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FOLIA ELEGANTE




FOLIA ELEGANTE DE Andrea Carvalho Stark -  REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL, FEVEREIRO DE  2010, NÚMERO 53, na banca de jornal mais próxima...

Um pouquinho aqui...http://rhbn.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2888

JOSÉ MURILO DE CARVALHO

Dezembro 13, 2009
Uma nova velha história

Os mensalões são a face crua de um sistema político em que a democracia solapa a República







Ivan Marsiglia - O Estado de S.Paulo

JOSÉ MURILO DE CARVALHO | Historiador, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e autor de 'Teatro de Sombras: A Política Imperial'


Não faltou batom na cueca no novo mensalão em cartaz na cena política brasileira. Varreram o País imagens de parlamentares, do presidente da Câmara Legislativa e do próprio governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), embolsando, escondendo em meias ou enfiando na roupa de baixo maços e maços de dinheiro. Em passado nem tão remoto, já se viram cenas parecidas desse espetáculo que já vai se tornando, sem trocadilho, maçante. A sistemática e periódica distribuição de propinas aos eleitos como "representantes do povo" resultou no mensalão petista, que manchou a imagem do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e no mensalão mineiro, que na quinta-feira transformou o ex-governador tucano Eduardo Azeredo em réu no Supremo Tribunal Federal.


á certa naturalização da corrupção, a sensação fatalista de que não há o que fazer", lamenta o historiador mineiro José Murilo de Carvalho, autor de A Construção da Ordem e Teatro de Sombras: A Política Imperial, obras fundamentais para o entendimento do processo político brasileiro. Aos 70 anos e convertido em imortal pela Academia Brasileira de Letras em 2004, na cadeira que pertenceu a Rachel de Queiroz, Carvalho acostumou-se a ver o tema da corrupção frequentar os documentos da história brasileira, da Colônia à República, passando pelo Império. Espanta-se, porém, com o caráter generalizado dos esquemas atuais, que envolvem partidos, ministros, governadores, empresários - no que considera uma inviável "democracia sem república".

Na entrevista a seguir, concedida ao Aliás do Colegio Mayor Arzobispo Fonseca - um portentoso edifício de 1525 na Espanha, ocasião em que faria uma palestra a convite do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca -, o historiador se diz cético em relação à reforma política como método de eliminação dos mensalões nacionais - ainda mais se convocada por Constituinte, como sugeriu esta semana o presidente Lula. José Murilo de Carvalho considera mais eficiente o ataque frontal a pontos nevrálgicos da vida política brasileira, como o foro privilegiado e a imunidade parlamentar. E critica a ideia em voga no País de que basta combinar crescimento econômico com inclusão social para se chegar ao paraíso, sem preocupação com a honestidade, os valores cívicos ou a consolidação das instituições. "Não creio em democracia sólida num país em que a população acredita que ser político e ser corrupto é uma coisa só."


Qual foi o primeiro "mensalão" da história do Brasil?
Sempre houve negócios escusos, compra de votos, subornos, trocas de favores. Mas não me lembro de algo sistemático e generalizado como o que tem havido ultimamente, envolvendo os principais partidos, ministros, governadores, secretários, congressistas, empresários. É uma inovação em nossa história.

Virou clichê dizer que a corrupção é endêmica no Brasil. O senhor concorda, como historiador?
Endêmica é a tradição patrimonial, é a dificuldade em separar o público do privado. No antigo regime, o patrimonialismo era prática comum e normal. Quando, a partir da constituição de 1824, inauguramos o Estado moderno que separou os bens do Estado dos bens privados do monarca, essa prática passou a ser ilegal, corrupta. No entanto, os valores sobreviveram às leis: uma longa batalha teve início entre os dois, ainda indecisa. Até hoje, muitos governantes não se pejam de usar o Estado para favorecer interesses particulares, nem os particulares se constrangem em privatizá-lo. É uma proposta de construir a democracia sem república, que me parece pouco viável.



Na época do Brasil Império, a figura de d. Pedro inibia a corrupção?
Práticas patrimonialistas, clientelísticas, nepotistas, existiam. Mas o imperador foi educado no sentido de combatê-las, tarefa facilitada pelo fato de não precisar disputar eleições. Governou em permanente conflito com seus ministros sobre nomeações e demissões de funcionários, pois tinha dificuldade em aceitar mesmo as exigências da política partidária de recompensar aliados. Tratava-se, além disso, de uma elite pequena governando um Estado com poucos recursos. Daí que as críticas republicanas se dirigiam, sobretudo, à corrupção da monarquia como forma de governo - e não à corrupção do imperador ou da elite política.

Tem sido comum, na vida política brasileira, a referência a ideais "republicanos". São palavras vazias?
Depois da moda de cidadania, inaugurada com a Constituição de 1988, apareceu na retórica política um termo que estava esquecido - república - sem que se saiba exatamente o se quer dizer com ele. Em seu sentido clássico, que remonta à Roma antiga e passa pelas cidades-Estado da Itália renascentista, além de uma forma de governo, república significa coisa pública, bem comum, virtude cívica. Foi assim que Frei Caneca a concebeu em 1822. República não se confunde com democracia, embora, desde o século 19 não sejam incompatíveis. Ela exige predomínio da lei, igualdade perante a lei, ausência de privilégios e hierarquias, cidadãos ativos, governos responsáveis e eficientes. E é incompatível com patrimonialismo, clientelismo, nepotismo. Nossa República nunca pregou esses valores e nunca os pôs em prática. Pode-se argumentar, isso sim, como muitos fazem, que nossa democracia não precisa de república, que aos trancos e barrancos vamos construindo a inclusão política e social, que preocupação com honestidade política, bom governo e valores cívicos, instituições respeitadas, é udenismo, moralismo pequeno burguês. Mas acredito que haja cada vez mais brasileiros que discordam dessa posição.

Alguns cientistas políticos afirmam que a corrupção no sistema representativo brasileiro é "residual", sempre vai existir e não compromete seu funcionamento de fato.
Isso é um truísmo. Ninguém que reclama de corrupção está propondo uma sociedade de anjos. Mas é também elementar saber que há níveis distintos de corrupção e há maneiras distintas de lidar com ela. Uma coisa é a corrupção eventual e de alguns, outra é a corrupção que atinge todo o sistema o tempo todo. Uma coisa é ter corruptos, mas dispor de um sistema que os puna, outra coisa é a impunidade generalizada. Eu diria que no segundo caso a corrupção compromete, sim, o funcionamento do sistema democrático, na medida em que desmoraliza suas instituições. Não creio em democracia sólida em país em que a população acredite que ser político e ser corrupto seja uma coisa só.

Brasília, que completa 50 anos em 2010, era para ser a sede do governo e um centro administrativo, mas transformou-se praticamente em outro Estado, com orçamento, assembleia e câmara, representação de oito deputados federais e três senadores. É estímulo à corrupção?
Brasília teve grande importância geopolítica ao incentivar o desbravamento do interior do País. Mas teve efeito deletério para os costumes políticos. Afastou os três Poderes do contato com o povo. Um mensaleiro no Rio de Janeiro, por exemplo, seria vaiado na Câmara e nas ruas. Em Brasília, pelo distanciamento e pelas próprias dimensões da Praça dos Três Poderes, esse contato é limitado. Tenho também dúvidas se um distrito federal deva ter o mesmo status político que um Estado. Uma prefeitura seria mais adequada, e mais econômica.

Brasília, então, seria uma redoma para os políticos?

Brasília, por seu isolamento geográfico, não por culpa das pessoas, se transformou em uma corte que cria um cinturão de proteção em torno dos políticos, livrando-os da pressão direta do povo. Lá só vão grupos organizados que podem pagar o transporte de militantes.

As imagens na TV mostraram maços de dinheiro sendo escondidos em paletós, meias e cuecas - em contraponto aos escândalos financeiros no mundo, sofisticados, difíceis de flagrar. Como entender essa corrupção tosca de Brasília?
Sem dúvida, as falcatruas de nossos políticos são toscas diante da sofisticação do grande negócio. Os reais nas cuecas são coisa de ladrão de galinha. Ainda não chegamos ao ponto em que os lobbies aproximam o grande negócio do Congresso. Justifica-se, no entanto, a reação maior ao roubo menor, porque os políticos estão exercendo um cargo de representação popular e lidando com dinheiro do contribuinte.

