year-old woman because she viewed 20 as "the universal age of passion."
And in a recent interview at a brasserie here, two blocks from her home in a neighborhood of colorful Victorian and prairie-style houses, Ms. Moore described the book as a meditation on "what it meant to be in this town in the Midwest in this particular time in contemporary America."
As it turns out, Ms. Moore's slippery characterizations of "A Gate at the Stairs," published on Tuesday by Alfred A. Knopf, are quite apt.
The novel takes place in the aftermath of 9/11, with the threat of terrorism and war hovering over a liberal university town described as "the Athens of the Midwest."
It also features a prickly couple, Sarah Brink and Edward Thornwood, whose marital relations sometimes veer toward something that looks like hate. Tassie Keltjin, the 20-year-old college student who narrates the novel, falls in love, for the first time, with a mysterious foreign student. Passion ensues.
And about those chores: during one of the book's most startling revelations, the housecleaner can be heard "at the back door, with his stabbing, fidgeting key in the lock and his clanking pails and mops."
Ms. Moore's fans ardent, even cultish have been waiting ever since "Birds of America," her last book, a story collection, was published in 1998. That book, widely praised, broke onto the New York Times hardcover fiction best-seller list for five weeks.
It also subjected Ms. Moore, who at 52 still seems girlish with her shoulder-length brown hair and voice that swoops from low to high registers, to the intruding curiosity of those who wanted to know more about her personal life after reading "People Like That Are the Only People Here," a short story about a baby with cancer that Ms. Moore acknowledged was somewhat autobiographical.
"The problem of course is you don't want everyone talking about your kid," Ms. Moore said, recalling the rounds of publicity. "And that was really hard to avoid."
This time around she is remaining circumspect about any autobiographical antecedents to "A Gate at the Stairs," her seventh book.
In one of the novel's central plotlines, Tassie takes a job as a baby sitter working for Sarah, the owner of a local restaurant, and Edward, a cancer researcher, as they adopt a part-black baby girl. As the girl's devoted caregiver, Tassie is exposed to both explicit and implicit racism. Ms. Moore's own teenage son is adopted and part African-American, but she would say only that some of the incidents in the novel may have happened to other children and parents she knew.
Instead she invoked "Madame Butterfly" and "Jane Eyre," works that feature themes of abandonment and orphanhood. "I'm interested in adoption because those kids become Jane Eyre," said Ms. Moore, alternately sipping from a cup of coffee and a small glass of pale Belgian beer. "Not to push the 'Jane Eyre' thing too much, but of course there is that racial aspect to it," she said, alluding to the Creole heritage of the Mrs. Rochester character. "And there's a racial component to 'Madame Butterfly,' so these were the Ur-texts hovering over my desk while I just barreled ahead and wrote a Midwestern story."
As one of the most nuanced writers working today, Ms. Moore is as likely to write about sweeping themes as she is to deliver sharp-witted and trenchant observations about life's small moments. Her career has been building since she sold her first story collection, "Self-Help," at 26, gaining instant literary credibility.
"Moore may be, exactly, the most irresistible contemporary American writer," the novelist Jonathan Lethem wrote in The New York Times Book Review on Sunday. "Brainy, humane, unpretentious and warm; seemingly effortlessly lyrical; Lily-Tomlin-funny. Most of all, Moore is capable of enlisting not just our sympathies but our sorrows."
And in her review last week in The Times, Michiko Kakutani wrote that "in this haunting novel, Ms. Moore gives us stark, melancholy glimpses into her characters' hearts."
In "A Gate at the Stairs" those sorrows and melancholy glimpses come in some brutally heart-rending scenes. "There are times when you feel like stepping into a dark dream, and you really want to travel to some very unhappy place," Ms. Moore said, "in order, in some ways, to close the book and step away from it."
Ms. Moore, who had recently had cataracts diagnosed and sometimes used prescription sunglasses to see inside, said that part of the reason it took her so long to finish the novel was that she could not bring herself to write those devastating passages.
"There were certain scenes that felt so heartbreaking to me that I didn't know how I was going to write them," she said. "I cried all the way through the writing of it."
