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HAUSER

 

Até o século XVIII, os autores nunca haviam sido outra coisa

senão os porta-vozes do seu público; cuidavam dos seus leitores,

assim como os criados e empregados tratavam dos seus bens

materiais. Aceitavam e confirmavam os princípios morais e os critérios

de gosto geralmente reconhecidos, não os inventavam nem

os alteravam (...) É só no século XVIII que o público se separa

em dois campos diferentes, e a arte em duas tendências rivais.

Daí por diante, cada artista é confrontado por uma dualidade de

ordens opostas: o mundo da aristocracia conservadora e o da

burguesia progressiva, entre um grupo que se agarra obstinadamente

aos velhos valores, tradicionais e supostamente absolutos,

e outro que se baseia no ponto de vista de que mesmo esses

valores, e eles mais do que nada, são historicamente condicionados,

e que outros, mais recentes, estão mais de acordo com o

bem geral.

 

HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte, Tomo II.

Trad.: Walter Geenen. 3ª ed. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1982, p 884.

Samuel Beckett, Não Eu, 1972.

...re-explorando no passado...

pequenas cenas claras...

sobretudo passeios...

toda sua vida a passar...todos os dias de sua vida...

dia após dia...dois, três passos, depois pára...os olhos no vazio...

depois faz ainda dois, três...pára e o vazio de novo...assim segue...

a deriva...dia após dia...ou às vezes ela chora....sozinha com sua

recordação...desde os cueiros...do chorar nos cueiros...talvez não...

não indispensável a vida...a sobrevida...soluçar um ponto é tudo.

S. Beckett, Não Eu, 1972.

 