Esse raciocínio não livra a barra do lobista e do corruptor dos políticos?
Eu me referia aos lobbies americanos, que são registrados e agem abertamente. Pode-se contestar a legitimidade dessa ação, não sua legalidade.

O bombardeio de imagens de corrupção pode gerar um certo conformismo na sociedade?
Creio que há, sim, certa naturalização da corrupção, a sensação fatalista de que não há o que fazer. O bom momento que vive o País e a grande popularidade do presidente ironicamente favorecem essa postura. Os setores da população mais beneficiados pelas políticas governamentais tendem a ser mais tolerantes com os escândalos. Em política, o bolso ainda é o principal argumento. A reação procede mais de camadas sociais não diretamente beneficiadas. Sem estar acoplada a outros motivos de insatisfação, a luta contra a corrupção é árdua.

O governador Arruda ameaçou os colegas de partido dizendo "se radicalizarem comigo, vou radicalizar também". De que maneira a chantagem e o conluio forçado fazem parte da corrupção no Brasil?
Essa é uma das melhores armas dos que são pegos em falcatruas, pois sabem que não são os únicos a praticá-las. O PSDB aliviou as críticas ao mensalão do PT quando as denúncias viraram contra seus correligionários, que decidiu acobertar. Agora, tocou a vez ao DEM. O partido tem a oportunidade de quebrar esse pacto de conivência. Se o fizer, fará grande bem à República.

A reação inicial do presidente Lula foi dizer que "as imagens não falam por si só". Depois, veio a público e definiu a crise como "deplorável". Como entender essa mudança?
A resposta foi coerente com reações anteriores do presidente de leniência em relação às denúncias de corrupção, por parte de políticos de seu partido ou de outros. Deve se ter dado conta da inconveniência diante de evidências tão gritantes.

O presidente também disse ter enviado propostas de reforma política para o Congresso que não foram votadas e sugeriu a convocação de uma Constituinte. É a solução?
Propostas de reforma política e de Constituinte a esta altura, em plena campanha eleitoral, são um tanto inócuas. Em sete anos de governo não houve empenho em fazê-las. O que menos há hoje no País é ambiente para debate político. Só há debate eleitoral, a luta pelo controle da máquina do Estado. Não creio que haverá menos ou mais corrupção se o País for presidencialista ou parlamentarista, se o sistema eleitoral for proporcional ou majoritário, se houver ou não financiamento público de campanhas. Medidas simples poderiam ser mais efetivas. Por exemplo, acabar com privilégios antirrepublicanos como o foro especial para políticos, a imunidade parlamentar para crimes comuns, a prisão especial para quem tem diploma e as infinitas brechas da lei que garantem a impunidade dos políticos e ricos em geral. Também acho interessante rever a permissão de candidaturas de pessoas condenadas em primeira instância. Depois de tanto escândalo, quem foi condenado em última instância? O próprio governador de Brasília ainda não foi julgado pela acusação de violar o painel de votação há dez anos. Uma Justiça rápida poderia ter evitado o novo escândalo retirando-o antes da vida pública. O crime compensa e os criminosos sabem disso.

A velha história se repete?
Nossa democracia política é jovem: começou em 1945. Em 1932, havia 2,5 milhões de eleitores registrados. Em 2000, 110 milhões. Hoje, são 130 milhões. No período da ditadura, 43 milhões de novos eleitores entraram no sistema. Essa dramática incorporação de eleitores foi acompanhada da também dramática ampliação do leque de candidatos. Até 1930, no Brasil, a elite política era pequena. Hoje, basta olhar a lista de candidatos a vereador e prefeito que vemos muitos Zé da Padaria, Maria das Couves, Chico Bombeiro, etc. Isso não podia deixar de ter impacto na qualidade do voto, dos eleitos e das práticas políticas. Mas é um preço que temos de pagar pela tardia abertura do sistema. Além do custo do atraso, houve ainda o custo da ditadura que afetou a qualidade e treinamento dos políticos oriundos da elite tradicional. Na realidade, o aprendizado democrático e republicano de milhões de brasileiros começou mesmo só depois de 1988. É muito pouco tempo. É possível que nossas mazelas se devam em boa parte a essa cronologia. E que, com alguma paciência, possamos nos educar para novos e melhores tempos.

A falta de limites entre público e privado também aparece na vida dos políticos, não só no manejo da coisa pública. Filhos fora do casamento, derrapadas verbais, amantes usados no jogo político... Já há sinais de que a campanha de 2010 será pesada. O que é pior para o político: o escândalo pessoal ou ser pego com a boca na botija?
A pergunta é boa. O ponto é complexo: a vida pessoal de uma pessoa pública é assunto público ou privado? De um lado, há o dito: a mulher de César não só deve ser honesta como parecer honesta. Nos EUA, país puritano, vigora essa ideia, a vida privada do homem público é pública. Na França, pelo contrário, país católico, a vida privada é privada. Entre nós, há ambiguidade e uso oportunista das duas regras. A vida privada do adversário é pública, a dos correligionários é privada.





VILLA LOBOS - POR NELSON FREIRE E TINHORÃO




A festa de Villa-Lobos
JOSÉ RAMOS TINHORÃO REMEMORA O DIA EM QUE FEZ PARTE DO CORAL DE 40 MIL VOZES REGIDO PELO COMPOSITOR, QUE MORREU HÁ 50 ANOS, E COMENTA SUA RELAÇÃO COM O ESTADO NOVO

EUCLIDES SANTOS MENDES
DA REDAÇÃO


De repente, chega o maestro com sua cabeleira, sobe num pódio de madeira armado no meio do campo. A um sinal dele, o estádio inteiro começou a cantar." Assim o historiador musical José Ramos Tinhorão, 81, relembra, em entrevista concedida à Folha, a apresentação do coral orfeônico regido por Heitor Villa-Lobos em 7 de setembro de 1940, no Rio de Janeiro.
Tinhorão, que à época era estudante, fez parte do coral, formado por quase 40 mil vozes, que se apresentou no estádio de São Januário. Convidado pelo governo Vargas (1930-45) a colaborar na política cultural do Estado, Villa-Lobos incentivou a implementação de aulas de música nas escolas, na época. Autor de "História Social da Música Popular Brasileira" e "Os Sons dos Negros no Brasil" (ambos publicados pela ed. 34), Tinhorão avalia que a relação do maestro com a ditadura varguista [1937-45] era um "jogo duplo".
"Villa-Lobos se aproveitou do fato de o governo estar interessado nisso [a música], e o governo se aproveitou do fato de ele ser o grande nome que poderia ser usado para essa política [cultural]", afirma na entrevista abaixo.


 

FOLHA - Como foi o seu encontro com Villa-Lobos, nos anos 1940?
JOSÉ RAMOS TINHORÃO - Não tive propriamente um encontro, estive era perdido numa massa de alunos que formavam um imenso coral regido por ele. Eram cerca de 40 mil [pessoas] de todas as escolas com turmas de música do Rio de Janeiro. Esse episódio de Villa-Lobos reunir o coral no campo do Vasco [da Gama] foi em 7 de setembro de 1940. Villa-Lobos só foi no dia da apresentação, com 40 mil pessoas para assistir à festa cívica. De repente, chegou o maestro com sua cabeleira, sobiu num pódio de madeira armado no meio do campo. A um sinal dele, o estádio inteiro começou a cantar. Eu me lembro de que eram canções que falavam da natureza, do Brasil. Era uma demonstração de massa, um conjunto de coros formando um imenso coral. Fazia parte da política cultural do Estado [Novo], pelo qual Villa-Lobos gostosamente se deixou usar, por causa da preocupação que tinha em divulgar a música. Ele queria que todo mundo se interessasse por música.

FOLHA - Qual, então, era a relação do compositor com o governo de Getúlio Vargas?
TINHORÃO - Hoje, tenho a clara convicção de que o sistema [o Estado Novo] usou Villa-Lobos. Por que foram chamá-lo, e não a outro, para fazer esse papel? Porque viera da Europa e era o maior compositor erudito do Brasil, à época. Nesse sentido, usou Villa-Lobos pelo seu nome e pelo fato de ser preocupado com essa história de canto coral etc. Villa-Lobos, por sua vez, como passou a ter poder de decisão [na política cultural do Estado], determinou o repertório que as professoras [de música] deviam ensinar nas escolas para as apresentações no estádio. E, com isso, fez uma coisa que, no fundo, queria: difundir o cultivo da música por meio do canto coral.