Then there were the more practical constraints on her time. Since 1984 Ms. Moore has taught creative writing at the University of Wisconsin, Madison, and eight years ago she divorced her husband (no, she doesn't want to talk about it) and is now raising her son as a single mother.
Ms. Moore sees such challenges falling disproportionately on women. "You look out into the world and you say, 'Who are the working meaning you also have a job, not just writing novels single moms who are writing novels that you want to read?' " she said.
Jayne Anne Phillips, a fellow writer and fan, said balancing a job and child-rearing with writing had shaped Ms. Moore's work. "The double edge of it is that I think any form of real spiritual surrender does inform one's work," Ms. Phillips said. "But the problem is that oftentimes one doesn't have time to write the work."
In "A Gate at the Stairs" Sarah struggles to juggle her fervent desire to be a mother with her all-consuming job as a restaurant owner. Writing about food allowed Ms. Moore to play with the terminology that was infiltrating menus around town. At one point Tassie reads a menu from Sarah's restaurant:
"There were ramps and fiddleheads, vinaigrettes and roux summer had not yet taken these away."
And then, in a moment of pure Lorrie Moore-ness, Tassie observes, "Though only now did I realize that roux was not spelled rue, as surely it should be and would be soon."
Although she has spent a quarter-century in the Midwest, Ms. Moore, who commuted between New York and Madison for several years, maintains some of the arch distance of the outsider. Strolling by an Indian restaurant near the state capitol, she sniffed the air and noted: "You walk around and you get a whiff of garlic and you feel like you are in a real city."
But living far from the literary nerve center of New York, she said, has allowed some liberties.
"If you live in Madison, Wis., and teach creative writing, you've already made some decisions about what you're going to do as an artist, and you're quite free to do as you please," she said. "Some people get their books on the best-seller list and then they count the number of weeks, and I just never want to live that way. I already have been luckier than I ever dreamed that I could ever be."
Masp volta a exibir obra-prima do século XVII
Masp volta a exibir obra-prima do século XVII
3 de setembro de 2009
Por Giovana Pastore
A partir da próxima quarta-feira, o Museu de Arte de São Paulo volta a exibir Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, pintura do artista francês Nicolas Poussin (1594-1665). O visitante que comparecer ao Masp, contudo, poderá ver cores a que talvez apenas os homens do século XVII testemunharam.
Após oito meses de restauro, a grande tela - são 3,72 m de comprimento e 1,66 m de altura - volta a ser uma das principais peças do acervo do museu paulistano. A restautação é parte das atividades do Ano da França no Brasil e ficou a cargo da brasileira Regina Costa Pinto Moreira, radicada na França e profissional do Museu do Louvre, de Paris.
O trabalho de recuperação - patrocinado pela empresa francesa CNP Assurances e sua subsidiária no Brasil, a Caixa Seguros, e orçada em 150.000 euros - poderá ser visto em detalhes no museu. Além da obra, estarão expostos detalhes do restauro, como fotografias que compuseram o dossiê que serviu de embasamento científico ao trabalho e também vídeos. O Sesc também prepara um documentário sobre o processo.
Os críticos garantem que a importância do pintor e da obra justificam o investimento - e também a visita ao museu. "Esse trabalho de conservação, de manutenção, eu diria até de resgate da obra, é muito importante",afirma Elza Ajzenberg, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da USP. Segundo o historiador e crítico da arte Rodrigo Naves, Poussin pode ser considerado um fundador da pintura francesa. "Ele é para a França o que Leonardo Da Vinci é para Itália", explica.
Nascido na França, Poussin realizou boa parte de seus trabalhos em Roma, com os olhos voltados para a cultura greco-romana. As pinturas pelas quais se tornou célebre tratam de temas mitológicos, como a que está no Masp, que retrata um ritual em homenagem ao deus da fertilidade, Príapo. O quadro pertenceu ao rei espanhol Filipe IV e, após as guerras napoleônicas do século XIX, passou pelas mãos de vários colecionadores privados até ser comprado pela galeria de Georges Wildenstein, que o vendeu ao brasileiro Assis Chateubriand, fundador do Masp, em 1953.