A volta do caderno rabugento - João Ubaldo Ribeiro

jORNAL O GLOBO, 18 de julho de 2010
Não sei se vocês se lembram de quando lhes falei, acho que no ano passado,
num caderninho rabugento que eu mantenho. Aliás, é um caderninho para
anotações diversas, mas as únicas que consigo entender algum tempo depois
são as rabugentas, pois as outras se convertem em hieróglifos indecifráveis
(eu sei que o recomendado é "hieróglifo", mas sempre achei que quem diz
"hieróglifo" está tentando descolar alguma coisa dos dentes), assim que
fecho o caderno. Claro, é o reacionarismo próprio da idade, pois, afinal, as
línguas são vivas e, se não mudassem, ainda estaríamos falando latim. Mas,
por outro lado, se alguém não resistir, a confusão acaba por instalar-se e,
tenho certeza, a língua se empobrece, perde recursos expressivos, torna-se
cada vez menos precisa.
Quer dizer, isso acho eu, que não sou filólogo nem nada e vivo estudando nas
gramáticas, para não passar vexame. Não se trata de impor a norma culta a
qualquer custo, até porque, na minha opinião, está correto o enunciado que,
observadas as circunstâncias do discurso, comunica com eficácia. Não é
necessário seguir receituários abstrusos sobre colocação de pronomes e fazer
ginásticas verbais para empregar regras semicabalísticas, que só têm como
efeito emperrar o discurso. Mas há regras que nem precisam ser formuladas ou
lembradas, porque são parte das exigências de clareza e precisão - e essas
deviam ser observadas. Não anoto, nem tenho qualificações para isto, com a
finalidade de apontar o "erro de português", mas a má ou inadequada
linguagem.
E devo confessar que fico com medo de que certas práticas deixem de ser
modismo e virem novas regras, bem ao gosto dos decorebas. É o que acontece
com o, com perdão da má palavra, anacolutismo que grassa entre os falantes
brasileiros do português. Vejam bem, nada contra o anacoluto, que tem nome
de origem grega e tudo, e pode ser uma figura de sintaxe de uso legítimo. O
anacoluto ocorre, se não me trai mais uma vez a vil memória, quando um
elemento da oração fica meio pendurado, sem função sintática. Há um
anacoluto, por exemplo, na frase "A democracia, ela é a nossa opção". Para
que é esse "ela" aí? Está certo que, para dar ênfase ou ritmo à fala, isso
seja feito uma vez ou outra, mas como prática universal é meio enervante. De
alguns anos para cá, só se fala assim, basta assistir aos noticiários e
programas de entrevistas. Quase nenhum entrevistado consegue enunciar uma
frase direta, na terceira pessoa - sujeito, predicado, objeto - sem dobrar
esse sujeito anacoluticamente (perdão outra vez). Só se diz "o policiamento,
ele tem como objetivo", "a prevenção da dengue, ela deve começar", "a
criança, ela não pode" e assim por diante. O escritor, ele teme seriamente
que daqui a pouco isso, ele vire regra.
E os verbos em "izar"? Não sei se vocês já notaram que há muito tempo,
principalmente por escrito, ninguém vê, enxerga, discerne, descortina, ou
qualquer outro sinônimo decente. Agora só se visualiza, mais nada e, em
Itaparica, ouvi de um menino turista a comunicação, feita ao pai dele, de
que estava visualizando de binóculo. "Vender" tem sofrido uma sabotagem
inclemente por parte de "comercializar" e não duvido nada que venha a ser
banido, assim como foram "pôr" e "botar". Hoje em dia, o verbo "colocar"
perdeu o sentido mais preciso que tinha e substitui os dois outros,
inclusive em usos tradicionais. A galinha coloca ovo, dando a impressão,
para quem aprendeu o uso mais específico desse verbo, de que a galinha faz a
postura (aliás, talvez devesse dizer "colocação") ajustando cuidadosamente o
fiofó num canto do ninho escrupulosamente escolhido. O mesmo tipo de
impressão se tem, quando se ouve no noticiário que alguém colocou fogo num
barraco. Atear fogo, nem pensar. Virá o dia em que alguém vai colocar pra
quebrar. E já ouvi também (ou vi escrito; com esse negócio de internet, não
sei mais o que li onde) "ajustabilizar" e "ausentabilizar", este último, a
julgar pelo som, um verbo que haverá de ter lá sua serventia, usado em
relação ao Congresso Nacional.
"Prejudicar", com longa e honrada folha de serviços prestados ao povo
brasileiro, também está no caminho célere do ostracismo. Ninguém mais é
prejudicado, agora todo mundo é penalizado. Quem estiver pensando em usar a
palavra no sentido antigo melhor fará se a substituir por "comiserar",
enquanto esta ainda se encontra disponível, pois, no futuro, "comiserado"
poderá ser a designação aplicada por alguma ONG a companheiros de miséria no
Terceiro Mundo. "Personalizar", palavra com mais de cem anos de batente,
agora está de aviso prévio e marchará para o esquecimento a que lhe votam os
cada vez mais numerosos aficionados de "customizar". Os verbos em "ionar"
também desfrutam de grande voga e um deles, "posicionar", já mandou "dispor"
para o espaço. Nenhum general dispõe mais suas tropas assim ou assado, não
mais se dispõem as peças de um jogo de tabuleiro. E se arruma bem menos que
no passado. Acho que qualquer técnico de futebol contemporâneo ficaria
ofendido, se alguém comentasse que ele arrumou seu time assim ou assado,
porque ele posiciona, tudo é posicionado. Da mesma forma que "colocar",
fica, por alguma razão, mais chique.
Finalmente, para não perder o costume, faço mais um réquiem para o finado
"cujo". Tenho a certeza de que, entre os muito jovens, a palavra é
desconhecida e não deverá ter mais uso, dentro de talvez uma década. A gente
até se acostuma a ouvir falar em espécies em extinção, mas, não sei por que,
palavras em extinção me comovem mais, vai ver que é porque vivo delas. E não
é consolo imaginar que o cujo e eu vamos nos defuntabilizar juntos.
?
 "(...) ainda que nunca venhas a conhecer estas linhas, a narrativa desaba, e finjo que existas, é isso; quanto à sucessão de eventos, todos misteriosos, todos absurdamente compulsivos, e quase teatrais, o barulho no noticiário e os cochichos pelas esquinas, ainda não explico a mim mesmo o que de farsa, o que de um cetim rasgando-se no silêncio das galerias da noite(WILSON BUENO, "Amar-te a ti nem sei se com carícias", 2004, p. 26). 

Do filme "The Hours"

"Dear Leonard. To look life in the face, always, to look life in the face and to know it for what it is. At last to know it, to love it for what it is, and then, to put it away. Leonard, always the years between us, always the years. Always the love. Always the hours."

Aldous Huxley-NINTH PHILOSOPHER'S SONG


NINTH PHILOSOPHER'S SONG

GOD'S in His Heaven: He never issues
Jr. (Wise Man!) to visit this world of ours.
Unchecked the cancer gnaws our tissues,
Stops to lick chops and then again devours.

Those find, who most delight to roam
'Mid castles of remotest Spain,
That there's, thank Heaven, no place like home;
So they set out upon their travels again.

Beauty for some provides escape,
Who gain a happiness in eyeing
The gorgeous buttocks of the ape
Or Autumn sunsets exquisitely dying.