FOLHA - Villa-Lobos teve papel decisivo na educação musical?
TINHORÃO - Teve um peso importante. Sobre isso, eu mesmo tenho que me penitenciar por ter escrito assim: "Villa-Lobos, maestro da ditadura [do Estado Novo]". Era um jogo duplo: ele se aproveitou do fato de o governo ter interesse nisso [a música], e o governo se aproveitou do fato de ele ser o grande nome que poderia ser usado para essa política [cultural].

FOLHA - Como os sons e a música que ecoavam das ruas influenciaram a formação do compositor?
TINHORÃO - Basta ouvir "O Trenzinho do Caipira". Villa-Lobos tem uma obra extensíssima, com canções e coisas que aproveitou, por exemplo, de músicos de choro. Ele [também] tocava choro. O tema que ele usa [na sua obra] é popular, mas o tratamento é erudito, mesmo com as deficiências [técnicas] de que é acusado.

FOLHA - Como o folclore brasileiro influenciou a música de Villa-Lobos?
TINHORÃO - Ele viajou muito pelo Brasil antes de ir para a Europa [no início dos anos 1920]. Começou a percorrer o país e não enviava notícias para a família. Passaram-se anos, a mãe achou que ele tivesse morrido e chegou a mandar rezar uma missa. Ele andava por Goiás, Minas [Gerais], interior de São Paulo... andou por todo o Brasil, e, em todo lugar a que ia, anotava a música local e guardava no ouvido a sonoridade. É por isso que é uma figura importante, porque não foi um músico de gabinete. E quando jovem, como precisava de dinheiro, tocava até em confeitaria no Rio. Quando o pai morreu, ele tinha 12 anos. Estudou, além de piano, violoncelo e violão. Villa-Lobos é um pouco autodidata. Chegou a se matricular em um curso no Instituto Nacional de Música, no Rio de Janeiro, mas não ficou lá muito tempo. Ele é acusado por alguns críticos de não ter uma fatura musical completa pela falta de conhecimento técnico detalhado. Mas supria isso com a exuberância de sua musicalidade e de seu talento.

FOLHA - Qual é a relação entre Villa-Lobos e Mário de Andrade?
TINHORÃO - Os dois eram próximos [ambos participaram da Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922]. Mário de Andrade partia do princípio de que, na música erudita, não adianta imitar os grandes autores europeus. Portanto, [a composição erudita] tem que procurar temas nacionais e desenvolver um tipo de música em que se tem a técnica e a teoria de nível erudito, mas dentro de uma forma brasileira, que era uma forma nacionalista.

FOLHA - O sr. acha que o fato de ele ser brasileiro compromete a consolidação da sua obra na história da música do século 20?
TINHORÃO - Não. A música que ele fez, mesmo quando usa um tema popular, tem um nível de sofisticação de música erudita. Ora, o código da música erudita vale para qualquer país. Mas é claro que um francês, por exemplo, reconhece que a música de Villa-Lobos não é francesa, não é europeia.

FOLHA - Qual é o lugar que cabe a Villa-Lobos na história da música 50 anos após a sua morte?
TINHORÃO - Ele é fundamental dentro do panorama da música brasileira e erudita pelo volume da sua produção. Quando se fizer um levantamento sobre o que foi a música erudita, no sentido do que os grandes mestres fizeram na Europa e do que foi feito no Brasil, a importância de Villa-Lobos será [ainda mais] destacada.






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Gênio do bom humor
O MAIOR PIANISTA BRASILEIRO FALA DA INTERPRETAÇÃO DE SUAS OBRAS E DA REAÇÃO DO PÚBLICO

NELSON FREIRE
ESPECIAL PARA A FOLHA


Quando eu era criança, o desafio das grandes obras universais do repertório pianístico ocupava o centro das preocupações de todos nós. Os compositores brasileiros eram em geral considerados de menor complexidade, e suas obras mereciam leituras muitas vezes apressadas e superficiais.
Essa percepção mudou radicalmente para mim ainda na primeira juventude, depois de ouvir Guiomar Novaes tocar "A Prole do Bebê nº 1" [de Villa-Lobos] num recital inesquecível no Rio de Janeiro. Percebi então, de uma vez por todas, que sua música era universal como a de Bach, Beethoven, Brahms ou qualquer outro gênio da história da música. Essa noção só se aprofundou, ao longo dos anos.
Admiro sua produção exuberante, a perfeição com que escreve para todos os instrumentos. Suas obras para piano são pianísticas a um grau máximo, para não falar das obras para violão, instrumentos de sopro e de arco -o seu gênio melódico, a complexidade polifônica da sua escrita, a vitalidade rítmica de tudo o que escreve, sua enorme fantasia.
Sobretudo, tenho a ideia de que ele foi o primeiro a não se intimidar em expressar a grandeza física do país. Não admira: ele conhecia o Brasil inteiro como quase ninguém na época. Tenho tocado Villa-Lobos mundo afora, e a reação do público é sempre semelhante: sua música deixa os ouvintes de bom humor.
É uma música benfazeja. Toquei inúmeras vezes o "Momo Precoce" (dedicado a Magdalena Tagliaferro, grande intérprete de Villa-Lobos, cuja versão de "Impressões Seresteiras" é a melhor que conheço). Lembro-me de uma vez, na Holanda, em que a percussão da orquestra que me acompanhava tocou a batucada tão maravilhosamente que me senti no meio de uma escola de samba carioca.

"Bachianas" e "Choros"
Amo as "Bachianas", os "Choros", as "Cirandas". Admiro profundamente a riqueza e a imaginação da sua orquestração, como, por exemplo, em "O Trenzinho do Caipira", que não consigo ouvir sem me emocionar. E como ele trata a voz humana! Quer coisa mais inspirada que as "Bachianas nº 5" para soprano e violoncelos? E o que dizer de obras como "Floresta Amazônica" e o "Choro nº 10" (Rasga Coração), com a integração fantástica do coro com a orquestra?
Considero notáveis as gravações do próprio Villa-Lobos interpretando "Alma Brasileira", "A Lenda do Caboclo" e o "Polichinelo". Arnaldo Estrella tem também gravações ótimas de obras do seu amigo. Homero de Magalhães tocava e gravou muito bem a série das "Cirandas". Tenho uma estima profunda pelas duas séries da suíte "A Prole do Bebê" e me admiro sempre ao pensar que entre as de números um e dois transcorreram tão poucos anos, apesar de estilisticamente serem tão diferentes.

Amigo íntimo
Gravei em Berlim um LP dedicado a Villa-Lobos, que depois foi remasterizado e publicado em CD. Nele toco o "Rudepoema", que Villa-Lobos dedicou ao seu amigo íntimo, Arthur Rubinstein, que tanto fez pela glória mundial de Heitor.
Na dedicatória, Villa-Lobos afirma que "Rudepoema" é o retrato psicológico do pianista. Pode ser interpretado também como um autorretrato: Villa-Lobos insiste muito no caráter selvagem da sua personalidade. Tenho para mim que sua música não é selvagem; é profundamente culta, bem escrita, inspirada, visando a grandeza.
Se peca por algo, nunca será por mesquinhez ou estreiteza de vistas. Uma vez, cheguei a Nova York para um concerto, e lá estava, estudando no mesmo "basement" da Steinway, a minha idolatrada Guiomar Novaes. Ela ia dar no dia seguinte um recital com um programa exigentíssimo, com sonatas de Beethoven, Chopin etc.
Tinha desembarcado do Brasil naquela manhã mesmo e, ao iniciar sua longa sessão de estudo, o que escolheu para começar? "A Moreninha", da "Prole do Bebê nº 1". Estudada devagar, nota por nota.