A artista - Escalada para recuperar a pintura, a restauradora Regina Costa Pinto Moreira é hoje uma estrela de primeira grandeza no universo da conservação da arte francesa. No currículo, ela acumula a recuperação de obras de gigantes da arte mundial como Goya e Manet. Formada na Espanha, com aperfeiçoamentos no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa e no Instituto Real do Patrimônio Artístico de Bruxelas, ela entrou para o Louvre por concurso, em 1973. Não saiu mais de lá.
O longo e trabalhoso processo de restauração inclui ainda uma curiosidade: encoberto sob camadas de tinta, estava pintada a figura do pênis ereto da figura mitológica Príapo. A camada, chamada de "repinte de pudor", fora acrescentada por volta do século XVIII: portanto, não existia no original e não atendia à vontade do artista.
"A intenção do restaurador é deixar a obra o mais próximo possível da intenção do artista, removendo as intervenções e repinturas da obra. O repinte sobre o falo era uma delas e foi removido", esclarece Karen Barbosa, restauradora do Masp e coordenadora do projeto. A descoberta não supreeendeu os especialistas. "O Príapo é uma figura ligada à fertilidade e sua representação normalmente vem com o pênis bem em evidência. Os gregos e romanos valorizavam muito o falo e a sexualidade. O fato de Himeneu estar vestido de mulher também é comum, isso era uma constante no teatro grego", conta Elza Ajzenberg.
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A brasileira que veio do Louvre e 'salvou' Poussin
3 de setembro de 2009
Por Giovana Pastore

Há dez anos o Masp planeja a restauração da pintura Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, realizada pelo pintor francês Nicolas Poussin na primeira metade do século XVII. Desde que a ideia surgiu, a baiana Regina da Costa Pinto Moreira foi o único nome cogitado para realizar o trabalho. "Ela é considerada uma das melhores restauradoras da França. É ela quem coloca a mão nos Leonardos do Louvre", explica Karen Barbosa, restauradora do museu paulistano, referindo-se ao mestre do Renascimento Leonardo Da Vinci. Regina já tocou - e salvou - trabalhos de outros ícones da história da arte, como os renascentistas italianos Rafael e Ticiano e os impressionistas franceses Monet e Manet. Na entrevista a seguir, a restauradora fala de seu trabalho e da emoção de participar da conservação do patrimônio brasileiro.
A senhora teve de abrir mão de muitos projetos na França para vir ao Brasil restaurar a pintura de Poussin. Por que decidiu vir?
À parte a grande importância do quadro, foi por uma razão sentimental. Eu sou brasileira e trabalho no Louvre, então vir para o Brasil restaurar um quadro de Poussin para o Masp foi uma coincidência muito feliz. Eu realmente cancelei muitos projetos, abri mão de muita coisa para poder estar aqui, mas fiz isso porque o projeto me entusiasmou.
Em que estado estava a obra?
O quadro estava muito danificado. Ele tinha rasgos, a pintura estava desgastada. O historiador francês Jacques Thuillier chegou a dizer que era difícil examinar o quadro porque dois terços dele estavam repintados.
Houve alguma particularidade nessa restauração?
Não. Exceto pelo falo de Príapo, que descobrimos sob alguns repintes. Essa foi uma revelação interessante, mas não surpreendeente, afinal Príapo, deus da fertilidade, sempre foi representado com o falo em ereção.
Quem teria coberto o falo?
Sabemos que o quadro ficou até pelo menos 1811 na Espanha e, como há um desenho do século XVIII no qual Príapo já aparece com o sexo escondido, é muito provável que o "repinte de pudor" tenha sido feito na própria corte espanhola.
Houve alguma outra descoberta durante o restauro?
Eu percebi modificações na indumentária do Himeneu. A sua camisa, por exemplo, não era vermelha no original, mas branca.
A senhora já restaurou outras obras de Poussin?
Sim. Eu restaurei Os Instrumentos de Música e A Visão de Santa Maria Romana, ambos do Louvre, e A Tempestade, do Museu de Belas Artes de Rouen.
Qual a importância do trabalho de Poussin?
Poussin é um grande mestre. Na escola francesa, ele tem um lugar muito privilegiado.
A senhora ficou satisfeita com o resultado do trabalho?