And some to better worlds than this
Mount up on wings as frail and misty
As passion's all-too-transient kiss
(Though afterwards — oh, omne animal triste!)

But I, too rational by half
To live but where I bodily am,
Can only do my best to laugh,
Can only sip my misery dram by dram.

While happier mortals take to drink,
A dolorous dipsomaniac,
Fuddled with grief I sit and think,
Looking upon the bile when it is black.

Then brim the bowl with atrabilious liquor!
We'll pledge our Empire vast across the flood:
For Blood, as all men know, than Water's thicker.
But water's wider, thank the Lord, than Blood.

NONA CANÇÃO DO FILÓSOFO

DEUS está em Seu Céu: Ele nunca manda
(Quão Sábio!) seu guri aqui em visita.
Incógnito o câncer nos morde a vianda,
Nos lambe os pedaços e regurgita.

Uns acham (os que mais fruem vagar
Pelos castelos da longínqua Espanha)
Que não há nada como o próprio lar;
E logo partem a outra terra estranha.

A alguns a beleza oferece fuga,
Os que se prazem na contemplação
Das nádegas das primatas sem ruga
Ou dos crepúsculos em explosão.

E outros alçam voos com asas frágeis
Rumando a mundos melhores do que este,
Movidos por paixões, beijos voláteis
(Pesar que após – ó, omne animal triste!).

Mas eu, tão racional até a raiz
Dessa fração que o corpo não me abole,
Só posso mesmo me esforçar em rir,
Só posso sorver meu fel gole a gole.

Enquanto os mais felizes enchem taças,
Eu, um doloroso dipsomaníaco,
Embaraçado nas minhas desgraças,
Medito em minha bile de cardíaco.

Então: taça cheia e atrabiliária!
Brindemos nosso vasto Império-mangue:
Pois Sangue, sabe-se, é mais denso que água
Mas a água, salve!, é mais larga que o Sangue.

Aldous Huxley
versão brasileira:
Ivan Justen Santana

WHAT ENCHANTS

O QUE ME ENCANTA É O ESTÍMULO,NÃO O EFEITO; O QUE ME CATIVA É O CURSO, NÃO O RECURSO; O QUE ME CHAMA É A TESE, NÃO A CERTEZA.

WHAT ENCHANTS ME IS THE STIMULUS, NOT THE EFFECT; WHAT CAPTIVATES ME IS THE COURSE, NOT THE RESOURCE; WHAT CALLS ME IS THE THESIS NOT THE CERTAINTY.

Briga no Beco - Adélia Prado

Briga no Beco 
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
 
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
 
Ataquei-os por trás com mãos e palavras
que nunca suspeitei conhecesse.
 
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
 
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
 
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea ofendida,
uivava.
 
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
 
Quando não pude mais, fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
 
Desde então faço milagres.
 
 
 
* É boa demais da conta essa mineira, né!?
 
Bjs,
 
Cintia

 

"melancholía". Estado de tristeza.

MELANCOLIA = Substantivo feminino. Do grego μελαγχολία – (melagcholía; de μέλας - mélas, "negro" e χολή - cholé, "bílis"

 

Sophia de Mello Breyner - "Poema de Helena Lanari"

Gosto de ouvir o Português do Brasil

Onde as palavras recuperam sua substância total

Concretas como frutos, nítidas como pássaros 

Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas

Sem perder sequer um quinto de vogal 

Quando Helena Lanari dizia 'coqueiro"

O coqueiro ficava muito mais vegetal

CARLOS E JOÃO

Música

Uma coisa triste no fundo da sala.

Me disseram que era Chopin.

A mulher de braços redondos que nem coxas

martelava na dentadura dura

sob o lustre complacente.

Eu considerei as contas que era preciso pagar,

os passos que era preciso dar,

as dificuldades...

Enquadrei o Chopin na minha tristeza

e na dentadura amarela e preta

meus cuidados voaram como borboletas.

(Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia)

 

SOBRE O SENTAR-/ESTAR-NO-MUNDO

Ondequer que certos homens se sentem

sentam poltrona, qualquer o assento,

Sentam poltrona: ou tábua-de-latrina,

assento além de anatômico, ecumênico,

exemplo único de concepção universal,

onde cabe qualquer homem e a contento.

*

Ondequer que certos homens se sentem

sentam banco ferrenhos, de colégio;

por afetuoso e diplomata o estofado,

os ferem nós debaixo, senão pregos,

e mesmo a tábua-de-latrina lhes nega

o abaulado amigo, as curvas de afeto.