Autógrafo
Conheci Villa-Lobos durante o seu último ano de vida. Depois de um concerto sinfônico regido por ele no Teatro Municipal, fui ao camarim pedir-lhe um autógrafo no programa, que guardo comigo até hoje.
Se ocorrer durante um recital, por algum motivo, de eu me sentir tenso ou pouco confortável, basta chegar às obras de Villa-Lobos que imediatamente me descontraio. É como se estivesse em casa. Por isso, ouso dizer que Villa-Lobos também gosta de mim.


NELSON FREIRE é pianista brasileiro e um dos principais intérpretes de Villa-Lobos.










1887
Heitor Villa-Lobos nasce, em 5 de março, no Rio de Janeiro

1905-12
Viaja pelo interior do Brasil, ouvindo e recolhendo temas e canções populares

1913
Casa-se com a pianista Lucília Guimarães

1922
Participa da Semana de Arte Moderna, em São Paulo

1923
Faz sua primeira viagem à Europa, retornando ao país em 1924

1930
Após três anos vivendo em Paris com a mulher, volta ao Brasil. Inicia a composição do ciclo das nove "Bachianas Brasileiras" e projeto de educação musical em São Paulo

1932
Convidado pelo governo de Getúlio Vargas, assume a direção da Superintendência de Educação Musical e Artística e institui o ensino obrigatório de música e canto orfeônico nas escolas. Dá início às apresentações, ao ar livre, de corais formados por milhares de estudantes

1936
Separa-se da mulher Lucília e passa a viver com a ex-aluna Arminda Neves d'Almeida

1937
Compõe, sob encomenda, a trilha sonora de "Descobrimento do Brasil", de Humberto Mauro

1945
Funda a Academia Brasileira de Música

1959
Morre no Rio, em 17/11



Why are we still reading Dickens?


Why are we still reading Dickens?

The great Victorian is probably even more ubiquitous now than he was in his lifetime. How he remains such vital reading is an intriguing question

The Guardian, Wednesday 30 September 2009

Charles Dickens

Shining a light on his audience ... Dickens giving a reading. Photograph: Corbis

 

It seems that you cannot turn a corner this year without bumping into Charles Dickens. So far we've seen the release of four major novels based on the Victorian icon's life: Dan Simmons's Drood (February), Matthew Pearl's The Last Dickens (March), Richard Flanagan's Wanting (May), and Gaynor Arnold's Girl in a Blue Dress (July). Earlier this year BBC1's lush new production of Little Dorrit was nominated for five Bafta awards in the UK, and 11 Emmys in the US. Newspapers and magazines have run stories on his relevance to the current global economic crisis. And with the Christmas season now only four months away, it seems that there is no getting away from him any time soon.

As someone who teaches and writes about Dickens, the question of why we still read him is something that's often on my mind. But that question was never more troubling than one day, nearly 10 years ago, when I was standing as a guest speaker in front of a class of about 30 high school students. I had been speaking for about 20 minutes with an 1850 copy of David Copperfield in my hand, telling the students that for Victorian readers, Dickens's writing was very much a "tune-in-next-week" type of thing that generated trends and crazes, much as their own TV shows did for them today.

Then a hand shot up in the middle of the room.

"But why should we still read this stuff?"

I was speechless because in that moment I realised that, though I had begun a PhD dissertation on Dickens, I had never pondered the question myself.

The answer I gave was acceptable: "Because he teaches you how to think," I said. But lots of writers can teach you how to think, and I knew that wasn't really the reason.

The question nagged me for years, and for years I told myself answers, but never with complete satisfaction. We read Dickens not just because he was a man of his own times, but because he was a man for our times as well. We read Dickens because his perception and investigation of the human psyche is deep, precise, and illuminating, and because he tells us things about ourselves by portraying personality traits and habits that might seem all too familiar. His messages about poverty and charity have travelled through decades, and we can learn from the experiences of his characters almost as easily as we can learn from our own experiences.

These are all wonderful reasons to read Dickens. But these are not exactly the reasons why I read Dickens.

My search for an answer continued but never with success, until one year the little flicker came – not surprisingly – from another high school student, whose essay I was reviewing for a writing contest. "We need to read Dickens's novels," she wrote, "because they tell us, in the grandest way possible, why we are what we are."

There it was, like a perfectly formed pearl shucked from the dirty shell of my over-zealous efforts – an explanation so simple and beautiful that only a 15-year-old could have written it. I could add all of the decoration to the argument with my years of education – the pantheon of rich characters mirroring every personality type; the "universal themes" laid out in such meticulous and timeless detail; the dramas and the melodramas by which we recognise our own place in the Dickensian theatre – but the kernel of what I truly wanted to say had come from someone else. As is often the case in Dickens, the moment of realisation for the main character here was induced by the forthrightness of another party.

And who was I, that I needed to be told why I was what I was? Like most people, I think I knew who I was without knowing it. I was Oliver Twist, always wanting and asking for more. I was Nicholas Nickleby, the son of a dead man, incurably convinced that my father was watching me from beyond the grave. I was Esther Summerson, longing for a mother who had abandoned me long ago due to circumstances beyond her control. I was Pip in love with someone far beyond my reach. I was all of these characters, rewritten for another time and place, and I began to understand more about why I was who I was because Dickens had told me so much about human beings and human interaction.

There are still two or three Dickens novels that I haven't actually read; but when the time is right I'll pick them up and read them. I already know who it is I'll meet in those novels – the Mr Micawbers, the Mrs Jellybys, the Ebenezer Scrooges, the Amy Dorrits. They are, like all of us, cut from the same cloth, and at the same time as individual as their unforgettable aptronyms (http://www.britannica.com/EBchecked/topic/30911/aptronym) suggest. They are the assurances that Dickens, whether I am reading him or not, is shining a light on who I am during the best and worst of times.

A Gate at the Stairs by Lorrie Moore


A Gate at the Stairs by Lorrie Moore

Lorrie Moore's literary talent has always seemed exquisitely adapted to brevity. Now she has finally proved herself over the long haul, says Geoff Dyer

The Observer, Sunday 27 September 2009
 
lorrie moore

Lorrie Moore. Photograph by Linda Nylind

Did it matter – did it gnaw away at her – that in spite of the high critical standing enjoyed by her stories, Lorrie Moore had not come up with the big novel by which writers, American ones especially, tend to be judged? Yes, there was Anagrams (1986), but the fact that a third of it also ended up in last year's Collected Stories slightly undermined its claims to unity. And then there was Who Will Run the Frog Hospital? (1994), which was nice enough but suggested that, like a boxer moving up a weight division, litheness was having to compensate for lack of bulk.

  1. A Gate at the Stairs
  2. by Lorrie Moore
  3. 336,
  4. Faber and Faber
 

The stories, meanwhile, got better, deeper, darker and – yes – heavier, but maybe a voice and talent so exquisitely adapted to the shaped imperatives of brevity would come to be defined and measured by the lack of top-quality long-haul. "I can't do this," says the distraught mother-writer in the famous story "People Like That Are the Only People Here". "I can do quasi-amusing phone dialogue. I do the careful ironies of daydreams. I do the marshy ideas upon which intimate life is built." Hence the mix of excitement and trepidation that even adoring readers will bring to Moore's third novel. Will it be great? Will Moore prove that she is not synonymous with less?

Hell yes! It is and she does. She's on fire for 300 pages! You can sit back and have the time of your life reading A Gate at the Stairs if you're prepared to make a bunny-hop of critical faith, what might be called – I'm showing my age here – the Jimmy Clitheroe concession.

Moore was born in 1957; her narrator, Tassie, is looking back to the time, shortly after 9/11, when she was a student in the Midwest town of Troy. At the alleged time of writing, she is in her mid-20s but the voice and, to a lesser extent, the eyes are those of someone old enough to be her mother.

Moore's characters and books have always been light-footed. Self-Help, her first collection of stories, was all wit and sad dazzle. Anagrams was so loaded with gags that the reader suffered occasional quip fatigue. No surprise, then, that Tassie has a GSOH, but for someone claiming to be "fresh from childhood" she seems to be lugging around an extra quarter-century of adult life. A couple of times, she remarks on the quirks of "our generation" – the way, for example, that "everything either 'sucked' or was ­ 'awesome'" – but they're exactly the things that strike people of Moore's age.

It's tricky. The main symptom of over-ageing in this coming-of-age novel is also intrinsic to its effect. Precocity enables you to play the piano at six, but wisdom, like the "half-life of regret" that also haunts these pages, only comes later. You find it, as Blake said, in the desolate market – where few come to buy.