Fiquei. A satisfação de ver a obra mais próxima do original é enorme. E ela não é só minha, porque a obra é feita para o deleite do espectador. O fato de eu ter realizado esse trabalho, de tocar na obra, foi uma grande alegria. Além disso, agora a obra está consolidada: os repintes que a descaracterizavam foram retirados e as lacunas, que atrapalhavam a leitura das formas, preenchidas.
A senhora se sente um pouco autora das obras que restaura?
Não, absolutamente. Não devo, nem posso. Eu estou apenas a serviço do pintor. Meu papel é interpretar a obra, estudá-la, compreendê-la e só. Devo interferir o mínimo possível.
A sua restauração tem prazo de validade?
Eu acredito que não, porque empreguei os melhores materiais, que são muito estáveis e cuja aplicação pode ser revertida. Tudo que usamos, inclusive os solventes, vieram da França.
A senhora acredita que seu trabalho abrirá um precedente para outras restaurações de obras brasileiras?
Seria ótimo se isso acontecesse.
Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle
Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle
You Didn't Plagiarize, Your Unconscious Did
By Russ Juskalian | Newsweek Web Exclusive
Jul 7, 2009
The charge of plagiarism carries a special sort of shame. Take the case of Kaavya Viswanathan, the young writer whose 2006 debut novel, How Opal Mehta Got Kissed, Got Wild, and Got a Life, contained so many passages lifted from other books that her writing career was over by her junior year at Harvard. For those whose literary taste is at the opposite end of the spectrum from chick lit, consider Dante: he put the fraudulent in an even deeper circle of hell than the violent.
But could some alleged plagiaristslike Maureen Dowd, Chris Anderson, Elizabeth Hasselbeck, and even Viswanathan, who all either deny the charge, or blame their copying on unconscious mistakesbe guilty of psychological sloppiness rather than fraud? Could the real offense be disregard for the mind's subliminal kleptomania? And if it is real, is unconscious copying (or "cryptomnesia" to those who study the phenomenon) preventable? Or, seeing as Nietzsche ripped off a passage of Thus Spoke Zarathustra from something he'd read as a child, and former Beatle George Harrison was found guilty, in court, of unconsciously copying the music for his hit song, "My Sweet Lord"is cryptomnesia both unavoidable, and the perfect excuse?
According to Richard L. Marsh, a professor of cognitive psychology at the University of Georgia and a leading cryptomnesia researcher, Schneider is on the right track. "When people engage in creative activity, they are so involved in generating or coming up with something new or novel that they fail to protect against what they previously experienced," said Marsh. Over the last 20 years, Marsh has designed numerous models for studying cryptomnesia in the lab. An early study involved asking subjects to work with an unseen "partner" (actually a computer) to find unique words in a square array of letters, similar to the game Boggle. A short while after completing this task, the researchers asked each participant to recall the words they had personally found, and to generate new words neither the participant nor the participant's partner had previously been able to find.
The subjects plagiarized their partners roughly 32 percent of the time when trying to recall their own words, and up to 28 percent of the time when attempting to find previously unidentified words in the puzzle. Not only was plagiarism rampant, many subjects who plagiarized also checked a box indicating they were "positive" their answers had not previously been given by their partners.
Henry Roediger, a memory expert at Washington University in St. Louis, said that cryptomnesia is partially caused by the lopsidedness of our memories: it's easier to remember information than it is to remember its source. Under the right conditions, this quirk can even evoke false memories. In one study, the more times Roediger instructed participants to imagine performing a basic action (like, "sharpen the pencil") the more likely the participants were to recallincorrectlyhaving actually performed the action when asked about it later.
But misattributing memories from one source to another, whether from imagination to reality or from a friend to oneself, is only one of the psychological quirks behind unconscious plagiarism. Another is implicit memory, which Dan Schacter, a psychologist at Harvard, called, "the fact that we can sometimes remember information without knowing that we're remembering it."
The classic demonstration of implicit memory involves a psychological technique known as priming. When a person is exposed to a list of words (or "primed") in one setting, than later asked to come up with words from a specific category, say "types of fruit," in another setting, the person is more likely to name fruit that had appeared during the priming session than fruit that hadn't.