A vida toda, se sentam mal sentados,

e mesmo de pé algum assento os fere:

eles levam em si os nós-senão-pregos,

nas nádegas da alma, em efes e erres.

(João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra)

These foolish things remind me of you



A cigarette that bares a lipsticks traces
An airline ticket to romantic places
And still my heart has wings
These foolish things remind me of you.
A tinkling piano in the next apartment
Those stumblin´ words that told you what my heart meant
A fairground´s painted swings
These foolish things
Remind me of you.
You came,
You saw,
You conquered me
When you did that to me
I knew somehow this had to be
The winds of march that made my heart a dancer
A telephone that rings but who�s to answer
Oh, how the ghost of you clings
These foolish things
Remind me of you
First daffodils
And long excited cables
And candle lights
A little corner table
And still my heart has wings
These foolish things remind me of you
The park at evening
When the bell has sounded
The pier in france
With all the gulls around it
The beauty that is spring
These foolish things
Remind me of you
How strange,
How sweet,
To find you still,
These things are dear to me
They seem to bring you near to me
The sigh of midnight trains
At empty stations
Silk stockings thrown aside
Dance invitations
Oh how the ghost of you clings
These foolish things
Remind me of you
Gardenia perfume
Lingering on a pillow
Wild strawberries
Only seven francs a kilo
And still my heart has wings,
These foolish things,
Remind me of you
The smile of garbo
And the scent of roses
The waiters whistling
As the last bar closes
The song that crosby sings
These foolish things
Remind me of you
How strange
How sweet
To find you still
These things are dear to me
They seem to bring you near to me
The scent of smoldering leaves
The wail of steamers
Two lovers on the street
Who walk like dreamers
Oh how the ghost of you clings
These foolish things
Remind me of you.

ANGEL EYES



Try to think that love's not around
But it's uncomfortably near
My old heart ain't gaining no ground
Because my angel eyes ain't here

Angel eyes, that old devil sent
They glow unbearably bright
Need I say that my love's mispent
Mispent with angel eyes tonight

So drink up all you people
Order anything you see
Have fun you happy people
The laughs and the jokes are on me

Pardon me but I got to run
The fact's uncommonly clear
Got to find who's now number one
And why my angel eyes ain't here
Oh, where is my angel eyes

Excuse me while I disappear
Angel eyes, angel eyes.

BLACK COFEE



I'm feeling mighty lonesome


Haven't slept a wink

I walk the floor and watch the door

And in between I drink

Black coffee

Love's a hand me down brew

I'll never know a Sunday

In this weekday room



I'm talking to the shadows

from 1 o'clock til 4

And lord, how slow the moments go

When all I do is pour

Black coffee

Since the blues caught my eye

I'm hanging out on Monday

My Sunday dreams to dry



Now a man is born to go a lovin'

A woman's born to weep and fret

To stay at home and tend her oven

And drown her past regrets

In coffee and cigarettes



I'm moaning all the morning

and mourning all the night

And in between it's nicotine

And not much heart to fight

Black coffee

Feelin' low as the ground

It's driving me crazy just waiting for my baby

To maybe come around... around

I'm waiting for my baby

To maybe come around



My nerves have gone to pieces

My hair is turning gray

All I do is drink black coffee

Since my man's gone away

letramento

 
Habilidade com a leitura e a escrita
Estado de Minas, 14/02/2006 - Belo Horizonte MG
Ana Elisa Ribeiro

           O conceito de letramento, muito divulgado no Brasil, nas pesquisas da área de educação pela professora Magda Soares (entre outras), deixou de lado o contraste entre pessoas que sabem e que não sabem ler. O letramento considera graus de intimidade do indivíduo com materiais de escrita e de leitura. Para não assustar ninguém, é bom deixar claro que o letramento é algo que está em nosso dia-a-dia. Nada mais é do que parte de nossa necessidade diária de ação pela linguagem, especialmente lendo e escrevendo.

            Quando alguém sabe ler, mas não consegue compreender sequer textos curtos, essa pessoa pode ser alfabetizada, mas tem um nível de letramento muito baixo. Esse nível pode aumentar à medida que o indivíduo aprende a lidar com mais e diferentes materiais de leitura e de escrita. Quanto mais textos alguém é capaz de ler e entender, mais letrado é. Assim também funciona com a escrita. Quanto mais material escrito alguém é capaz de produzir, mais letramento tem. E não adianta produzir apenas em quantidade. É preciso ampliar o leque de possibilidades, ou seja, ler muitas coisas diferentes e saber o que fazer com elas.