This is not to minimise the purchases made there – the grief visited upon and witnessed – by Tassie in the brief period covered by the novel. Short of cash, she gets a part-time, all-consuming job babysitting for a middle-aged couple who are adopting a mixed-race baby. Much of the book details Tassie's time with the foster mother, Sarah, and her adopted child, Emmie. She is smuggled – the word turns out to be more apt than one might imagine – into an overwhelmingly white town, and Emmie's arrival prompts Sarah to organise a series of evenings in which other mixed families serve as a scathing mock-chorus on the state of race relations in idyllic-seeming Troy.

The neurotically energetic Sarah runs a ludicrously upmarket restaurant whose potatoes are grown by Tassie's dad. At Christmas, Tassie goes home to the family farm where her brother, Robert, is poised to join the army. She will return there during the intensely moving and, in places, brilliantly weird final phase of the book. So the immediate focus of the novel – life in a college town – is framed by the immensity of the surrounding prairie, whose seasons and endlessly changing monotony are captured in a series of virtuoso passages. Tassie learns that despair means "mistaking a small world for a large one and a large one for a small"; but how to avoid such an error when small and large – college and prairie – are prey to the same implacable meteorological and historical forces?

But let's stick, for a moment, with the small stuff, with Moore's eye for absurdist, hi-def detail: the mouth of the meth addict with its "crooked teeth, bits of shell awash on a reef of gum"; the fortune cookie that looks like "a short paper nerve baked in an ear"; the wonderful, late-night glimpse of married life when Tassie overhears Sarah saying to her husband: "You emptied the top rack of the dishwasher but not the bottom, so the clean dishes have gotten all mixed up with the dirty ones – and now you want to have sex?" There's tons of this kind of thing, cute and psychologically acute, but there's also the sense of something sky-vast and doom-laden, "full of sorrow and truth", bearing down from the past or about to loom up from the future.

The past trauma turns out to be Sarah's, though it will taint the present and be passed on to Emmie, one of whose first attempts at speech is "Uh-oh!": "She already knew both the sound and the language of things going wrong." The future history, so to speak, is latent in Robert's posting to Afghanistan and by the way that the Brazilian boy Tassie is dating turns out – a tad implausibly – to be…

Ah, but that would be telling, wouldn't it? Reviews are not supposed to give the game away, even though certain works – the best ones, arguably – are not harmed by spoilers. On first reading A Gate at the Stairs, one can become not frustrated, exactly, but impatient with Moore's determinedly lackadaisical way of proceeding. Second time around, when you know what's going to happen, when you give yourself up to the book's unusual and distinctive rhythm, it quivers on the brink of being a masterpiece. That quivering, that slight feeling of uncertainty (like "candlelight vibrating the room") is entirely appropriate given Moore's hesitant engagement with the demands of a big novel and the protracted gestation of this, her eventual response and solution.

Uninterested in narrative locomotion, Moore advances her story while appearing to let it drift sideways, roll backwards or even, at times, to stall. In the middle of Tassie's first conversation with Sarah, at a point in the novel when convention decrees that this scene and these characters are fixed in the reader's mind, Tassie remembers, instead, how her father "took to driving his combine down country roads to deliberately slow up traffic. 'I had them backed up seventeen deep,' he once boasted to my mom". And after a while, he might have added, none of them wanted to be any place else. They were glad to be along for the ride.

Geoff Dyer's most recent novel is Jeff in Venice, Death in Varanasi (Canongate)

Lorrie Moore's Midwest Chronicle

 
The New York Times
 
 


September 2, 2009

Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle

MADISON, Wis. — Lorrie Moore had just begun working on what would become her new novel, "A Gate at the Stairs," when she told one interviewer that she was writing a book "about hate."

Later she recalled telling someone else that it was a novel about chores.

In May, speaking to a roomful of booksellers at BookExpo America, the publishing industry's annual convention, she said she had written a book — her first in 11 years — about a 20-year-old woman because she viewed 20 as "the universal age of passion."

And in a recent interview at a brasserie here, two blocks from her home in a neighborhood of colorful Victorian and prairie-style houses, Ms. Moore described the book as a meditation on "what it meant to be in this town in the Midwest in this particular time in contemporary America."

As it turns out, Ms. Moore's slippery characterizations of "A Gate at the Stairs," published on Tuesday by Alfred A. Knopf, are quite apt.

The novel takes place in the aftermath of 9/11, with the threat of terrorism and war hovering over a liberal university town described as "the Athens of the Midwest."

It also features a prickly couple, Sarah Brink and Edward Thornwood, whose marital relations sometimes veer toward something that looks like hate. Tassie Keltjin, the 20-year-old college student who narrates the novel, falls in love, for the first time, with a mysterious foreign student. Passion ensues.

And about those chores: during one of the book's most startling revelations, the housecleaner can be heard "at the back door, with his stabbing, fidgeting key in the lock and his clanking pails and mops."

Ms. Moore's fans — ardent, even cultish — have been waiting ever since "Birds of America," her last book, a story collection, was published in 1998. That book, widely praised, broke onto the New York Times hardcover fiction best-seller list for five weeks.

It also subjected Ms. Moore, who at 52 still seems girlish with her shoulder-length brown hair and voice that swoops from low to high registers, to the intruding curiosity of those who wanted to know more about her personal life after reading "People Like That Are the Only People Here," a short story about a baby with cancer that Ms. Moore acknowledged was somewhat autobiographical.

"The problem of course is you don't want everyone talking about your kid," Ms. Moore said, recalling the rounds of publicity. "And that was really hard to avoid."

This time around she is remaining circumspect about any autobiographical antecedents to "A Gate at the Stairs," her seventh book.

In one of the novel's central plotlines, Tassie takes a job as a baby sitter working for Sarah, the owner of a local restaurant, and Edward, a cancer researcher, as they adopt a part-black baby girl. As the girl's devoted caregiver, Tassie is exposed to both explicit and implicit racism. Ms. Moore's own teenage son is adopted and part African-American, but she would say only that some of the incidents in the novel may have happened to other children and parents she knew.

Instead she invoked "Madame Butterfly" and "Jane Eyre," works that feature themes of abandonment and orphanhood. "I'm interested in adoption because those kids become Jane Eyre," said Ms. Moore, alternately sipping from a cup of coffee and a small glass of pale Belgian beer. "Not to push the 'Jane Eyre' thing too much, but of course there is that racial aspect to it," she said, alluding to the Creole heritage of the Mrs. Rochester character. "And there's a racial component to 'Madame Butterfly,' so these were the Ur-texts hovering over my desk while I just barreled ahead and wrote a Midwestern story."

As one of the most nuanced writers working today, Ms. Moore is as likely to write about sweeping themes as she is to deliver sharp-witted and trenchant observations about life's small moments. Her career has been building since she sold her first story collection, "Self-Help," at 26, gaining instant literary credibility.

"Moore may be, exactly, the most irresistible contemporary American writer," the novelist Jonathan Lethem wrote in The New York Times Book Review on Sunday. "Brainy, humane, unpretentious and warm; seemingly effortlessly lyrical; Lily-Tomlin-funny. Most of all, Moore is capable of enlisting not just our sympathies but our sorrows."

And in her review last week in The Times, Michiko Kakutani wrote that "in this haunting novel, Ms. Moore gives us stark, melancholy glimpses into her characters' hearts."

In "A Gate at the Stairs" those sorrows and melancholy glimpses come in some brutally heart-rending scenes. "There are times when you feel like stepping into a dark dream, and you really want to travel to some very unhappy place," Ms. Moore said, "in order, in some ways, to close the book and step away from it."

Ms. Moore, who had recently had cataracts diagnosed and sometimes used prescription sunglasses to see inside, said that part of the reason it took her so long to finish the novel was that she could not bring herself to write those devastating passages.

"There were certain scenes that felt so heartbreaking to me that I didn't know how I was going to write them," she said. "I cried all the way through the writing of it."

Then there were the more practical constraints on her time. Since 1984 Ms. Moore has taught creative writing at the University of Wisconsin, Madison, and eight years ago she divorced her husband (no, she doesn't want to talk about it) and is now raising her son as a single mother.