This result may not seem all that exciting, except that it also occurs with amnesiacs, who are unable to form conscious memories of the actual priming session. At the most basic level, says Schacter, this suggests that implicit memories are formed in different regions or systems of the brain than conscious memories. This disconnect, coupled with errors in remembering the source of ideas, words, or even whole phrases, may be responsible for cryptomnesia. "Unconscious plagiarism makes it sound like a pretty exceptional and unusual circumstance," said Roediger. "But I really think that at a very simple level, these things are happening all the time. You know, your friend uses some expression and you pick it up and use it too."
While unconscious plagiarism is embarrassing in cases where original creative output is expected, in most aspects of daily life it ranges from useful to indispensible. What is called cryptomnesia in one context is known as social learning theory in another. For example, children learn how to behave by unconsciously copying others, and friends strengthen their relationships when they assimilate each other's phrases, behaviors, and opinions.
But before we give high-profile cryptomnesiacs a free pass, as if they were suffering from an intractable psychological disorder, there's a bit more to know. Cryptomnesia happens more frequently between those who trust one another, such as people in romantic relationships or close friendships, but less frequently between strangersparticularly when the one whose ideas or words might be plagiarized is present. And due to our innate skepticism, unconsciously copying a person one doesn't know, or a source one doesn't yet trust, is uncommon.
We may plagiarize without knowing it, but we can guard against the risk with a little conscious effort. Taking diligent notes, reminding oneself to remember not just a good idea, but also its source, or simply pondering whether the clever phrase that popped into one's head is original, helps fend off cryptomnesia. Over the course of his research, Marsh has found that cryptomnesia is greatly reduced with subtle social pressure: if you are asked to come up with solutions to a problem in a group setting, and then quizzed on your contributions to the discussion afterward, you might unconsciously steal from fellow group members if the quiz takes place in privatebut not if it takes place in front of the original group.
Unconscious plagiarism does exist, but writers who don't take proactive steps to avoid it are often either being lazy, or they have a diminished fear of being caught. Driving is a good model: it is easy enough to drift over the speed limit without being aware of it, but vigilant drivers can prevent the habit by forcing themselves to pay conscious attention to the problem. And just as not knowing one's speed won't save one from a ticket, the fact that unconscious plagiarism isn't outright fraud doesn't make "It was cryptomnesia!" much of an excuse. Unconscious plagiarism may not be a "felony," said Schneider, but it's still a journalistic "misdemeanor."
El informe de Brodie Jorge Luis Borges
Jorge Luis Borges
1840) de Lane, que me consiguió mi querido amigo Paulino Keins,
descubrimos el manuscrito que ahora traduciré al castellano. La esmerada
caligrafía -arte que las máquinas de escribir nos están enseñando a perder-
sugiere que fue redactado por esa misma fecha. Lane prodigó, según se
sabe, las extensas notas explicativas; los márgenes abundan en adiciones,
en signos de interrogación y alguna vez en correcciones, cuya letra es
la misma del manuscrito. Diríase que a su lector le interesaron menos
los prodigiosos cuentos de Shahrazad que los hábitos del Islam. De David
Brodie, cuya firma exornada de una níbrica figura al pie, nada he
podido averiguar, salvo que fue un misionero escocés, oriundo de Aberdeen,
que predicó la fe cristiana en el centro de África y luego en ciertas
regiones selváticas del Brasil, tierra a la cual lo llevaría su
conocimiento del portugués. Ignoro la fecha y el lugar de su muerte. El manu
scrito, que yo sepa, no fue dado nunca a la imprenta.
permitirme otras omisiones que las de algún versículo de la Biblia y la
de un curioso pasaje sobre las prácticas sexuales de los Yahoos que el
buen presbiteriano confió pudorosamente al latín. Falta la primera
página.