            Por exemplo: você é capaz de ler bem uma tirinha? Sabe lidar com o texto do rótulo de uma lata de ervilhas? Consegue produzir um bom bilhete para um familiar? Pode se mover na cidade lendo as placas de rua? Sabe como procurar informações numa bula de remédio? Então você tem letramento suficiente para o dia-a-dia. O caixa eletrônico do banco é mais uma possibilidade de letramento. Já que está numa máquina, ficou sendo chamado de letramento digital. As pessoas que entraram nesse tipo de letramento podem atuar na linguagem por meio da leitura e da escrita de textos produzidos no e para o computador, estejam eles na internet ou nos programas de produção e leitura de material textual.

            Uma instituição de ensino é a responsável, em grande medida, pelo aumento do letramento das pessoas. É lá que o indivíduo deixa de ler e escrever apenas os textos do dia-a-dia e passa a ter contato com materiais elaborados de maneira diferente, às vezes mais complexos e menos comuns no cotidiano. Na escola, aprendemos a escrever as famosas dissertações. Na faculdade, chovem os resumos, as resenhas e as tenebrosas monografias. Os artigos científicos tornam-se a leitura predileta de quem resolve se especializar na carreira. E, mais tarde, para quem se aprofunda, chegam as dissertações e teses. A leitura literária faz parte da ampliação do letramento. Tudo isso faz aumentar, também, a quantidade e a qualidade das informações na nossa memória, ou seja, nossa bagagem cultural. Isso é letramento. E quando alguém também domina os textos feitos na e para a tela do computador, isso é letramento digital.

            Quando o indivíduo entra numa agência bancária e não consegue lidar com as orientações escritas na máquina, é preciso introduzi-lo nessa nova possibilidade de leitura. As escolas, há vários anos, têm oferecido computadores e laboratórios de informática aos alunos para que todos tenham acesso às novas maneiras de ler e escrever. No entanto, nem sempre apenas as máquinas bastam.  É preciso que o professor planeje uma nova maneira de dar aulas, um novo jeito de ensinar, com novas tecnologias.  Isso é aumentar o letramento e entrar no mundo das possibilidades digitais.

Mais Informações:
Ana Elisa Ribeiro é professora do Centro Universitário UNA, doutoranda pela UFMG e autora de Letramento digital: aspectos sociais e possibilidades pedagógicas.

DO AMOROSO ESQUECIMENTO


Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mario Quintana - Espelho Mágico

FOLIA ELEGANTE




FOLIA ELEGANTE DE Andrea Carvalho Stark -  REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, FEVEREIRO DE  2010, NÚMERO 53, na banca de jornal mais próxima...

Um pouquinho aqui...http://rhbn.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2888

Jorge Luis Borges, Sobre a amizade e outros diálogos

Quando algo acontece, já aconteceu há muito tempo, mas de um modo íntimo, ou seja, os fatos simplesmente vêm confirmar algo anterior. (...) Quando acontece alguma coisa, algo adverso, significa simplesmente que recebemos uma carta em que nos comunicam isso.
"CITAÇÕES EM MEU TRABALHO SÃO COMO SALTEADORES NO CAMINHO, QUE IRROMPEM ARMADOS E ROUBAM AO PASSEANTE A CONVICÇÃO". (WALTER BENJAMIN )

O sempre desequilibrado humano - Roberto da Matta

Tudo o que é humano é complicado; ou melhor: não pode ser simples, senão não é humano. O humano é impreciso, enigmático, ambíguo, pérfido e, acima de tudo, espesso como os nevoeiros e as peças de Shakespeare. É como as máscaras de carnaval e as cebolas: múltiplo; e tem muitas caras, varandas, porões e infindáveis corredores. Tem também o abraço solar, a mão aberta e calorosa, o sorriso que cativa e o beijo apaixonado que promove a vida. Tudo nasce de uma mesma fonte da qual jorra igualmente ódio, inveja, coragem e ressentimento. O transitório que, para Freud e Thomas Mann é tudo, promove a busca de consistência e do eterno. A saudade articula o instantâneo que é vida e a eternidade feita do nada. Os deuses nos invejam não só porque não existiriam sem nossas preces e oferendas, pois eles precisam de nós tanto quanto nós necessitamos deles, mas porque vivemos na transitoriedade e na dúvida do aqui agora, do ser ou não ser e do você e eu que engendram tenacidade, desejo, amor, lealdade e honra. Aquele "fazer ou morrer" da canção As Time Goes By. Não estamos aqui para brincadeiras e, diferentemente dos deuses, não temos tempo a perder. Exceto no carnaval...