Ms. Moore sees such challenges falling disproportionately on women. "You look out into the world and you say, 'Who are the working — meaning you also have a job, not just writing novels — single moms who are writing novels that you want to read?' " she said.

Jayne Anne Phillips, a fellow writer and fan, said balancing a job and child-rearing with writing had shaped Ms. Moore's work. "The double edge of it is that I think any form of real spiritual surrender does inform one's work," Ms. Phillips said. "But the problem is that oftentimes one doesn't have time to write the work."

In "A Gate at the Stairs" Sarah struggles to juggle her fervent desire to be a mother with her all-consuming job as a restaurant owner. Writing about food allowed Ms. Moore to play with the terminology that was infiltrating menus around town. At one point Tassie reads a menu from Sarah's restaurant:

"There were ramps and fiddleheads, vinaigrettes and roux — summer had not yet taken these away."

And then, in a moment of pure Lorrie Moore-ness, Tassie observes, "Though only now did I realize that roux was not spelled rue, as surely it should be and would be soon."

Although she has spent a quarter-century in the Midwest, Ms. Moore, who commuted between New York and Madison for several years, maintains some of the arch distance of the outsider. Strolling by an Indian restaurant near the state capitol, she sniffed the air and noted: "You walk around and you get a whiff of garlic and you feel like you are in a real city."

But living far from the literary nerve center of New York, she said, has allowed some liberties.

"If you live in Madison, Wis., and teach creative writing, you've already made some decisions about what you're going to do as an artist, and you're quite free to do as you please," she said. "Some people get their books on the best-seller list and then they count the number of weeks, and I just never want to live that way. I already have been luckier than I ever dreamed that I could ever be."

Masp volta a exibir obra-prima do século XVII

Masp volta a exibir obra-prima do século XVII

3 de setembro de 2009

Por Giovana Pastore

Divulgação

 

A partir da próxima quarta-feira, o Museu de Arte de São Paulo volta a exibir Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, pintura do artista francês Nicolas Poussin (1594-1665). O visitante que comparecer ao Masp, contudo, poderá ver cores a que talvez apenas os homens do século XVII testemunharam.

Após oito meses de restauro, a grande tela - são 3,72 m de comprimento e 1,66 m de altura - volta a ser uma das principais peças do acervo do museu paulistano. A restautação é parte das atividades do Ano da França no Brasil e ficou a cargo da brasileira Regina Costa Pinto Moreira, radicada na França e profissional do Museu do Louvre, de Paris.

O trabalho de recuperação - patrocinado pela empresa francesa CNP Assurances e sua subsidiária no Brasil, a Caixa Seguros, e orçada em 150.000 euros - poderá ser visto em detalhes no museu. Além da obra, estarão expostos detalhes do restauro, como fotografias que compuseram o dossiê que serviu de embasamento científico ao trabalho e também vídeos. O Sesc também prepara um documentário sobre o processo.

Detalhe da obra antes do restauroOs críticos garantem que a importância do pintor e da obra justificam o investimento - e também a visita ao museu. "Esse trabalho de conservação, de manutenção, eu diria até de resgate da obra, é muito importante",afirma Elza Ajzenberg, professora titular da Escola de Comunicações e Artes da USP. Segundo o historiador e crítico da arte Rodrigo Naves, Poussin pode ser considerado um fundador da pintura francesa. "Ele é para a França o que Leonardo Da Vinci é para Itália", explica.

Nascido na França, Poussin realizou boa parte de seus trabalhos em Roma, com os olhos voltados para a cultura greco-romana. As pinturas pelas quais se tornou célebre tratam de temas mitológicos, como a que está no Masp, que retrata um ritual em homenagem ao deus da fertilidade, Príapo. O quadro pertenceu ao rei espanhol Filipe IV e, após as guerras napoleônicas do século XIX, passou pelas mãos de vários colecionadores privados até ser comprado pela galeria de Georges Wildenstein, que o vendeu ao brasileiro Assis Chateubriand, fundador do Masp, em 1953.

A artista - Escalada para recuperar a pintura, a restauradora Regina Costa Pinto Moreira é hoje uma estrela de primeira grandeza no universo da conservação da arte francesa. No currículo, ela acumula a recuperação de obras de gigantes da arte mundial como Goya e Manet. Formada na Espanha, com aperfeiçoamentos no Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa e no Instituto Real do Patrimônio Artístico de Bruxelas, ela entrou para o Louvre por concurso, em 1973. Não saiu mais de lá.

O longo e trabalhoso processo de restauração inclui ainda uma curiosidade: encoberto sob camadas de tinta, estava pintada a figura do pênis ereto da figura mitológica Príapo. A camada, chamada de "repinte de pudor", fora acrescentada por volta do século XVIII: portanto, não existia no original e não atendia à vontade do artista.

"A intenção do restaurador é deixar a obra o mais próximo possível da intenção do artista, removendo as intervenções e repinturas da obra. O repinte sobre o falo era uma delas e foi removido", esclarece Karen Barbosa, restauradora do Masp e coordenadora do projeto. A descoberta não supreeendeu os especialistas. "O Príapo é uma figura ligada à fertilidade e sua representação normalmente vem com o pênis bem em evidência. Os gregos e romanos valorizavam muito o falo e a sexualidade. O fato de Himeneu estar vestido de mulher também é comum, isso era uma constante no teatro grego", conta Elza Ajzenberg.

 

 

 

 

A brasileira que veio do Louvre e 'salvou' Poussin

3 de setembro de 2009

Por Giovana Pastore


A brasileira Regina da Costa Pinto Moreira trabalha no restauro da obra de Poussin no Masp (Foto: Divulgação)
 

Há dez anos o Masp planeja a restauração da pintura Himeneu Travestido Assistindo a uma Dança em Honra a Príapo, realizada pelo pintor francês Nicolas Poussin na primeira metade do século XVII. Desde que a ideia surgiu, a baiana Regina da Costa Pinto Moreira foi o único nome cogitado para realizar o trabalho. "Ela é considerada uma das melhores restauradoras da França. É ela quem coloca a mão nos Leonardos do Louvre", explica Karen Barbosa, restauradora do museu paulistano, referindo-se ao mestre do Renascimento Leonardo Da Vinci. Regina já tocou - e salvou - trabalhos de outros ícones da história da arte, como os renascentistas italianos Rafael e Ticiano e os impressionistas franceses Monet e Manet. Na entrevista a seguir, a restauradora fala de seu trabalho e da emoção de participar da conservação do patrimônio brasileiro.

A senhora teve de abrir mão de muitos projetos na França para vir ao Brasil restaurar a pintura de Poussin. Por que decidiu vir?
À parte a grande importância do quadro, foi por uma razão sentimental. Eu sou brasileira e trabalho no Louvre, então vir para o Brasil restaurar um quadro de Poussin para o Masp foi uma coincidência muito feliz. Eu realmente cancelei muitos projetos, abri mão de muita coisa para poder estar aqui, mas fiz isso porque o projeto me entusiasmou.

Em que estado estava a obra?
O quadro estava muito danificado. Ele tinha rasgos, a pintura estava desgastada. O historiador francês Jacques Thuillier chegou a dizer que era difícil examinar o quadro porque dois terços dele estavam repintados.

Houve alguma particularidade nessa restauração?
Não. Exceto pelo falo de Príapo, que descobrimos sob alguns repintes. Essa foi uma revelação interessante, mas não surpreendeente, afinal Príapo, deus da fertilidade, sempre foi representado com o falo em ereção.

Quem teria coberto o falo?
Sabemos que o quadro ficou até pelo menos 1811 na Espanha e, como há um desenho do século XVIII no qual Príapo já aparece com o sexo escondido, é muito provável que o "repinte de pudor" tenha sido feito na própria corte espanhola.

Houve alguma outra descoberta durante o restauro?
Eu percebi modificações na indumentária do Himeneu. A sua camisa, por exemplo, não era vermelha no original, mas branca.

A senhora já restaurou outras obras de Poussin?
Sim. Eu restaurei Os Instrumentos de Música e A Visão de Santa Maria Romana, ambos do Louvre, e A Tempestade, do Museu de Belas Artes de Rouen.

Qual a importância do trabalho de Poussin?
Poussin é um grande mestre. Na escola francesa, ele tem um lugar muito privilegiado.