morada los Mlch 1, que llamaré Yahoos, para que mis lectores no olviden su
naturaleza bestial y porque una precisa transliteración es casi
imposible, dada la ausencia de vocales en su áspero lenguaje. Los individuos
de la tribu no pasan, creo, de setecientos, incluyendo los Nr, que
habitan más al sur, entre los matorrales. La cifra que he propuesto es
conjetural, ya que, con excepción del rey, de la reina y de los hechiceros,
los Yahoos duermen donde los encuentra la noche, sin lugar fijo. La
fiebre palúdica y las incursiones continuas de los hombres-monos
disminuyen su número. Sólo unos pocos tienen nombre. Para llamarse, lo hacen
arrojándose fango. He visto asimismo a Yahoos que, para llamar a un
amigo, se tiraban por el suelo y se revolcaban. Físicamente no difieren de
los Kroo, salvo por la frente más baja y por cierto tinte cobrizo que
amengua su negrura. Se alimentan de frutos, de raíces y de reptiles;
beben leche de gato y de murciélago y pescan con la mano. Se ocultan
para comer o cierran los ojos; lo demás lo hacen a la vista de todos,
como los filósofos cínicos. Devoran los cadáveres crudos de los
hechiceros y de los reyes, para asimilar su virtud. Les eché en cara esa
costumbre; se tocaron la boca y la barriga, tal vez para indicar que los
muertos también son alimento o -pero esto acaso es demasiado sutil- para que
yo entendiera que todo lo que comemos es, a la larga, carne humana.
imprecaciones mágicas. Andan desnudos; las artes del vestido y del tatuaje les
son desconocidas.
dilatada y herbosa, en la que hay manantiales de agua clara y árboles que
dispensan la sombra, hayan optado por amontonarse en las ciénagas que
rodean la base, como deleitándose en los rigores del sol ecuatorial y de la
impureza. Las laderas son ásperas y formarían una especie de muro
contra los hombres-monos. En las Tierras Altas de Escocia los clanes erigían
sus castillos en la cumbre de un cerro, he alegado este uso a los
hechiceros, proponiéndolo como ejemplo, pero todo fue inútil. Me
permitieron, sin embargo, armar una cabaña en la meseta, donde el aire de la
noche es más fresco.
que los que verdaderamente gobiernan son los cuatro hechiceros que lo
asisten y que lo han elegido. Cada niño que nace está sujeto a un
detenido examen; si presenta ciertos estigmas, que no me han sido revelados,
es elevado a rey de los Yahoos. Acto continuo lo mutilan (he is
gelded), le queman los ojos y le cortan las manos y los pies, para que el
mundo no lo distraiga de la sabiduría. Vive confinado en una caverna, cuyo
nombre es Alcázar (Qzr), en la que sólo pueden entrar los cuatro
hechiceros y el par de esclavas que lo atienden y lo untan de estiércol. Si
hay una guerra, los hechiceros lo sacan de la caverna; lo exhiben a la
tribu para estimular su coraje y lo llevan, cargado sobre los hombros, a
lo más recio del combate, a guisa de bandera o de talismán. En tales
casos lo común es que muera inmediatamente bajo las piedras que le
arrojan los hombres-monos.
rey. Ésta se dignó recibirme; era sonriente; joven y agraciada, hasta
donde lo permite su raza. Pulseras de metal y de marfil y collares de
dientes adornan su desnudez. Me miró, me husmeó y me tocó y concluyó por
ofrecérseme, a la vista de todas las azafatas. Mi hábito (my cloth) y
mis hábitos me hicieron declinar ese honor, que suele conceder a los
hechiceros y a los cazadores de esclavos, por lo general musulmanes, cuyas
cáfilas (caravanas) cruzan el reino. Me hundió dos o tres veces un
alfiler de oro en la carne; tales pinchazos son las marcas del favor real y
no son pocos los Yahoos que se los infieren, para simular que fue la
reina la que los hizo. Los ornamentos que he enumerado vienen de otras
regiones; los Yahoos los creen naturales, porque son incapaces de
fabricar el objeto más simple. Para la tribu mi cabaña era un árbol, aunque
muchos me vieron edificarla y me dieron su ayuda. Entre otras cosas,
yo tenía un reloj, un casco de corcho, una brújula y una Biblia; los
Yahoos las miraban y sopesaban y querían saber dónde las había
recogido. Solían agarrar por la hoja mi cuchillo de monte; sin duda lo veían de
otra manera. No sé hasta dónde hubieran podido ver una silla. Una casa
de varias habitaciones constituiría un laberinto para ellos, pero tal
vez no se perdieran, como tampoco un gato se pierde, aunque no puede
imaginársela. A todos les maravillaba mi barba, que era bermeja entonces;
la acariciaban largamente.
carne cruda y rancia y las cosas fétidas. La falta de imaginación los
mueve a ser crueles.
escrito que son cuatro: este número es el mayor que abarca su aritmética.