No labirinto da vida, como na velha Creta de Teseu, ou se encontra uma saída ou se dá de cara com o Minotauro. O caso Lula é exemplar. Ele tem mais popularidade do que qualquer outro presidente. Ademais, como Prometeu (sem trocadilho), ele roubou a mais decisiva contribuição à modernidade democrática brasileira ? o Plano Real. Virou pai da revolução realizada pelo satanizado FHC que, como manda o paradoxal esquecimento humano, era estigmatizado pelo PT como "herança maldita". Hoje, vendo o Lula como cidadão do mundo, fazendo abertamente uma campanha política que os juízes não enxergam, transferindo votos para sua chefe da Casa Civil e rompendo com o dogma da transferência de votos que os marqueteiros ? esses derradeiros matemáticos do humano ? diziam ser impossível, julguei que o "cara" estava num mar de rosas. Mas eis que ele sofre um "piripaque". Eu medito: só os seres humanos sofrem tais reviravoltas. Só eles podem ficar mal quando tudo aparentemente vai bem. Seria uma premonição, por que quem tudo promete não consegue decidir? Ou seria algo sem importância? Mas há mesmo algo sem importância quando se trata do humano? Os tigres de dente de sabre quanto mais matavam, mais lhes cresciam e afiavam os dentes. Entre nós, porém, quanto mais sucesso, mais o fracasso ronda nossa casa; quanto mais subimos, mais depressa descemos; quanto mais gozo, mais angústia e sofrimento. O amor faz sangrar como os animais sacrificados. E a morte, sendo o nosso destino, só se desliga da vida pela paixão que ilude e vira o mundo pelo avesso.

Foi só a partir da institucionalização do individualismo que começamos a dizer abertamente que "Estamos muito bem, obrigado!". Antigamente, os brasileiros eram proibidos de assumir toda e qualquer felicidade. Não pegava bem ser feliz num mundo inseguro, desigual e injusto. Todos iam de mal a pior, como aqueles personagens de Machado de Assis. Aprendi a insistir no "vou indo" e, quando muito, soltar um "mais ou menos" que, nos Estados Unidos, assustava meus amigos crentes no "the sunny side of the street" (no lado ensolarado da rua). Se para nós, sofrer é mais ou menos normal, para eles o direito à felicidade é um projeto possível, autoevidente e constitucional. Em minhas preces eu rogo pelo amor e pela felicidade; meus amigos americanos, porém, nascem com a certeza de tudo isso e o céu também.

Vejam vocês: o sujeito se livra de um apuro apenas para descobrir que passou de um problema para outro. "Controlei finalmente o meu peso ? disse-me a ex-gordinha Selma ?, só que não como mais!"

O antropólogo e escritor maranhense Nunes Pereira, de saudosíssima memória, era meu amigo e me visitava de quando em vez quando eu trabalhava num museu. Fazia minha alegria, porque não é fácil trabalhar no meio de pesquisadores, coleção de ossos, bichos empalhados e múmias. Um dia, ele me contou o caso de um médico amazonense desgostoso com a depravação reinante na civilização da borracha que fazia de Manaus um centro de esbórnia. Constatado o hedonismo da capital amazonense resolveu, como um personagem de Joseph Conrad, renunciar à fortuna e aos vícios confortáveis, para viver em simplicidade e pureza. Afastou-se de Manaus até chegar a um derradeiro povoado, limite entre o civilizado impuro e o selvagem virginal. Ali, pegou uma canoa e remou em direção a uma casa de palafita situada no mais fundo da mata. Ao aproximar-se, vislumbrou formas estranhas num barranco. De perto, discerniu enojado: era um caboclo que copulava com um mamífero cetáceo de água doce ? um boto-fêmea! ? no barranco. A bestialidade no meio da selva mais pura, como queriam ele e José de Alencar, era muito mais ofensiva do que as perversidades pagãs dos lupanares de Manaus. Depois de tanto fugir, voltara ao ponto de partida. A fábula era sempre arrematada com um sorriso e o seguinte: Ele aprendeu que onde há o humano há o depravado e o perverso. Ou o desvio seria apenas um episódio na vida de um bicho não declinável, mas que se pensa como tal?

 

 

 

O sempre desequilibrado humano - Roberto da Matta. Publicado em O Estado de SP, 10 de fevereiro de 2010