A senhora ficou satisfeita com o resultado do trabalho?
Fiquei. A satisfação de ver a obra mais próxima do original é enorme. E ela não é só minha, porque a obra é feita para o deleite do espectador. O fato de eu ter realizado esse trabalho, de tocar na obra, foi uma grande alegria. Além disso, agora a obra está consolidada: os repintes que a descaracterizavam foram retirados e as lacunas, que atrapalhavam a leitura das formas, preenchidas.

A senhora se sente um pouco autora das obras que restaura?
Não, absolutamente. Não devo, nem posso. Eu estou apenas a serviço do pintor. Meu papel é interpretar a obra, estudá-la, compreendê-la e só. Devo interferir o mínimo possível.

A sua restauração tem prazo de validade?
Eu acredito que não, porque empreguei os melhores materiais, que são muito estáveis e cuja aplicação pode ser revertida. Tudo que usamos, inclusive os solventes, vieram da França.

A senhora acredita que seu trabalho abrirá um precedente para outras restaurações de obras brasileiras?
Seria ótimo se isso acontecesse.
 

Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle



The New York Times







September 2, 2009

Hate, Love, Chores: Lorrie Moore's Midwest Chronicle

MADISON, Wis. — Lorrie Moore had just begun working on what would become her new novel, "A Gate at the Stairs," when she told one interviewer that she was writing a book "about hate."
Later she recalled telling someone else that it was a novel about chores.
In May, speaking to a roomful of booksellers at BookExpo America, the publishing industry's annual convention, she said she had written a book — her first in 11 years — about a 20-year-old woman because she viewed 20 as "the universal age of passion."
And in a recent interview at a brasserie here, two blocks from her home in a neighborhood of colorful Victorian and prairie-style houses, Ms. Moore described the book as a meditation on "what it meant to be in this town in the Midwest in this particular time in contemporary America."
As it turns out, Ms. Moore's slippery characterizations of "A Gate at the Stairs," published on Tuesday by Alfred A. Knopf, are quite apt.
The novel takes place in the aftermath of 9/11, with the threat of terrorism and war hovering over a liberal university town described as "the Athens of the Midwest."
It also features a prickly couple, Sarah Brink and Edward Thornwood, whose marital relations sometimes veer toward something that looks like hate. Tassie Keltjin, the 20-year-old college student who narrates the novel, falls in love, for the first time, with a mysterious foreign student. Passion ensues.
And about those chores: during one of the book's most startling revelations, the housecleaner can be heard "at the back door, with his stabbing, fidgeting key in the lock and his clanking pails and mops."
Ms. Moore's fans — ardent, even cultish — have been waiting ever since "Birds of America," her last book, a story collection, was published in 1998. That book, widely praised, broke onto the New York Times hardcover fiction best-seller list for five weeks.
It also subjected Ms. Moore, who at 52 still seems girlish with her shoulder-length brown hair and voice that swoops from low to high registers, to the intruding curiosity of those who wanted to know more about her personal life after reading "People Like That Are the Only People Here," a short story about a baby with cancer that Ms. Moore acknowledged was somewhat autobiographical.
"The problem of course is you don't want everyone talking about your kid," Ms. Moore said, recalling the rounds of publicity. "And that was really hard to avoid."
This time around she is remaining circumspect about any autobiographical antecedents to "A Gate at the Stairs," her seventh book.
In one of the novel's central plotlines, Tassie takes a job as a baby sitter working for Sarah, the owner of a local restaurant, and Edward, a cancer researcher, as they adopt a part-black baby girl. As the girl's devoted caregiver, Tassie is exposed to both explicit and implicit racism. Ms. Moore's own teenage son is adopted and part African-American, but she would say only that some of the incidents in the novel may have happened to other children and parents she knew.
Instead she invoked "Madame Butterfly" and "Jane Eyre," works that feature themes of abandonment and orphanhood. "I'm interested in adoption because those kids become Jane Eyre," said Ms. Moore, alternately sipping from a cup of coffee and a small glass of pale Belgian beer. "Not to push the 'Jane Eyre' thing too much, but of course there is that racial aspect to it," she said, alluding to the Creole heritage of the Mrs. Rochester character. "And there's a racial component to 'Madame Butterfly,' so these were the Ur-texts hovering over my desk while I just barreled ahead and wrote a Midwestern story."
As one of the most nuanced writers working today, Ms. Moore is as likely to write about sweeping themes as she is to deliver sharp-witted and trenchant observations about life's small moments. Her career has been building since she sold her first story collection, "Self-Help," at 26, gaining instant literary credibility.
"Moore may be, exactly, the most irresistible contemporary American writer," the novelist Jonathan Lethem wrote in The New York Times Book Review on Sunday. "Brainy, humane, unpretentious and warm; seemingly effortlessly lyrical; Lily-Tomlin-funny. Most of all, Moore is capable of enlisting not just our sympathies but our sorrows."
And in her review last week in The Times, Michiko Kakutani wrote that "in this haunting novel, Ms. Moore gives us stark, melancholy glimpses into her characters' hearts."
In "A Gate at the Stairs" those sorrows and melancholy glimpses come in some brutally heart-rending scenes. "There are times when you feel like stepping into a dark dream, and you really want to travel to some very unhappy place," Ms. Moore said, "in order, in some ways, to close the book and step away from it."
Ms. Moore, who had recently had cataracts diagnosed and sometimes used prescription sunglasses to see inside, said that part of the reason it took her so long to finish the novel was that she could not bring herself to write those devastating passages.
"There were certain scenes that felt so heartbreaking to me that I didn't know how I was going to write them," she said. "I cried all the way through the writing of it."
Then there were the more practical constraints on her time. Since 1984 Ms. Moore has taught creative writing at the University of Wisconsin, Madison, and eight years ago she divorced her husband (no, she doesn't want to talk about it) and is now raising her son as a single mother.
Ms. Moore sees such challenges falling disproportionately on women. "You look out into the world and you say, 'Who are the working — meaning you also have a job, not just writing novels — single moms who are writing novels that you want to read?' " she said.
Jayne Anne Phillips, a fellow writer and fan, said balancing a job and child-rearing with writing had shaped Ms. Moore's work. "The double edge of it is that I think any form of real spiritual surrender does inform one's work," Ms. Phillips said. "But the problem is that oftentimes one doesn't have time to write the work."
In "A Gate at the Stairs" Sarah struggles to juggle her fervent desire to be a mother with her all-consuming job as a restaurant owner. Writing about food allowed Ms. Moore to play with the terminology that was infiltrating menus around town. At one point Tassie reads a menu from Sarah's restaurant:
"There were ramps and fiddleheads, vinaigrettes and roux — summer had not yet taken these away."
And then, in a moment of pure Lorrie Moore-ness, Tassie observes, "Though only now did I realize that roux was not spelled rue, as surely it should be and would be soon."
Although she has spent a quarter-century in the Midwest, Ms. Moore, who commuted between New York and Madison for several years, maintains some of the arch distance of the outsider. Strolling by an Indian restaurant near the state capitol, she sniffed the air and noted: "You walk around and you get a whiff of garlic and you feel like you are in a real city."
But living far from the literary nerve center of New York, she said, has allowed some liberties.
"If you live in Madison, Wis., and teach creative writing, you've already made some decisions about what you're going to do as an artist, and you're quite free to do as you please," she said. "Some people get their books on the best-seller list and then they count the number of weeks, and I just never want to live that way. I already have been luckier than I ever dreamed that I could ever be."







TEXTO DE Luiza Jorge - PRODUÇÃO CULTURAL

Textos e Reflexões

Luiza Jorge - Revista 3º Fenatib

PRODUÇÃO TEATRAL

 

Revista

O que eu tenho para escrever sobre Produção Teatral são experiências conquistadas no exercício diário, na minha própria vivência como artista. A necessidade em viabilizar meus projetos e os meus espetáculos, fizeram com que eu descobrisse o caminho das pedras em direção à Produção, um caminho que na maioria das vezes as pessoas não gostam de seguir, pois consideram a produção um trabalho cansativo e complicado. Mas não vejo outra saída, a presença do mecenas que contrata o artista financiando o espetáculo e cuidando de tudo, está cada vez mais distante. Hoje, que quiser fazer teatro, tem que fazer a sua própria produção.