Cuentan con los dedos uno, dos, tres, cuatro, muchos; el infinito empieza
en el pulgar. Lo mismo, me aseguran, ocurre con las tribus que
merodean en las inmediaciones de Buenos-Ayres. Pese a que el cuatro es la
última cifra de que disponen, los árabes que trafican con ellos no los
estafan, porque en el canje todo se divide por lotes de uno, de dos, de
tres y de cuatro, que cada cual pone a su lado. Las operaciones son
lentas, pero no admiten el error o el engaño. De la nación de los Yahoos, los
hechiceros son realmente los únicos que han suscitado mi interés. El
vulgo les atribuye el poder de cambiar en hormigas o en tortugas a
quienes así lo desean; un individuo que advirtió mi incredulidad me mostró
un hormiguero, como si éste fuera una prueba. La memoria les falta a los
Yahoos o casi no la tienen; hablan de los estragos causados por un
a invasión de leopardos, pero no saben si ellos la vieron o sus padres
o si cuentan un sueño. Los hechiceros la poseen, aunque en grado
mínimo; pueden recordar a la tarde hechos que ocurrieron en la mañana o aun
la tarde anterior. Gozan también de la facultad de la previsión;
declaran con tranquila certidumbre lo que sucederá dentro de diez o quince
minutos. Indican, por ejemplo: Una mosca me rozará la nuca o No
tardaremos en oír el grito de un pájaro. Centenares de veces he atestiguado este
curioso don. Mucho he vacilado sobre él. Sabemos que el pasado, el
presente y el porvenir ya están, minucia por minucia, en la profética
memoria de Dios, en Su eternidad; lo extraño es que los hombres puedan
mirar, indefinidamente, hacia atrás pero no hacia adelante. Si recuerdo con
toda nitidez aquel velero de alto bordo que vino de Noruega cuando yo
contaba apenas cuatro años ¿a qué sorprenderme del hecho de que alguien
sea capaz de prever lo que está a punto de ocurrir? Filosóficament
e, la memoria no es menos prodigiosa que la adivinación del futuro; el
día de mañana está más cerca de nosotros que la travesía del Mar Rojo
por los hebreos, que, sin embargo, recordamos. A la tribu le está
vedado fijar los ojos en las estrellas, privilegio reservado a los
hechiceros. Cada hechicero tiene un discípulo, a quien instruye desde niño en
las disciplinas secretas y que lo sucede a su muerte. Así siempre son
cuatro, número de carácter mágico, ya que es el último a que alcanza la
mente de los hombres. Profesan, a su modo, la doctrina del infierno y del
cielo. Ambos son subterráneos. En el infierno, que es claro y seco,
morarán los enfermos, los ancianos, los maltratados, los hombres-monos,
los árabes y los leopardos; en el cielo, que se figuran pantanoso y
oscuro, el rey, la reina, los hechiceros, los que en la tierra han sido
felices, duros y sanguinarios. Veneran asimismo a un dios, cuyo nombre es
Estiércol, y que posiblemente han ideado a imagen y semejanza del r
ey; es un ser mutilado, ciego, raquítico y de ilimitado poder. Suele
asumir la forma de una hormiga o de una culebra.
estadía no lograra la conversión de un solo Yahoo. La frase Padre
nuestro los perturbaba, ya que carecen del concepto de la paternidad. No
comprenden que un acto ejecutado hace nueve meses pueda guardar alguna
relación con el nacimiento de un niño; no admiten una causa tan lejana y
tan inverosímil. Por lo demás, todas las mujeres conocen el comercio
carnal y no todas son madres.
noticia. No podemos hablar de partes de la oración, ya que no hay
oraciones. Cada palabra monosílaba corresponde a una idea general, que se
define por el contexto o por los visajes. La palabra nrz, por ejemplo,
sugiere la dispersión o las manchas; puede significar el cielo
estrellado, un leopardo, una bandada de aves, la viruela, lo salpicado, el acto
de desparramar o la fuga que sigue a la derrota. Hrl, en cambio, indica
lo apretado o lo denso; puede significar la tribu, un tronco, una
piedra, un montón de piedras, el hecho de apilarlas, el congreso de los
cuatro hechiceros, la unión carnal y un bosque. Pronunciada de otra manera
o con otros visajes, cada palabra puede tener un sentido contrario. No
nos maravillemos con exceso; en nuestra lengua, el verbo to cleave vale
por hendir y adherir. Por supuesto, no hay oraciones, ni siquiera
frases truncas.