Cada vez mais, nós estamos sendo responsáveis pelo levantamento de um espetáculo. Elaborando projetos, fazendo captação de recursos, negociando com empresas, órgãos públicos e com os meios de comunicação. A produção bem elaborada está se tornando a base principal de um projeto, o alicerce que dá estrutura financeira para a realização do espetáculo.

Mesmo assim, iniciar uma produção hoje, está sendo um ato de resistência. Quem conseguir passar por todas as provas de captação de recursos, leis, patrocínios, apoios, etc, etc... e conseguir chegar até a estréia, é um vencedor.

E não pára por aí...a seguir vem a 2ª etapa, que é conquistar e manter o público que está cada vez mais escasso por conta das dificuldades financeiras e também pelo número crescente de opções de lazer principalmente dentro de casa. Opções baratas que divertem a família inteira, como fitas de vídeo, tv a cabo com montes de seriados, desenhos e mais os jogos interativos e a internet, que traz um mundo de atrações prendendo as pessoas durante horas diante do computador, principalmente aos finais de semana, onde o custo é reduzido.

É uma infinidade de apelos incentivando as pessoas a permanecerem muito mais tempo dentro de casa. Com muita oferta e pouco recurso financeiro, o público acaba ficando bem mais seletivo em suas escolhas. Este comportamento já está refletindo em nossas platéias. Precisamos ficar atentos e perceber que além de enfrentar uma maratona para conseguir levantar uma produção e fazer um espetáculo de qualidade, vamos ter que ser criativos ao máximo para estimular o público, a escolher o teatro, entre as inúmeras atrações que o mercado de entretenimento oferece, dentro e fora de casa.

Este mercado está evoluindo rapidamente e é altamente competitivo atuando em várias áreas. Um exemplo são os Parques Temáticos, que já é possível perceber, vai ser a grande tendência dos próximos anos. Estes parques, além de trazer brinquedos de impacto, promovem diversas atividades artísticas como shows, performances, espetáculos de dança e de teatro oferecendo diversão para a família inteira.

De um lado esses empreendimentos abrem campo de trabalho para a nossa área, mas por outro, estes Parques visam atingir o mesmo público que nós buscamos.

Diante deste quadro, vamos ter que investir em nossos projetos com uma postura cada vez mais profissional. O artista tem que mudar a tendência de sair com seu projeto na mão, como se fosse um pires, pedindo ajuda para montar seu espetáculo. Teatro é o nosso trabalho. Um projeto ou a montagem de um espetáculo é o fruto de meses e anos de pesquisa, de investimento. Nós temos que tirar deste trabalho o melhor e dar continuidade à ele, Evoluindo.

Não adianta montar um espetáculo hoje e só daqui há dois ou três anos conseguir fazer outro, quando se consegue... nós temos que criar condições para dar seguimento ao que estamos idealizando como profissionais, como qualquer outro profissional de outra área dá seguimento à sua carreira.

A nossa profissão é fazer teatro, esta é a nossa atividade, nosso ramo de negócio. E o fazer teatral é um excelente negócio.

As empresas estão começando a descobrir as vantagens de investir em arte, de investir em cultura. Este investimento, principalmente em atividades ligadas ao teatro infantil e juvenil traz um retorno muito favorável de imagem, demonstrando um interesse social e educacional na formação das crianças e dos jovens, valorizando assim, a imagem do patrocinador diante da mídia e da sociedade. Isso é muito positivo para a empresa.

Mas aí chegamos nós, com os nossos projetinhos, humildemente pedindo uma verba de ajuda, sem dar atenção à dimensão favorável que significa para a marca da empresa, do investidor, estar ligada ao nosso projeto.

Hoje, o profissional de teatro, não pode ficar se preocupando apenas com o resultado artístico e ter com o planejamento do seu projeto, do seu espetáculo, uma postura amadora. O profissional é aquele que valoriza o seu trabalho e sabe o seu preço diante do patrocinador. Sabe quando ele custa no sentido educacional, social, cultural e artístico.

O teatro abrange todos estes setores, mas geralmente o artista faz o seu preço avaliando somente o custo da produção. E o que vem além disso? Tem que partir do artista ampliar esta visão para si mesmo e expor ao patrocinador o alcance que o seu projeto, o seu espetáculo pode atingir e favorecer a imagem da empresa. É um excelente negócio que o artista tem a oferecer e deve ir em busca de sócios, de parceiros. É uma relação de igual para igual. Não tem que pedir, tem que negociar.

A verba de patrocínio tem que ser vista como uma negociação, uma sociedade que se propõe ao patrocinador. As duas partes tem que sair ganhando, o artista e o investidor.

Ë puro negócio, não é obra de caridade

Com o tempo vamos aprendendo como se faz isso, desde a formação do projeto, até as negociações. O projeto tem que ser claro, competente, especificando dados que façam a empresa se interessar em investir. Este projeto vai levar a imagem do patrocinador ao público, à mídia. O patrocinador precisa estar associado de alguma maneira à temática do espetáculo.

É importante o artista relacionar patrocinadores que tenham o perfil do seu espetáculo, não adianta fazer um monte de pastinhas com projetos iguais e sair distribuindo por aí. Cada empresa tem um perfil, o indicado seria elaborar um projeto especial para cada patrocinador.

É bom lembrar que, em algumas ocasiões, este projeto vai estar disputando uma verba de patrocínio voltada para a área de comunicação. Ele vai ser avaliado com projetos voltados para o cinema, vídeo, música, arte plásticas e uma infinidade de outros veículos existentes nesse setor, senso assim, aumenta a necessidade de se elaborar um projeto personalizado que se mostre atraente o investidor.

O que interessa ao patrocinador é investir em projetos competentes, que possibilitem algum tipo de retorno como: exposição da sua marca na mídia, reconhecimento da sociedade e do público em geral. Visibilidade e retorno de vendas ou imagem institucional.

Mesmo que o espetáculo tenha um porte menor, alternativo ou não interesse ao artista entrar em nenhuma disputa de mercado, mesmo assim, é preciso estar atento ao planejamento de produção para não investir em gastos desnecessários e conseguir um resultado positivo, mostrando seu trabalho ao público com qualidade e profissionalismo.

Se a captação de recursos significar apenas conseguir alguns metros de tecidos na lojinhas do "Seu Mané", esta negociação já diz respeito à produção e "Seu Mané" deve ficar sabendo que não está ajudando e sim investindo com o nome da sua loja na realização de um espetáculo. "Seu Mane" é um patrocinador e deve toda atenção que uma grande empresa receberia.

Durante uma produção, seja ela de que porte for, existe uma série de mecanismos de negociações que só se aprende na prática, no dia-a-dia, conforme vão surgindo as situações, não tem escola. A necessidade tem que bater na porta e jogar a gente na roda. É só com a vivência e usando a intuição que vamos nos aperfeiçoando nesta arte de criar recursos e levantar uma produção com qualidade, deixando todos os envolvidos satisfeitos: público, artistas e patrocinadores.

Com o tempo a gente vai se habituando às negociações e aprendendo a lidar com este universo empresarial. É um a outra linguagem, uma outra postura nas negociações, bem diferente da postura artística. O patrocinador é racional. O produtor precisa saber transitar muito bem nesta ponte delicada, que tem de um lado a razão do artista, na ótica da sua criação e do outro, a razão do patrocinador na sua ótica de números e visibilidade pública. Saber juntar essas duas expectativas, fazendo disso um bom negócio para os dois lados, é o sucesso de uma produção, que não significa o sucesso do espetáculo.

Graças a Deus, nós artistas, não trabalhamos com fórmulas e ainda somos livres pra criar, acertar e errar. E é pelo direito de ampliar estas oportunidades que nós precisamos nos especializar em nossas produções, abrindo espaço para podermos experimentar, errar e acertar cada vez mais.

Quero dizer aqui os meus parabéns a Teresinha Heimann e toda sua equipe pela primorosa atenção e produção do 3º Festival Nacional de Teatro Infantil de Blumenau. Saí feliz. Revi amigos antigos e fiz novos amigos que pretendo encontrar em futuras empreitadas de experiências, erros e acertos.

Luiza Jorge

Atriz e Produtora teatral em São Paulo.