sugiere que los Yahoos, pese a su barbarie, no son una nación primitiva
sino degenerada. Confirman esta conjetura las inscripciones que he
descubierto en la cumbre de la meseta y cuyos caracteres, que se asemejan a
las runas que nuestros mayores grababan, ya no se dejan descifrar por la
tribu. Es como si ésta hubiera olvidado el lenguaje escrito y sólo le
quedara el oral.
ejecuciones. Alguien es acusado de atentar contra el pudor de la reina o
de haber comido a la vista de otro; no hay declaración de testigos ni
confesión y el rey dicta su fallo condenatorio. El sentenciado sufre
tormentos que trato de no recordar y después lo lapidan. La reina tiene el
derecho de arrojar la primera piedra y la última, que suele ser
inútil. El gentío pondera su destreza y la hermosura de sus partes y la
aclama con frenesí, arrojándole rosas y cosas fétidas. La reina, sin una
palabra, sonríe. Otra costumbre de la tribu son los poetas. A un hombre se
le ocurre ordenar seis o siete palabras, por lo general enigmáticas.
No puede contenerse y las dice a gritos, de pie, en el centro de un
círculo que forman, tendidos en la tierra, los hechiceros y la plebe. Si el
poema no excita, no pasa nada; si las palabras del poeta los
sobrecogen, todos se apartan de él, en silencio, bajo el mandato de un horro
r sagrado (under a holy dread). Sienten que lo ha tocado el espíritu;
nadie hablará con él ni lo mirará, ni siquiera su madre. Ya no es un
hombre sino un dios y cualquiera puede matarlo. El poeta, si puede, busca
refugio en los arenales del Norte.
recordará que me cercaron, que tiré al aire un tiro de fusil y que tomaron la
descarga por una suerte de trueno mágico. Para alimentar ese error,
procuré andar siempre sin armas. Una mañana de primavera, al rayar el día,
nos invadieron bruscamente los hombres-monos; bajé corriendo de la
cumbre arma en mano, y maté a dos de esos animales. Los demás huyeron,
atónitos. Las balas, ya se sabe, son invisibles. Por primera vez en mi
vida, oí que me aclamaban. Fue entonces, creo, que la reina me recibió. La
memoria de los Yahoos es precaria; esa misma tarde me fui. Mis
aventuras en la selva no importan. Di al fin con una población de hombres
negros, que sabían arar, sembrar y rezar y con los que me entendí en
portugués. Un misionero romanista, el Padre Fernandes, me hospedó en su
cabaña y me cuidó hasta que pude reanudar mi penoso viaje. Al principio me
causaba algún asco verlo abrir la boca sin disimulo y echar adentro
piezas de comida. Yo me tapaba con la mano o desviaba los ojos; a los
pocos días me acostumbré. Recuerdo con agrado nuestros debates en
materia teológica. No logré que volviera a la genuina fe de Jesús.
no su horror esencial, que nunca me deja del todo y que me visita en
los sueños. En la calle creo que me cercan aún. Los Yahoos, bien lo sé,
son un pueblo bárbaro, quizás el más bárbaro del orbe, pero sería una
injusticia olvidar ciertos rasgos que los redimen. Tienen instituciones,
gozan de un rey, manejan un lenguaje basado en conceptos genéricos,
creen, como los hebreos y los griegos, en la raíz divina de la poesía y
adivinan que el alma sobrevive a la muerte del cuerpo. Afirman la verdad
de los castigos y de las recompensas. Representan, en suma, la
cultura, como la representamos nosotros, pese a nuestros muchos pecados. No me
arrepiento de haber combatido en sus filas, contra los hombres-monos.
Tenemos el deber de salvarlos: Espero que el Gobierno de Su Majestad no
desoiga lo que se atreve a sugerir este informe."
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